A SpaceX está despencando na bolsa e levando o mercado de IA junto
Sede da SpaceX em Hawthorne, na Califórnia | Foto: Shutterstock
O que começou como a maior estreia de uma empresa na bolsa em anos rapidamente se transformou em um teste de estresse para o mercado. É o que está acontecendo com a SpaceX. Depois de estrear cercada de euforia e alcançar uma valorização que chegou a colocá-la temporariamente entre as empresas mais valiosas do mundo, a companhia de Elon Musk passou por uma sequência de quedas que não apenas abalou seus acionistas, mas também ajudou a espalhar nervosismo por Wall Street.
A correção da SpaceX acabou se transformando em um sell-off que atingiu empresas de IA e fabricantes de chips, evidenciando uma preocupação que vinha crescendo silenciosamente entre investidores: até que ponto as avaliações das empresas ligadas à IA continuam justificadas?
Em apenas três sessões de negociação, mais de US$ 600 bilhões foram apagados do valor de mercado da SpaceX. Apenas na segunda (22), a empresa perdeu cerca de US$ 400 bilhões após uma queda próxima de 17% nas ações. No pregão seguinte, os papéis voltaram a cair e chegaram a ser negociados abaixo dos US$ 150, ficando momentaneamente abaixo do preço de abertura registrado em sua estreia na Nasdaq.
O efeito foi imediato. Os futuros do Nasdaq 100 chegaram a apontar para uma destruição potencial superior a US$ 1 trilhão em valor de mercado. Nvidia, Tesla, Alphabet, Amazon, Intel e AMD também registraram quedas. Os fabricantes de chips, ultimamente em alta no hype da IA, foram castigados. Intel e AMD registraram perdas superiores a 7%, enquanto empresas de memória como Micron, SanDisk e Western Digital sofreram quedas ainda mais acentuadas.
Para muitos analistas, o derretimento da SpaceX funcionou como o gatilho de uma correção que o mercado já vinha ensaiando. Em relatório divulgado nesta semana, traders do JPMorgan resumiram o momento com a expressão “Gravity strikes” (“a gravidade ataca”). A mensagem era simples: depois de anos de valorizações impulsionadas por expectativas cada vez mais ambiciosas sobre inteligência artificial, os investidores começaram a questionar quanto dessas promessas já está embutido nos preços das ações.
As preocupações vão além da SpaceX. Os chamados hyperscalers, como Amazon, Alphabet, Microsoft e Meta, comprometeram centenas de bilhões de dólares para construir data centers, desenvolver modelos de IA e ampliar sua infraestrutura computacional. O problema é que os retornos ainda estão no papel, sem previsão de chegada.
Segundo destacou à Reuters a sócia da gestora norte-americana de patrimônios Mattioli Woods, Lauren Hyslop, a combinação de um cenário de juros mais desafiador com as dúvidas sobre o tamanho do capital necessário para financiar a próxima fase da IA está entre os principais fatores por trás da recente onda de vendas. Segundo ela, o mercado não está abandonando a IA, mas começa a cobrar demonstrações mais concretas de rentabilidade.
Por que a SpaceX está caindo?
No caso da SpaceX, entretanto, existem razões específicas que ajudam a explicar a pressão sobre os papéis. Uma delas foi a repercussão de um anúncio financeiro feito pela companhia poucos dias após o IPO. A empresa informou possuir US$ 100,8 bilhões em caixa e equivalentes, mas, ao mesmo tempo, anunciou uma emissão de US$ 20 bilhões em títulos de dívida.
Para alguns investidores, a notícia levantou dúvidas sobre a necessidade de captar recursos tão pouco tempo depois de uma oferta pública bilionária. A explicação, porém, é mais financeira do que operacional. Os US$ 100,8 bilhões incluem os US$ 75 bilhões levantados no IPO, além de recursos provenientes de rodadas privadas anteriores.
