Thomaz Srougi não tira férias. Antes mesmo de falar sobre negócios, foi a primeira coisa que contou sobre si: trabalha muito, acorda antes de todos e pedala desde a pandemia — já são cinco anos de ciclismo incorporados à rotina. Um ritmo que, segundo ele, molda a forma como encara o trabalho e os novos desafios.
Depois de consolidar o dr.consulta — hoje com 6 milhões de pacientes e cerca de 300 mil atendimentos por mês —, Thomaz decidiu criar uma nova empresa e atacar um problema que observava havia anos: médicos perdendo pacientes por falta de estrutura para gerir suas clínicas. Foi assim que nasceu a Carecode, healthtech AI native que hoje atende 39 clínicas no Brasil e já começa a expandir a operação para o México.
Nesta edição do 5 Minutos com, o empreendedor fala sobre o que decidiu deixar para trás — e o que levou da experiência anterior —, os planos de expansão internacional e os diferenciais que, na sua avaliação, colocam a Carecode à frente de concorrentes mais tradicionais
Veja, a seguir, os melhores momentos dessa conversa:
Antes de falar de dr.consulta e Carecode, quem é o Thomaz que não está no LinkedIn?
É difícil dizer. Trabalho bastante, não tiro férias.
Gosto de fazer ciclismo. É um hobby que começou há cerca de cinco anos, na época da pandemia, quando não podíamos fazer muita coisa. Me preparo para isso, adoro acordar cedo, antes de todo mundo, e de fazer coisas diferentes.
O que te fez sair de uma operação consolidada como o dr.consulta para recomeçar praticamente do zero com a Carecode?
Eu tinha um projeto do dr.consulta para tocar nos Estados Unidos, mas ele acabou sendo interrompido pela pandemia. Como a sucessão na empresa já estava encaminhada, deixar o dr.consulta fazia parte desse processo.
O dr.consulta nasceu em outro momento, com o objetivo de ampliar o acesso à saúde para quem não tinha atendimento, e essa missão continua a mesma. A empresa cresceu, se consolidou e ganhou estrutura. Hoje, atende 6 milhões de pacientes e realiza cerca de 300 mil atendimentos por mês. É uma companhia que já alcançou um estágio de maturidade muito elevado.
Em paralelo, o mundo começou a viver uma disrupção tecnológica, e fiquei curioso para entender como poderia atacar outro problema: ajudar médicos a serem mais produtivos e destravar sua capacidade de atender mais pacientes. Foi daí que nasceu a Carecode.
Não trago nada da empresa anterior, além da experiência de construir clínicas do zero e observar onde elas costumam ter dificuldades. Com esse entendimento, conseguimos usar IA para evitar os problemas e ajudar os médicos a eliminar as dores ao longo da jornada. Entendo bem essas questões, assim como os objetivos e recursos do médico, me ajudam muito.
O que mudou no posicionamento da Carecode longo dos anos?
A Carecode começou da mesma forma que o dr.consulta: como um experimento científico. Fizemos uma primeira tentativa para encontrar um produto, mas ela não deu certo. Então, desmontamos o time inicial e, a partir de setembro de 2025, montamos uma nova equipe.
O primeiro produto que tentamos validar era voltado à navegação de beneficiários de planos de saúde dentro da rede credenciada. Mas esse nunca foi o meu core. Meu foco sempre esteve nas clínicas e nos pacientes.
Em determinado momento, comecei a questionar isso e percebi que precisava ajudar os médicos a deixarem de perder pacientes. Nas clínicas, eles investem em marketing, mas não conseguem atender todas as ligações — cerca de 40% delas ficam sem resposta. Sem um programa de confirmação de consultas, quatro em cada dez pacientes faltam. Já quando a clínica mantém um bom relacionamento com o paciente e facilita o acesso ao atendimento, a recorrência aumenta em 50%. É nesse contexto que a Carecode entra.
Montamos um novo time, com outras competências, testamos o produto e vimos que ele funcionava para o cliente. Começamos com cinco clínicas e os resultados foram muito positivos: aumentamos a receita dessas operações e o índice de resolutividade do agente, com intervenção humana, ficou entre 80% e 85%. A partir daí, expandimos para 30 clínicas. Depois, decidimos testar o modelo fora do Brasil e fomos para o México, repetindo a mesma estratégia de expansão. Hoje, já temos dois grandes clientes no país.
Atendemos clínicas de todos os portes. Normalmente, começamos pela gestão dos agendamentos — cancelamentos, remarcações e esclarecimento de dúvidas. Depois, avançamos para a gestão das consultas e dos exames já agendados, com foco em reduzir faltas. Na etapa seguinte, trabalhamos a recorrência dos pacientes, para que retornem no momento certo.
Na sua opinião, qual é o diferencial da Carecode em relação a outras healthtechs e plataformas do mercado?
Primeiro, algumas plataformas têm arquitetura legada, o que torna tudo mais difícil — elas não são AI native, ao contrário da Carecode. Segundo, a Carecode atua só na área da saúde, o que faz o produto ser mais profundo nesse setor e, consequentemnete, ajudar mais a clínica.
Nosso time é formado por brasileiros que estudaram nos Estados Unidos, praticamente na Universidade de Chicago e no Georgia Tech. São pessoas muito especializadas, que trabalhavam lá fora e voltaram para o Brasil para trabalhar na Carecode. A faixa etária média do time é de 25 anos, e eu, como fundador, estou há 10 anos no setor de saúde e passei pelas mesmas dores que médicos e investidores de clínica têm — então é o que eu construí para mim e estou construindo para eles.
Por fim, temos um pool de investidores muito qualificado, entre os maiores investidores de IA do mundo como Andreessen Horowitz, QED e Endeavor Catalyst, além do fundador do Nubank, David Vélez.
Como você avalia a adoção de tecnologia no setor de saúde atualmente?
As clínicas precisam de muita ajuda. Elas usam sistemas antigos que não resolvem — o chatbot pelo WhatsApp não funciona com a amplitude de uma IA conversacional. O chatbot resolve sozinho cerca de 10% das conversas; nossa IA conversacional resolve entre 80% e 85%. O chatbot não conversa nem pensa; a conversacional tem uma lógica não determinística, bidirecional, que pode derivar para qualquer situação.
A gente sentiu que era o momento ideal, mas também sabia que precisaria explicar aos médicos que é uma tecnologia segura — o que acontece com os dados, como eles são ou não armazenados. No início enfrentamos bastante desconfiança, mas assim que as clínicas implementam, elas pedem para que a gente faça mais.
Geralmente começamos pelo agendamento de consultas e, logo depois, elas pedem para expandir para agendamento de exames e gestão de faltas, porque veem que funciona. É uma tecnologia muito nova, e as clínicas estão aprendendo a entender e a confiar nela.
Quais as projeções de crescimento para o próximo ano?
Vamos continuar expandindo no Brasil e no México, embora ainda não tenhamos fechado as projeções de crescimento. Hoje, atendemos 39 clientes no Brasil e dois grandes clientes no México.
Decidimos entrar no mercado mexicano porque identificamos muitas semelhanças com o Brasil, especialmente nas demandas de clínicas e médicos. Além disso, a proximidade linguística na América Latina facilita bastante a operação. Resolvemos testar o mercado e os resultados foram muito positivos.
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