Enquanto os holofotes do mercado estavam voltados para o petróleo, o Oriente Médio, os bancos centrais e a inteligência artificial, um velho conhecido volta ao radar dos investidores: o El Niño. E o momento em que ele reaparece é tudo menos trivial.
“O mundo pode estar prestes a enfrentar um choque climático de proporções gigantescas”, diz Matheus Spiess, analista da Empiricus Research.
E o motivo de preocupação não é apenas o fenômeno em si — é o contexto em que ele chega: inflação ainda sensível, juros elevados, cadeias de suprimentos reorganizadas, fertilizantes mais caros e bancos centrais com pouca paciência para novos choques de preços.
Afinal, o que é o El Niño?
Mas antes de entender como ele mexe com seu bolso e com seus investimentos, vamos ao beabá do fenômeno climático.
Para quem não é do ramo, o El Niño é a fase quente de um fenômeno chamado Enso (El Niño Oscilação Sul), causado pelo aquecimento anormal das águas do Oceano Pacífico.
Na prática, ele muda o regime de chuvas e temperaturas em várias partes do planeta — e pode se tornar bem mais que uma curiosidade climática quando afeta safras, preços de alimentos e, no fim das contas, o seu poder de compra.
Os números mais recentes reforçam o alerta. Segundo Spiess, as condições de El Niño já estavam presentes em junho e devem se intensificar até o início de 2027, com probabilidade elevada de o fenômeno persistir pelo menos até novembro.
Uma medição da Universidade de Columbia apontou que a temperatura da região de referência já havia subido 1,7°C em meados de junho — sinal de que a intensificação está em curso.
Como o El Niño vira inflação
Spiess explica que existem três canais principais pelos quais o El Niño pode afetar sua vida financeira.
1. Agrícola
Secas reduzem produtividade, chuvas em excesso atrapalham colheitas e transporte, e ondas de calor prejudicam a pecuária.
Como alimentos básicos têm pouca “elasticidade” — ou seja, as pessoas não param de comer só porque os preços sobem —, pequenas quebras de oferta podem gerar altas desproporcionais de preços”
2. Insumos
Fertilizantes e energia já estavam mais caros por causa das tensões geopolíticas. Quando o clima piora ao mesmo tempo, o choque não fica só na porteira da fazenda — ele chega ao varejo, às expectativas de inflação e às decisões de juros dos bancos centrais.
3. Financeiro
Com o risco de inflação de alimentos mais alto, a curva de juros pode abrir, moedas emergentes ficam mais frágeis e ativos mais sensíveis a prazos longos sofrem.
Em compensação, commodities agrícolas e empresas ligadas a insumos, armazenagem e logística podem ganhar espaço — desde que, segundo Spiess, façam sentido em termos de fundamentos e preço.
Quem sofre mais
A geografia importa, e cada região tem uma relação diferente com o clima. As áreas de maior risco de seca, segundo organismos internacionais citados por Spiess, são o Sahel africano, o sul da África, o sul e sudeste asiático, e o corredor seco da América Central e Caribe.
Juntas, essas regiões respondem por parte relevante da produção de arroz, milho e açúcar no mundo.
O histórico não é animador: episódios anteriores de El Niño, como os de 1982-83 e 1997-98, geraram perdas econômicas globais estimadas entre US$ 4,1 trilhões e US$ 5,7 trilhões nos cinco anos seguintes.
Um estudo do Banco Central Europeu (BCE) mostrou ainda que a transição de um El Niño tradicional para um El Niño forte pode elevar os preços globais de alimentos por até dois anos, com pico de alta de 9% cerca de 16 meses após o início do evento.
O El Niño pode impactor o Brasil (e o seu bolso) nos próximos meses
E o Brasil, ganha ou perde?
Aqui a resposta é dividida. Como grande produtor e exportador agrícola, o Brasil pode se beneficiar de preços internacionais mais altos em algumas commodities.
Por outro lado, o consumidor brasileiro fica exposto a alimentos mais caros em casa, e o Banco Central precisa decidir se esse choque é passageiro ou se vai contaminar as expectativas de inflação — o que mudaria a conta dos juros.
O mercado já embute parte desse risco nas contas: segundo estimativas da Reuters, o El Niño pode adicionar cerca de 30 pontos-base à inflação de 2026 e 40 pontos-base em 2027, com destaque para itens como café, açúcar e cítricos, mais sensíveis a secas ou excesso de chuva.
No agronegócio, o efeito também é misto: a cana pode se beneficiar de mais chuva em algumas regiões, mas a operação de moagem, colheita e transporte pode ser prejudicada.
Já nos grãos, o risco está no atraso do plantio e no encurtamento da janela da segunda safra.
Na visão de Spiess, “para o Brasil, o El Niño pode ser positivo para a receita de algumas produtoras, mas negativo para a inflação e para a previsibilidade operacional” — e, na conta geral, ele acredita que o efeito tende a ser “predominantemente negativo”.
Como se proteger
Spiess é direto: o cenário pede atenção, cuidado e paciência — mas não pânico. Para quem já tem uma estratégia de investimentos alinhada ao seu perfil, a recomendação é mantê-la, reforçando algumas proteções:
- Ativos ligados à inflação, que ajudam a preservar o poder de compra caso os preços realmente acelerem;
- Ações de empresas boas pagadoras de dividendos, que tendem a atrair investidores justamente em períodos de inflação mais alta;
- Exportadoras, empresas com maior capacidade de repassar preços e menos expostas aos problemas do agro doméstico;
- Dolarização ou exposição a moedas fortes, como proteção adicional num ambiente de maior incerteza global.
E, claro, um caixa robusto — no Brasil, isso ainda rende dois dígitos ao ano, mesmo com o Banco Central em processo gradual de corte de juros.
Spiess ainda recomenda o Empiricus+, com todas as recomendações da casa para os assinantes. Mas o recado final dele é que este El Niño não chega sozinho: soma-se a uma crise ainda não resolvida no Estreito de Ormuz, que já afeta cadeias de suprimento globais.
“Isso não vai mudar”, diz o analista sobre a tensão no Oriente Médio — o que reforça a ideia de que o investidor pessoa física precisa se preparar para um ambiente mais inflacionário e mais incerto nos próximos meses.
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