Diego Contezini, CEO e cofundador do Asaas | Crédito: Divulgação/Arte por Startups “Sou bem romântico nessa história.” É assim que Diego Contezini define a própria visão sobre empreendedorismo. Enquanto boa parte do ecossistema associa startups a jornadas longas horas por dia e uma rotina de desgaste constante, o CEO e cofundador do Asaas acredita que empresas duradouras são construídas no caminho oposto, com equilíbrio, estratégia e decisões tomadas no longo prazo.
Essa filosofia acompanha o empreendedor desde a criação do Asaas, plataforma financeira e operacional para empresas. Antes da fintech, Diego e o irmão, Piero Contezini, comandavam outro negócio e enfrentavam a tarefa de ter que cobrar todos clientes manualmente. A tentativa de resolver esse problema deu origem ao Asaas.
O plano inicial, no entanto, não saiu como o esperado. A solução havia sido desenvolvida para empresas de software, mas encontrou pouco interesse nesse mercado. A virada aconteceu quando os fundadores perceberam que pequenos empreendedores e autônomos buscavam exatamente aquela ferramenta para gerar boletos, automatizar cobranças e organizar a gestão financeira.
Nesta edição do 5 Minutos Com, Diego relembra essa mudança de rota, fala sobre os desafios de captar investimentos fora do eixo Rio-São Paulo e compartilha os aprendizados de quase duas décadas à frente da empresa. Para ele, crescer como líder é uma exigência tão importante quanto fazer o negócio crescer.
A conversa também passa pela expansão do portfólio do Asaas, pela aposta em novas aquisições e pela visão do executivo para o futuro das fintechs. Em um cenário em que a tecnologia tende a se tornar cada vez mais acessível, ele acredita que o verdadeiro diferencial estará na capacidade de construir relações duradouras com os clientes.
Quem é Diego Contezini fora da cadeira de CEO?
Não acredito que exista essa separação tão grande entre o crachá e a vida fora da empresa. Mas essa não deixa de ser uma boa pergunta para responder.
Fora de ser CEO, sou um cara que gosta muito de lidar com gente, de apreciar bons momentos da vida, de respirar e contemplar. Sou o tipo de pessoa que precisa fazer as coisas com calma. Esse é o meu jeito de viver o mundo.
Isso se conecta um pouco com a minha história, já que comecei como programador com apenas seis anos. Eu tinha um TK-90X, ligava na TV e programava em Basic. Aí você pergunta: ‘Mas por que com seis anos?’. Porque o meu pai era nerd. Ele mexia com computadores antigos, anteriores a esse, daqueles de cartão perfurado, cartão magnético… Era outro mundo. Meu irmão também é nerd e brincava em volta desse computador. Por influência deles, do meu pai e do meu irmão, eu virei nerd também.
Isso se conecta um pouco com a minha história, porque comecei como programador com apenas seis anos. Eu tinha um TK-90X, ligava na TV e programava em Basic. Aí você pergunta: ‘Mas por que com seis anos?’. Porque o meu pai era nerd. Ele mexia com computadores antigos, anteriores a esse, daqueles de cartão perfurado, cartão magnético… Era outro mundo. Meu irmão também é nerd e brincava com esse computador. Por influência deles, eu virei nerd também.
Quando fiquei adulto, descobri que, apesar de me dar super bem com computadores, porque comecei muito cedo, isso não é o que me faz feliz. Eu sou mais de gente, de humanas e do mundo real. Gosto muito mais de lidar com pessoas do que com computadores.
Então, fora do Asaas, as pessoas encontram um Diego que está sempre fazendo atividades com outras pessoas, contemplando, brincando, tocando violão, fazendo churrasco. É quem eu sou.
Você fundou o Asaas em Joinville, fora do eixo tradicional. Em algum momento isso foi desvantagem?
Há desafios, principalmente quando a gente fala de empresas que precisam acelerar e captar investimento. Os investidores costumam olhar com certa estranheza tudo o que foge do padrão, e não ser do eixo Rio-São Paulo fazia eles perderem um ponto de confiança em nós. Além disso, fundadores sem passagem por Harvard, MIT ou outra universidade de prestígio perdiam mais um ponto. Então, no começo, captar recursos foi muito desafiador.
Isso é bem diferente dos últimos anos, quando fizemos a maior rodada da América Latina, há dois anos. Olhando para o início da empresa, parecia praticamente impossível. Estar fora do eixo tradicional significava não conviver diariamente com investidores, nem participar das redes de networking.
Por outro lado, há um lado muito positivo. A cultura de Joinville é de baixar a cabeça e trabalhar. Ao mesmo tempo, as pessoas conseguem manter um equilíbrio de vida. Dá para fazer academia, almoçar em casa, porque, muitas vezes, o deslocamento até o trabalho leva só 15 ou 20 minutos. Acho que essa combinação ajudou a formar equipes mais leves, mas que trabalhavam duro.
Em 2019, adotamos o modelo 100% remoto, pouco antes da pandemia. Hoje, a Asaas já não é mais uma empresa de uma cidade só. Cerca de 30% dos colaboradores estão em Santa Catarina, e o restante está espalhado pelo Brasil.
O que vocês esperam conquistar ao longo do segundo semestre?
Há algumas iniciativas com as quais estou bastante empolgado. Uma delas é o lançamento do nosso cartão pós-pago, que começou a chegar ao mercado recentemente.
Já trabalhamos com crédito e antecipação de recebíveis para os nossos clientes há anos, então lidar com crédito não é novidade para nós. O pós-pago, porém, é uma modalidade que oferece muito mais flexibilidade de capital para o empreendedor, permitindo financiar compras, parcelar pagamentos e ganhar mais fôlego de caixa. Estamos colocando muita energia nisso e queremos que este seja um ano de ampliar o acesso a capital para os nossos clientes.
