Warren | Foto: Divulgação A rigor, a venda da Warren não chega a surpreender. Desde o ano passado a corretora buscava um sócio, depois, um comprador, num processo que passou por impasses internos sobre a cessão do controle e até a contratação de uma boutique de M&A para organizar os interessados. O desfecho chegou com um M&A: a Warren foi vendida para a argentina Cocos Capital, por um valor não divulgado.
Segundo destacou a Warren em comunicado em seu site, o deal abrange a Renascença (atual Warren Rena), principal braço operacional da fintech, a gestora de ativos e a vertical de mercado de capitais. A estrutura do negócio é híbrida, combinando dinheiro e emissão de ações, financiada integralmente com capital próprio da Cocos.
Como parte da operação, que ainda depende de aprovação regulatória, fundos que bancaram a Warren — entre eles a Kaszek, que foi nominalmente citada no comunicado — passam a ser acionistas da compradora. Outros grandes fundos que já investiram na Warren não foram citados, como GIC, QED, Ribbit, nem deram detalhes sobre como ficarão na nova estrutura.
Contudo, os fundadores Tito e André Gusmão, assim como os outros sócios Rodrigo Grundig e Marcelo Maisonnave, não devem seguir na empresa. De acordo com fontes ouvidas pelo Startups, eles tocarão uma iniciativa independente de tecnologia, e ficaram com uma parte minoritária dos ativos da Warren para tocar o novo projeto.
Lucrativa e de olho no Brasil
Fundada em 2021 por Ariel Sbdar e Nicolás Mindlin, a Cocos Capital tem uma trajetória de crescimento rápido e rentável. A fintech passou de 2 milhões de clientes na Argentina, construindo uma operação lucrativa praticamente sem captar capital externo. Em 2025, registrou US$ 49,7 milhões em receita e US$ 25 milhões em EBITDA ajustado.
Recém-dona também do banco argentino Voii, a plataforma projeta superar US$ 100 milhões em receita anual e administrar mais de US$ 4 bilhões em ativos até o fim de 2026.
“O Brasil é um mercado-chave em nossa estratégia. É o maior mercado de capitais da região e uma oportunidade única para construir uma plataforma escalável”, afirma Nicolás Mindlin, presidente do conselho e cofundador da Cocos, em comunicado.
Para o CEO Ariel Sbdar, o plano é replicar aqui a cartilha de casa: “Vemos uma oportunidade muito clara de aplicar no Brasil o que já fizemos na Argentina: simplificar os investimentos, fortalecer nossa proposta de valor e escalar com foco em eficiência.”
Aliás, escalar é a palavra fundamental caso a Cocos queira seguir com o plano da Warren e “incomodar” a hegemonia dos bancões e nomes como XP na arena das corretoras de investimentos. A Warren tem cerca de R$ 20 bilhões sob custódia e cerca de 100 mil clientes no varejo. Some Argentina e Brasil e a Cocos ainda é pequena perto dos R$ 2,08 trilhões em ativos, 4,8 milhões de clientes ativos e R$ 5,2 bilhões de lucro da empresa de Guilherme Benchimol.
Para Gilberto Braga, professor de Economia do Ibmec-RJ, a união da Cocos com a Warren, porém, pode originar uma empresa com força o suficiente para incomodar:
“Pelo que se sabe o modelo da venda envolveu a troca de ações, de forma que os fundos aportaram recursos originalmente na Warren poderão se tornar sócios da Cocos Capital. Sob essa ótica, se isso acontecer, sugere a possibilidade da formação de uma gestora robusta, com possibilidade de brigar com as médias e grandes do mercado de capitais”, diz ele, em entrevista ao Startups.
A Warren nasceu em 2017, em Porto Alegre, das mãos de ex-sócios da XP — os irmãos Gusmão, Rodrigo Grundig e Marcelo Maisonnave (este, aliás, um dos fundadores da própria XP) — com a bandeira explícita de furar o que Tito Gusmão chamava de “esquemão” do mercado: o modelo movido a comissões e conflitos de interesse. A proposta era o oposto, a remuneração por fee, alinhada ao cliente.
“A nossa vantagem é que a gente é sonhador, utópico aqui, meio idiota, de querer mudar a indústria no Brasil”, disse Tito ao Startups em uma edição do podcast MVP em 2024. Por muito tempo, a “bandeira” da Warren foi o de emplacar o modelo de corretagem por fee, e não por comissão, o que era e continua sendo a maior parte dos ganhos dos principais players.
Por um tempo, o sonho teve dinheiro para sonhar: a Warren levantou cerca de US$ 105 milhões em seis rodadas, atraindo fundos como GIC, Citi Ventures e Kaszek. O ápice do hype veio em 2021, com uma Série C de R$ 300 milhões liderada pelo GIC, fundo soberano de Cingapura. Na época, o movimento foi visto como “munição” para incomodar XP e BTG no longo prazo, e foi seguido da compra da Renascença, em 2021.
Entretanto, o que veio depois foi mais áspero. A corretora passou por cortes em 2022 e novamente em 2025, reorganizou a estrutura, repassou a administração fiduciária à Vórtx, separou a gestão de fundos em uma nova marca e só alcançou o breakeven em 2023. Mesmo faturando um recorde na casa dos R$ 220 milhões, nunca chegou perto da escala dos grandes.
A dúvida agora é se a aquisição pela Cocos Capital conseguirá trazer mais competição para o mercado de investimentos brasileiro. Por um lado, sai de cena mais uma corretora independente, depois de Órama, Necton, Guide e Toro terem sido absorvidas por bancos como BTG, Safra e Santander. Além disso, a XP já incorporou o modelo fee-based que a Warren tinha como diferencial: 21% da base da corretora de Benchimol já opera nesse modelo.
No lugar da Warren, porém, entra uma das plataformas financeiras digitais de maior crescimento da Argentina, com um trunfo que faltou à corretora gaúcha: ela dá lucro. A Cocos chega ao Brasil com receita e EBITDA no azul e metas públicas de superar US$ 100 milhões em receita e US$ 4 bilhões sob gestão até o fim de 2026.
“A compra da Warren pela Cocos Capital representa a entrada da fintech argentina no mercado de capitais brasileiro, num movimento pioneiro de internacionalização no âmbito do Mercosul. A chagada Cocos deve acirrar a concorrência e pode sinalizar que esse movimento refinamento do setor atraia novos players internacionais que devem mirar outras empresas brasileiras que cresceram muito nos últimos anos”, destaca Gilberto Braga. O post A venda da Warren é uma vitória ou ameaça para a XP? apareceu primeiro em Startups.