Já a emissão dos títulos tem como objetivo refinanciar um empréstimo-ponte utilizado para financiar parcialmente a aquisição da Anysphere, dona da ferramenta Cursor, em um negócio avaliado em US$ 60 bilhões.
Outro fator que contribuiu para o aumento da volatilidade foi o início da negociação de opções da SpaceX. Com a abertura desse mercado, investidores passaram a ter instrumentos mais eficientes para apostar na queda das ações ou montar estratégias de proteção, ampliando a pressão vendedora justamente em um momento em que o papel ainda buscava um preço de equilíbrio após sua estreia.
Ainda assim, a queda recente não significa necessariamente que o mercado tenha perdido a confiança no negócio da SpaceX. A empresa continua sendo vista como líder em lançamento de foguetes, dona da rede de satélites Starlink e uma das companhias mais bem posicionadas para capturar oportunidades ligadas à infraestrutura tecnológica dos próximos anos.
A questão central é o preço. Essa análise é da consultoria Susquehanna Financial Group, que iniciou a cobertura da companhia com recomendação neutra e preço-alvo de US$ 170 por ação. O analista Charles Minervino traçou um cenário extremamente otimista para a empresa, projetando crescimento anual composto de 56% até 2030 e receitas que podem alcançar US$ 173 bilhões ao final da década.
Mesmo assim, ele evitou recomendar a compra dos papéis. Segundo Minervino, a avaliação atual exige premissas muito agressivas de crescimento e depende do sucesso de iniciativas que ainda não foram totalmente comprovadas comercialmente. “Existe uma ampla gama de resultados possíveis”, escreveu o analista ao justificar sua postura mais cautelosa.
A recomendação é compartilhada por Nic Puckrin, fundador da Coin Bureau. Para ele, investidores devem evitar interpretar o recente tombo como uma oportunidade óbvia de compra. Em empresas com um volume relativamente pequeno de ações em circulação, oscilações violentas costumam ser mais frequentes, tornando o comportamento dos papéis muito mais imprevisível.
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O que começou como a maior estreia de uma empresa na bolsa em anos rapidamente se transformou em um teste de estresse para o mercado. É o que está acontecendo com a SpaceX. Depois de estrear cercada de euforia e alcançar uma valorização que chegou a colocá-la temporariamente entre as empresas mais valiosas do mundo, a companhia de Elon Musk passou por uma sequência de quedas que não apenas abalou seus acionistas, mas também ajudou a espalhar nervosismo por Wall Street.
A correção da SpaceX acabou se transformando em um sell-off que atingiu empresas de IA e fabricantes de chips, evidenciando uma preocupação que vinha crescendo silenciosamente entre investidores: até que ponto as avaliações das empresas ligadas à IA continuam justificadas?
Em apenas três sessões de negociação, mais de US$ 600 bilhões foram apagados do valor de mercado da SpaceX. Apenas na segunda (22), a empresa perdeu cerca de US$ 400 bilhões após uma queda próxima de 17% nas ações. No pregão seguinte, os papéis voltaram a cair e chegaram a ser negociados abaixo dos US$ 150, ficando momentaneamente abaixo do preço de abertura registrado em sua estreia na Nasdaq.
O efeito foi imediato. Os futuros do Nasdaq 100 chegaram a apontar para uma destruição potencial superior a US$ 1 trilhão em valor de mercado. Nvidia, Tesla, Alphabet, Amazon, Intel e AMD também registraram quedas. Os fabricantes de chips, ultimamente em alta no hype da IA, foram castigados. Intel e AMD registraram perdas superiores a 7%, enquanto empresas de memória como Micron, SanDisk e Western Digital sofreram quedas ainda mais acentuadas.