Outro desafio que tem mobilizado a empresa é ampliar o portfólio de produtos financeiros. Queremos oferecer soluções que completem uma experiência cada vez mais próxima da de um banco.
Um exemplo é a aquisição da Mutuus, anunciada no início deste ano. A empresa é uma corretora de seguros e estamos nos preparando para lançar novos seguros para a base de clientes — uma demanda que eles mesmos trazem.
A Mutuus representa mais do que a entrada em seguros. A gente enxerga uma sequência de oportunidades a partir dessa aquisição. Por isso, também estamos buscando outras empresas que façam sentido para adquirir ainda este ano e ampliar a oferta de soluções para os clientes.
E, como acontece com toda empresa que cresce, existe o desafio de integrar tudo isso. É um trabalho grande, e tem sido um ano de muito aprendizado.
Na sua opinião, o que tende a ganhar cada vez mais espaço no mercado de fintechs no Brasil?
Tem um aspecto que não é novo, mas no qual sempre colocamos muita energia: construir um bom relacionamento com o cliente. Pode parecer algo óbvio, até meio enfadonho, mas eu digo isso porque, quando falamos de fintechs, a maioria nem sequer oferece um telefone para o cliente ligar. A gente oferece, 24 horas por dia.
Acredito que esse relacionamento vai se tornar cada vez mais importante. A tecnologia está ficando mais barata de desenvolver. Estamos vendo uma aceleração enorme com a IA, que permite criar e entregar funcionalidades muito rapidamente.
No fim do dia, o que vai diferenciar uma fintech da outra? Claro que sempre haverá empresas mais competentes para desenvolver software. A gente trabalha com isso há muito tempo. Eu comecei a programar aos seis anos, então sabemos fazer software. Mas o nosso foco sempre foi criar tecnologia simples, feita para pessoas de verdade, inclusive para aquele cliente que mal coloca uma vírgula em um e-mail e, ainda assim, consegue usar o produto.
Mesmo assim, acredito que o grande diferencial dos próximos anos será a capacidade de construir um relacionamento profundo com o cliente. Quem não conseguir fazer isso, na minha opinião, vai perder espaço, porque a tecnologia, sozinha, deixará de ser um diferencial. Talvez isso aconteça em três anos, talvez em cinco, mas acho que é um movimento inevitável para qualquer empresa que tenha tecnologia como parte central do negócio.
Muita gente que olha de fora acaba romantizando o empreendedorismo. Tem algo que ninguém te contou e você teve que aprender na marra?
Confesso que eu sou bem romântico. Vou responder de dois jeitos — primeiro, o que ninguém me contou; depois, o que eu realmente acredito.
O que ninguém me contou é que não importa o quanto a empresa cresça. Se eu não crescer no mesmo ritmo, como líder, gestor e pessoa, a empresa deixa de acompanhar. Em algum momento, ou eu continuo evoluindo ou preciso dar lugar para alguém mais preparado. A empresa cresce 50%, 60%, 70%, 80% ao ano. Como o gestor vai acompanhar isso se não crescer na mesma velocidade?
Acho que essa foi a maior surpresa. Eu não imaginava que seria tão intenso. Sempre achei que aprenderia mais sozinho. Sou autodidata. Eu e meu irmão aprendemos a programar por conta própria. A faculdade, brincamos, foi mais para deixar a nossa mãe feliz do que para nos formar. Então eu tinha essa visão de que conseguiria aprender tudo sozinho. Hoje entendo que preciso estudar muito, buscar formação e aprender continuamente para dar conta desse crescimento.
Mas existe um outro lado, no qual sou mais romântico. Muita gente diz que, para uma empresa dar certo, o fundador precisa trabalhar 12 horas por dia, sete dias por semana. Existe essa ideia de que, por trás de toda empresa de sucesso, há uma pessoa sofrendo.
Eu não acredito nisso. Criei uma empresa focada em equilíbrio. Eu não trabalho dessa forma e ninguém na empresa trabalha assim. A maioria das startups aceleradas que conheço vive nesse ritmo, mas a gente escolheu outro caminho.
Minha tese é que a gente precisa trabalhar muito durante oito horas por dia, cinco dias por semana. Se não conseguimos entregar nesse tempo, provavelmente o problema não é esforço, e sim estratégia. Quando fundamos a Asaas, eu já tinha essa convicção, baseada na experiência da minha primeira empresa, e fiz questão de construir a cultura dessa maneira.
As melhores decisões de longo prazo são tomadas quando a gente está com a cabeça boa. Existe quase um componente de intuição para enxergar o futuro do negócio, e isso só acontece quando a pessoa consegue relaxar, estar com a família, almoçar com calma, descansar no fim de semana. Aí ela volta para a empresa com clareza para pensar no longo prazo.
Trabalhar 12 horas por dia pode até funcionar por um tempo, mas, eventualmente, o corpo cansa, as pessoas se esgotam e as empresas perdem o rumo. Acredito que existe um limite saudável, e é importante respeitá-lo para construir uma empresa que dure no longo prazo.
Raio X – Diego Contezini
Um fim de semana ideal inclui… churrasco e ver o nascer do sol
Um livro que você recomenda: “Empresas feitas para vencer”, de Jim Collins
Um artista que não sai da sua playlist: Krishna Das, de mantras
Uma mania: Não consigo começar uma tarefa sem antes terminar a anterior, e garantir que esteja muito bem feita
Sua melhor qualidade: Capacidade de entender e lidar com as pessoas O post 5 Minutos com: Diego Contezini, CEO e cofundador do Asaas apareceu primeiro em Startups.