No último dia 7 de julho, os olhares de amantes do vinho se voltaram para Dijon, na França. Mais precisamente ao suntuoso Palácio dos Duques da Borgonha, onde ocorreu a primeira concessão das Uvas Michelin. Parte de uma aproximação ambiciosa do prestigiado guia da gastronomia ao universo do vinho, a celebração acabou se tornando um campo aberto de opiniões discordantes e controvérsias.
As críticas questionavam a transparência e a metodologia adotada pelo Guia Michelin. Assim, a premiação de produtores lendários como o Domaine de la Romanée-Conti acabou ofuscada por reações imediatas de descontentamento.
O caso mais célebre foi o do Domaine Arnoux-Lachaux. Reconhecida com uma uva pela distinção, a vinícola solicitou publicamente sua remoção do guia. Em nota, alegou não saber como foi avaliada, posto que não envia amostras à imprensa desde 2020.
Houve também quem visse a estreia com otimismo. Trata-se, afinal, da entrada de nome popular como o Guia Michelin a uma indústria que sofre com a queda do consumo, global e na França. Diante do choque entre o prestígio histórico e as novas métricas de mercado, surge uma pergunta fundamental: em um mundo já repleto de medalhas, pontos e agora uvas, quem realmente decide o que é um bom vinho?
Para aprofundar o debate, o Seu Dinheiro Lifestyle procurou especialistas que vivem o dia a dia deste mercado. Matthew James Wickham, gerente de produtos da World Wine, Thamirys Schneider, sommelière da Wine, e Diogo Robert, sommelier do restaurante Donna, analisam a complexidade e o peso de prêmios e rankings. E discutem, afinal, por que um selo na garrafa pode — ou não — ser o fator decisivo para a sua próxima compra.
O peso da crítica
As Uvas Michelin são apenas o capítulo mais recente de um ecossistema acostumado a prêmios, listas, rankings e medalhas. "Diferentes segmentos do setor vinícola reconhecem e utilizam diversos tipos de premiação", diz Michael James, da World Wine. "Dependendo do valor e da origem do vinho, isso pode ter um impacto mais significativo."
É o que também explica Thamirys Schneider, da Wine: "cada avaliação tem um propósito, cada uma segue um critério", diz. "Todos têm o compromisso de comunicar o vinho de forma séria e comprometida, dando visibilidade ao produto, produtor e região, reconhecendo um nível de qualidade que precisa ser destacado, comunicando consistência, qualidade superior, uma ótima expressão, um vinho acima da média."
Para o consumidor, vale entender o que cada categoria de reconhecimento ilustra. Enquanto críticos levantam sua reputação degustando milhares de vinhos ao longo de décadas, concursos internacionais também têm grande peso no mercado. Especialmente porque as degustações costumam ser às cegas, explica Thamirys: "isso torna a avaliação mais fidedigna ao líquido, reduzindo a influência por preço, uva, região, produtor, estilo de produção".
Já as listas propõem uma curadoria mais contextualizada, por vezes indicando tendências, atualidades, safras excepcionais ou mesmo boa relação entre qualidade e preço. Um trabalho diferente dos rankings, que podem ser promovidos por revistas ou consultorias para indicar a consistência de um vinho, vinícola ou enólogo ao longo do tempo.
É justamente aí que entra um elemento central no debate sobre as Uvas Michelin: o prestígio. Para Diogo Robert, sommelier do Donna, a chegada de uma nova premiação acabou confrontando uma tradição secular do vinho com a abordagem corporativa de um guia internacional, ainda sem histórico de avaliação na categoria. As tensões se elevaram quase instantaneamente.
Questão de consenso
Mas quem está certo, afinal? Quem determina o que é um bom vinho? Em primeiro lugar, vale dizer que o consenso, no sentido estrito da palavra, parece um objetivo cada vez menos possível. Se, historicamente, o mercado seguia o compasso de vozes únicas, hoje o que se vê é uma transição cada vez maior para um dito "pluralismo". Ao menos é o que indica um artigo publicado em 2025 pela WineCap, plataforma internacional de investimentos focada no mercado de vinhos finos.
Em depoimento à consultoria, Jean-Luc Thunevin, dono do Château Valandraud, de Saint-Émilion, na França, afirmou que houve um tempo em que um único crítico, o lendário Robert Parker, representava 80% da influência global.