Para muitos analistas, o derretimento da SpaceX funcionou como o gatilho de uma correção que o mercado já vinha ensaiando. Em relatório divulgado nesta semana, traders do JPMorgan resumiram o momento com a expressão “Gravity strikes” (“a gravidade ataca”). A mensagem era simples: depois de anos de valorizações impulsionadas por expectativas cada vez mais ambiciosas sobre inteligência artificial, os investidores começaram a questionar quanto dessas promessas já está embutido nos preços das ações.
As preocupações vão além da SpaceX. Os chamados hyperscalers, como Amazon, Alphabet, Microsoft e Meta, comprometeram centenas de bilhões de dólares para construir data centers, desenvolver modelos de IA e ampliar sua infraestrutura computacional. O problema é que os retornos ainda estão no papel, sem previsão de chegada.
Segundo destacou à Reuters a sócia da gestora norte-americana de patrimônios Mattioli Woods, Lauren Hyslop, a combinação de um cenário de juros mais desafiador com as dúvidas sobre o tamanho do capital necessário para financiar a próxima fase da IA está entre os principais fatores por trás da recente onda de vendas. Segundo ela, o mercado não está abandonando a IA, mas começa a cobrar demonstrações mais concretas de rentabilidade.
Por que a SpaceX está caindo?
No caso da SpaceX, entretanto, existem razões específicas que ajudam a explicar a pressão sobre os papéis. Uma delas foi a repercussão de um anúncio financeiro feito pela companhia poucos dias após o IPO. A empresa informou possuir US$ 100,8 bilhões em caixa e equivalentes, mas, ao mesmo tempo, anunciou uma emissão de US$ 20 bilhões em títulos de dívida.
Para alguns investidores, a notícia levantou dúvidas sobre a necessidade de captar recursos tão pouco tempo depois de uma oferta pública bilionária. A explicação, porém, é mais financeira do que operacional. Os US$ 100,8 bilhões incluem os US$ 75 bilhões levantados no IPO, além de recursos provenientes de rodadas privadas anteriores.
Já a emissão dos títulos tem como objetivo refinanciar um empréstimo-ponte utilizado para financiar parcialmente a aquisição da Anysphere, dona da ferramenta Cursor, em um negócio avaliado em US$ 60 bilhões.
Outro fator que contribuiu para o aumento da volatilidade foi o início da negociação de opções da SpaceX. Com a abertura desse mercado, investidores passaram a ter instrumentos mais eficientes para apostar na queda das ações ou montar estratégias de proteção, ampliando a pressão vendedora justamente em um momento em que o papel ainda buscava um preço de equilíbrio após sua estreia.
Ainda assim, a queda recente não significa necessariamente que o mercado tenha perdido a confiança no negócio da SpaceX. A empresa continua sendo vista como líder em lançamento de foguetes, dona da rede de satélites Starlink e uma das companhias mais bem posicionadas para capturar oportunidades ligadas à infraestrutura tecnológica dos próximos anos.
A questão central é o preço. Essa análise é da consultoria Susquehanna Financial Group, que iniciou a cobertura da companhia com recomendação neutra e preço-alvo de US$ 170 por ação. O analista Charles Minervino traçou um cenário extremamente otimista para a empresa, projetando crescimento anual composto de 56% até 2030 e receitas que podem alcançar US$ 173 bilhões ao final da década.
Mesmo assim, ele evitou recomendar a compra dos papéis. Segundo Minervino, a avaliação atual exige premissas muito agressivas de crescimento e depende do sucesso de iniciativas que ainda não foram totalmente comprovadas comercialmente. “Existe uma ampla gama de resultados possíveis”, escreveu o analista ao justificar sua postura mais cautelosa.
A recomendação é compartilhada por Nic Puckrin, fundador da Coin Bureau. Para ele, investidores devem evitar interpretar o recente tombo como uma oportunidade óbvia de compra. Em empresas com um volume relativamente pequeno de ações em circulação, oscilações violentas costumam ser mais frequentes, tornando o comportamento dos papéis muito mais imprevisível.
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Artigo originalmente publicado em
startups.com.br