As maiores extinções em massa da história da Terra podem ter sido impulsionadas não apenas por grandes erupções vulcânicas, mas também por um processo subterrâneo capaz de alterar o clima durante décadas ou até séculos. A conclusão é de um estudo publicado na revista Science Advances, que amplia a compreensão sobre os fatores envolvidos nesses episódios.
A pesquisa foi conduzida por cientistas da Florida State University e analisou como o calor do magma interage com rochas ricas em enxofre e carbono, liberando gases capazes de provocar alternância entre períodos de resfriamento intenso e aquecimento prolongado. Segundo os autores, essas mudanças sucessivas podem ter sido decisivas para o desaparecimento de inúmeras espécies.
Os pesquisadores afirmam que o mecanismo ajuda a explicar por que algumas das maiores crises biológicas do planeta coincidem com eventos de intensa atividade magmática, oferecendo também novas pistas para compreender os limites da resposta do sistema climático às alterações ambientais.
Rochas aquecidas por magma podem ter mantido mudanças climáticas por longos períodos
Durante décadas, a principal explicação para as grandes extinções em massa esteve associada às enormes erupções vulcânicas que lançaram gases e lava em escala continental. O novo estudo, porém, sustenta que parte relevante desse impacto pode ter continuado mesmo após o encerramento da atividade eruptiva.
A equipe investigou um processo conhecido como metamorfismo, no qual rochas soterradas sofrem transformações devido ao calor e à pressão. Quando massas de magma entram em contato com formações geológicas ricas em enxofre e carbono, esses elementos passam a ser liberados em forma de gases que alcançam a atmosfera.
A geóloga Emily Stewart, professora assistente da Florida State University e autora do estudo, explica que os pesquisadores identificaram um mecanismo adicional capaz de influenciar grandes mudanças climáticas.
“Desde que a geologia existe como campo de estudo, os cientistas acreditam que as erupções vulcânicas e os gases que elas liberam eram o principal fator responsável pelo rápido resfriamento global e pelas oscilações climáticas. Descobrimos outro processo que também contribui para esses eventos: o metamorfismo“, afirmou a pesquisadora ao comentar os resultados do trabalho.
O estudo destaca que o enxofre e o carbono exercem efeitos distintos sobre o clima. Após alcançar a atmosfera, o enxofre origina partículas que refletem parte da luz solar de volta ao espaço e favorecem a formação de nuvens mais refletivas, intensificando períodos de resfriamento. Já o carbono permanece na atmosfera por muito mais tempo, acumulando calor e prolongando o aquecimento global.
Conforme a pesquisa, essa diferença na permanência dos gases faz com que o planeta enfrente ciclos repetidos de frio intenso sobre um pano de fundo de aquecimento gradual. Simulações realizadas pelos cientistas apontaram quedas de temperatura entre 5 °C e 7 °C durante esses episódios, enquanto o aquecimento continuava a se acumular ao longo de milhares de anos.
O meteorologista Michael Diamond, também professor assistente da Florida State University e participante do estudo, ressaltou que o enxofre produz efeitos relativamente passageiros na atmosfera. “Os picos de resfriamento são resultado do enxofre, que não permanece na atmosfera por mais do que alguns dias antes de se dissipar“, disse o pesquisador.
Em outro momento, acrescentou que o “carbono permanece na atmosfera por centenas, milhares ou até milhões de anos“, ao explicar por que o aquecimento persiste por períodos muito superiores.
Na avaliação dos autores, essa alternância constante entre frio e calor representa um desafio maior para a sobrevivência das espécies do que a ocorrência isolada de temperaturas extremas. Organismos adaptados a condições estáveis teriam enfrentado dificuldades para acompanhar mudanças sucessivas do ambiente em intervalos relativamente curtos.
A pesquisa compara esse comportamento climático com alguns dos maiores eventos de extinção já registrados.
Entre eles estão a crise do fim do Ordoviciano, que eliminou cerca de 85% das espécies marinhas rasas, a extinção do Devoniano, o evento do fim do Permiano, considerado o mais severo da história, e a crise do fim do Triássico, anteriormente relacionada por outros estudos à liberação de gases provenientes do aquecimento de sedimentos por magma.
Para os pesquisadores, os resultados não substituem a influência das erupções vulcânicas na explicação dessas extinções, mas mostram que processos subterrâneos podem ter desempenhado papel igualmente relevante ao prolongar as alterações climáticas.
Segundo Emily Stewart, a complexidade desses eventos vem se tornando mais evidente conforme novas pesquisas são desenvolvidas. “Quanto mais estudamos os eventos de extinção em massa, mais percebemos que eles são muito mais complexos do que imaginávamos“, concluiu a pesquisadora.
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