Entra em qualquer loja de museu no mundo — de Tóquio a São Paulo — e ela estará lá. O rosto de Frida Kahlo sorri (ou fita com seriedade) de canecas, almofadas, bolsas ecológicas, meias, bonecas, quebra-cabeças e velas decorativas. A artista mexicana se tornou talvez o rosto mais reproduzido da história da arte, uma marca global de resistência e empoderamento vendida a preços acessíveis nas prateleiras do capitalismo que ela tanto desprezava. A ironia, convenhamos, é de dar gosto.
O problema com o brand Frida é que ele funciona exatamente porque é seguro, redondo e sem arestas. A mulher real, no entanto, era tudo menos isso. Contemporâneos a descreveram como rude, de língua afiada e sem paciência para falsidades sociais. Bebia tequila com uma determinação que alarmava até os mais resistentes ao redor. Era comunista convicta — tinha um retrato de Stalin na cabeceira da cama e chegou a abrigar Leon Trotski em sua casa, a famosa Casa Azul em Coyoacán. Nada disso aparece nos chaveiros.
O corpo de Frida também era um território de dor muito além do romantismo que a indústria cultural gosta de empacotar. Um acidente de ônibus aos 18 anos a deixou com sequelas gravíssimas — coluna partido, pelve fraturada, pé esmagado — e a submeteu a mais de 30 cirurgias ao longo da vida. Sua obra é visceral justamente porque nasce desse lugar: sangue, ossos expostos, corpos fragmentados. Não é arte de decoração de quarto de Instagram. É grito.
Agora, uma grande exposição em Londres volta a colocar essas questões na mesa ao apresentar a artista em toda a sua complexidade — política, sexual, física e ideológica. A mostra tenta devolver à Frida a estranheza que faz dela uma figura realmente revolucionária, não apenas esteticamente atraente. O desafio é enorme: décadas de mercantilização criaram um filtro quase impenetrável entre o público e a pessoa real. Ver Frida hoje exige um esforço consciente de desaprendizagem.
No Brasil, onde o culto a Frida também é robusto — ela aparece em tatuagens, murais de rua e capas de caderno universitário —, talvez valha a reflexão: o que nos atrai nela é a coragem de uma vida vivida sem concessões, ou apenas o visual icônico das sobrancelhas e das flores no cabelo? Celebrar Frida Kahlo de verdade significa encarar a radicalidade que ela encarnou. E isso, definitivamente, não cabe em nenhum chaveiro.