Como mãe de duas meninas pequenas, penso com frequência em como a infância delas é diferente da minha. A de sete anos está aprendendo sobre Inteligência Artificial na escola. A de cinco recebe todas as semanas tarefas de casa que dependem da Internet. E ambas sentem absoluta repulsa pela ideia de fumar.
Esse não era o sentimento predominante quando eu era jovem. Meus pais fumavam. Os clientes do restaurante da minha família fumavam. Personagens de desenhos animados fumavam. Meus amigos e eu comprávamos pequenos pacotes em formato de maço de cigarros, cheios de palitos brancos açucarados, e fingíamos fumar no parquinho. Fumar era uma parte central da nossa cultura.
É por isso que a recente aprovação, no Reino Unido, de uma proibição geracional da venda de produtos de tabaco parece algo tão significativo. Como parte da Lei do Tabaco e dos Vapes de 2026, os varejistas estão proibidos de vender produtos de tabaco a qualquer pessoa nascida depois de 1º de janeiro de 2009, em caráter permanente. Não importa quando essas pessoas completarem 18 anos, ou 38 ou 68, nesse sentido. Sempre será ilegal vender esses produtos a qualquer pessoa nascida depois dessa data.
É o que se descreve como uma abordagem de “erradicação”. Embora muitas estratégias de controle do tabaco, como a tributação ou imagens chocantes, tenham como objetivo reduzir o consumo, políticas como a do Reino Unido são concebidas para eliminá-lo por completo. Trata-se de uma nova abordagem, e ninguém sabe se funcionará.
As Maldivas foram o primeiro país a implementar uma proibição geracional do tabagismo, em novembro do ano passado. Ainda é cedo demais para dizer quais foram os resultados.
Também não sabemos se essas leis sequer permanecerão em vigor. Em 2022, a Nova Zelândia aprovou uma proibição geracional semelhante das vendas como parte de uma lei antitabagismo mais ampla. Mas ela nunca entrou em vigor. A lei foi revogada por um novo governo em fevereiro de 2024.
No Reino Unido, os dois principais partidos apoiam a proibição. Mas Nigel Farage, do Reform, sigla da direita que registrou recentemente um aumento no apoio, prometeu que “a proibição geracional do tabagismo não durará muito se o Reform tiver a oportunidade de começar a reconstruir nosso país mal administrado”.
Chris Bostic, advogado e ex-diretor de políticas públicas do grupo Action on Smoking and Health, afirma que ele e seus colegas começaram a promover a ideia de uma proibição geracional nos Estados Unidos há 11 anos. Na época, tiveram dificuldade para conquistar apoio, até mesmo de grandes organizações beneficentes de saúde. “As pessoas diziam que éramos loucos […] [e] que isso era impossível”, afirma. Os opositores argumentavam que as proibições infringiriam as liberdades individuais.
“O argumento da saúde pública é: bem, e quanto à liberdade em relação à dependência?”, diz Britta Matthes, pesquisadora de controle do tabaco na Universidade de Bath, no Reino Unido. A maioria das pessoas que fumam começou na adolescência, quer parar e gostaria de nunca ter começado. O tabaco é, possivelmente, o produto de consumo mais nocivo de todos os tempos.
Segundo a Organização Mundial da Saúde, ele matará metade dos usuários que não pararem de fumar. Também mata pessoas que não fumam. Dos 7 milhões de pessoas que morrem todos os anos em decorrência do tabaco, 1,6 milhão são não fumantes expostos à fumaça passiva, segundo a entidade.
As proibições geracionais de vendas são uma estratégia de longo prazo que protegerá apenas os futuros fumantes. A maioria dos especialistas concorda que as pessoas que já fumam devem ser uma consideração central em qualquer política, e que uma abordagem multifacetada provavelmente seja o melhor caminho. Janet Hoek, da Universidade de Otago, que analisou políticas de controle do tabaco na Nova Zelândia, acredita que impor limites muito baixos aos níveis de nicotina e proibir os filtros, um flagelo ambiental que não torna o cigarro mais seguro, como muitas pessoas acreditam, poderia ser uma “combinação poderosa”, por exemplo.
Mas impedir que os adolescentes comecem a fumar é uma perspectiva atraente, mesmo para a maioria das pessoas que fumam. E isso está começando a parecer muito menos radical.
Os Estados Unidos vêm avançando discretamente em menor escala. Desde 2021, Brookline, uma cidade na região de Boston, proíbe a venda de produtos de tabaco a qualquer pessoa nascida depois de 1º de janeiro de 2000. A ideia se espalhou. Hoje, há 23 cidades em Massachusetts com proibições semelhantes, afirma Bostic. Nove cidades em Minnesota, Nova Iorque e Califórnia implementaram outras políticas de erradicação.
A lei do Reino Unido normalizou a ideia como nunca antes, acrescenta Hoek. Seus colegas já estão recebendo ligações de órgãos de saúde de todo o mundo. “As pessoas [estão] dizendo: Uau, não acredito que o Reino Unido acabou de fazer isso, podemos fazer o mesmo aqui?”, afirma.
As normas mudam. Como muitos outros millennials, lembro-me nitidamente da primeira vez em que saí à noite depois que uma proibição de fumar em ambientes fechados entrou em vigor. Minhas roupas não ficaram fedendo! Meu cabelo continuava com uma sensação de limpeza! E minha garganta não estava irritada na manhã seguinte! Agora, isso é simplesmente normal. Espero que um mundo sem tabaco possa ser o novo normal para minhas filhas.
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