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A vida ao lado dos humanos pode estar criando gatos cada vez mais dóceis

Redação Recifes
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A vida ao lado dos humanos pode estar criando gatos cada vez mais dóceis
Foto: Anete Lusina / Pexels

A convivência entre humanos e gatos pode estar passando por uma transformação que vai além da domesticação ocorrida milhares de anos atrás. Pesquisas citadas pela bióloga Grace Carroll indicam que a vida próxima às pessoas pode favorecer alterações comportamentais em animais.

Estudos realizados com raposas em Londres e cervos no Phoenix Park, em Dublin, mostram que indivíduos mais dispostos a tolerar ou procurar humanos podem obter vantagens no ambiente urbano. Os resultados levantam uma questão semelhante para os gatos, embora eles já convivam com pessoas há milhares de anos.

A hipótese discutida é que os felinos ainda possam estar respondendo evolutivamente à vida ao lado dos humanos. Outra possibilidade, porém, é que a principal transformação tenha ocorrido na própria sociedade, que passou a atribuir aos gatos um papel muito mais próximo ao de integrantes da família.

A domesticação pode continuar depois da aproximação com humanos

A ideia de que a domesticação termina quando um animal passa a viver com pessoas é colocada em dúvida por pesquisas sobre espécies que continuam se adaptando aos ambientes humanos.

Um dos exemplos apresentados envolve raposas vermelhas estudadas em Londres e nas áreas rurais próximas à cidade. Em uma pesquisa liderada por Kevin Parsons, da Universidade de Glasgow, pesquisadores compararam crânios de animais provenientes dos dois ambientes. O trabalho, publicado em 2020, identificou diferenças recorrentes entre os grupos.

As raposas urbanas apresentavam focinhos proporcionalmente mais curtos e largos, além de caixas cranianas menores. Essas características são associadas a alterações observadas em processos de domesticação. A interpretação dos pesquisadores é que a vida urbana pode favorecer animais menos receosos diante das pessoas e mais capazes de aproveitar alimentos e abrigos disponíveis nas cidades.

Outro caso veio do Phoenix Park, em Dublin. Em 2022, Laura Griffin, Simone Ciuti e outros pesquisadores da University College Dublin observaram o comportamento de cervos que viviam nas proximidades da área urbana.

O estudo mostrou que parte dos animais evitava a aproximação humana, enquanto outros procuravam regularmente pessoas em busca de comida. Cerca de um quarto da população analisada apresentou comportamento descrito pelos pesquisadores como consistente na busca por alimento junto aos humanos.

A disposição para se aproximar das pessoas também pareceu estar relacionada ao sucesso reprodutivo. As fêmeas mais ousadas tiveram filhotes mais pesados, resultado que sugere uma possível vantagem para indivíduos capazes de explorar recursos associados à presença humana.

Esses exemplos sustentam a possibilidade de que a convivência com sociedades humanas continue exercendo pressão sobre o comportamento e as características de animais selvagens ou parcialmente domesticados.

No caso dos gatos, entretanto, a questão é mais complexa. Ao contrário dos cães, que foram selecionados para desempenhar diferentes funções ao lado das pessoas, os felinos tiveram uma trajetória de domesticação menos dependente de criação seletiva para tarefas específicas.

Os gatos teriam se aproximado das primeiras comunidades agrícolas atraídos pela concentração de roedores provocada pelo armazenamento de alimentos. A permanência perto das pessoas, nesse cenário, teria oferecido vantagens aos próprios animais.

A flexibilidade comportamental é apontada como uma das características que ajudaram os gatos a se adaptar a diferentes condições. Quando os recursos são limitados, eles tendem a manter uma vida mais solitária e a defender territórios próprios. Em locais onde há alimento em abundância, porém, conseguem tolerar a presença de outros gatos e formar grupos sociais relativamente estáveis.

Pesquisas também levantam a possibilidade de que a tolerância entre os próprios felinos tenha precedido a capacidade de conviver de maneira mais próxima com seres humanos.

A genética não é o único fator envolvido. A experiência durante os primeiros meses de vida também exerce influência. Filhotes que mantêm contatos positivos e frequentes com pessoas entre aproximadamente duas e sete semanas de idade apresentam maior probabilidade de se tornar adultos confiantes e amistosos.

Isso indica que a capacidade de estabelecer vínculos próximos com humanos pode fazer parte do repertório dos gatos há bastante tempo. Nesse cenário, eles não necessariamente precisaram se transformar em animais completamente diferentes para estreitar essa relação.

Uma transformação também aconteceu do lado humano

A mudança mais evidente pode estar relacionada à maneira como as pessoas passaram a enxergar seus animais de companhia.

Nas últimas décadas, alterações demográficas modificaram a estrutura de muitas famílias. A taxa de fecundidade caiu de quase cinco filhos por mulher em 1950 para pouco mais de dois atualmente, enquanto a parentalidade passou a ser adiada e mais pessoas permanecem sem filhos ou vivem sozinhas por períodos maiores.

Nesse contexto, animais de companhia podem assumir funções afetivas que antes estavam concentradas em relações familiares próximas.

Um levantamento realizado na Finlândia em 2023 com 857 donos de animais encontrou diferenças entre pessoas com e sem filhos na forma de falar sobre seus companheiros. Aqueles que não tinham filhos apresentavam maior tendência a se identificar como “mãe” ou “pai” dos animais, além de descrevê-los como filhos, crianças ou integrantes da família.

O mesmo estudo apontou uma ligação emocional mais intensa com os animais entre os participantes sem filhos. A tendência descrita pela autora é que esse tipo de vínculo possa se tornar mais frequente caso o adiamento da parentalidade e a ausência de filhos continuem presentes na sociedade.

Essa mudança na relação também aparece na valorização de determinadas características dos gatos. O texto cita o crescimento da popularidade de raças como o Ragdoll, associado ao comportamento afetuoso e dócil.

A consequência é uma mudança profunda na posição ocupada pelos felinos dentro das casas. Antes valorizados principalmente pela capacidade de controlar roedores, eles passaram a integrar uma estrutura de cuidados muito mais próxima daquela dedicada a membros da família.

Hoje, segundo o material analisado, gatos podem contar com seguro de saúde, acompanhamento de especialistas em comportamento e alimentação desenvolvida especificamente para suas necessidades.

Isso não elimina a possibilidade de que a espécie continue mudando ao longo das gerações. A convivência prolongada com humanos ainda pode influenciar seus comportamentos. O ponto central, contudo, é que a transformação mais expressiva talvez esteja naquilo que as pessoas esperam, sentem e fazem por seus gatos.

A domesticação, nesse sentido, pode não ser apenas uma história sobre animais que se adaptaram aos humanos. Ela também pode ser entendida como uma mudança na própria sociedade, que passou a atribuir aos gatos um espaço afetivo cada vez maior.

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Artigo originalmente publicado em olhardigital.com.br
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