No entanto, desde que Parker se aposentou, em 2019, o que se percebe é o reforço de um coro de vozes, mais ou menos relevantes – e, por vezes, até dissonantes entre si. Em uma prova de 2021 citada pelo artigo da Wine Cap, a variação nas avaliações de diferentes críticos para um mesmo rótulo chegou a 10 pontos em uma escala centesimal.
"Como há muitos críticos, é muito comum encontrar divergências de opinião", explica Michael James, da World Wine. "Mas já vi casos em que o mesmo vinho recebeu 91 pontos de um crítico e 96 de outro. É uma diferença enorme."
Thamirys, da Wine, acredita que, para além dos “maiores reconhecimentos do mundo do vinho”, a melhor leitura seria da perspectiva do quanto de diferentes reconhecimentos convergem, e como isso impacta a reputação da marca ano a ano.
Mais do que uma opinião, aliás, a avaliação chega também para indicar o momento ideal para consumo. Considerando a evolução do vinho ao longo do envelhecimento em garrafa, essa informação é essencial para servir a bebida em restaurantes, mas, sobretudo, para regular sua precificação.
Um exemplo é a própria WineCap, que elege entre os critérios para que um rótulo ingresse ao mercado de investimento, a classificação mínima de 95 pontos na avaliação centesimal de grandes críticos, como The Wine Advocate, de Robert Parker, ou o Vinous, de Antonio Galloni.
Vinho premiado é vinho caro?
No vinho, portanto, reputação pesa no preço. Ainda assim, é um equívoco pensar que todo rótulo premiado é, necessariamente, um exemplar caro. Embora existam vinhos de luxo premiados, é perfeitamente possível encontrar garrafas de excelente custo-benefício e preços acessíveis que conquistaram medalhas em concursos renomados, explica Robert.
Para Michael James, esse é um dos muitos mitos que envolvem a bebida. Ele compara essa associação, por exemplo, à ideia de que, quanto mais pesada a garrafa, mais premium é o vinho. E adverte: às vezes, mitos como esse podem levar à decepção.
"No fim das contas, o paladar de cada consumidor é único. Um Bordeaux com 98 pontos pode não agradar a um consumidor que prefere tintos mais leves e frutados", diz Michael.
Thamirys Schneider lembra ainda que muitos concursos, às cegas, sequer consideram preço, mas sim a qualidade do que se serve em garrafa. E que a precificação não depende apenas de avaliações ou prêmios. A reputação do produtor ou região, a disponibilidade de uma safra, a lei de oferta e procura, o estilo da produção, uma denominação de origem e até o estilo do consumo entram no valor final. Ou seja, os parâmetros do início do ano 2000, por exemplo, não são necessariamente o que se busca hoje em dia.
"Qualidade tem a ver com um conjunto de avaliações que convergem em entender que aquele líquido surpreendeu, e que mereceu destaque e que nós, consumidores na ponta, podemos acessar vinhos surpreendentes e com preços acessíveis", explica a sommelière.
A hora da compra
Na prateleira, a indicação de uma premiação pode aparecer em selos ou medalhas impressos na garrafa, além de etiquetas de premiação, que costumam acompanhar exemplares acima de 90 pontos, por exemplo.
"No entanto, vinhos de categorias superiores frequentemente evitam essa prática para manter a apresentação do produto limpa e padronizada em todos os mercados", diz Michael.
Para quem está começando, explica Thamirys, as pontuações e premiações podem trazer maior confiança no momento de realizar a compra. O pulo do gato, de acordo com ela, está na comparação. "Primeiro, por destacar o produto dos outros na mesma faixa de preço. E, comparando com um produto de preço superior, sem qualquer premiação e pontuação, isso aumenta o valor percebido, e pode indicar que aquele vinho mais barato apresenta mais vantagem".
Como sempre, consultar um sommelier ou um importador de confiança pode ser um bom atalho. Inclusive porque, como lembra a própria estreia polêmica do Guia Michelin em Dijon, existem hoje vinhos singulares e excepcionais, elaborados por pequenos produtores artesanais, que jamais são enviados para avaliação de críticos. Que o diga agora o primeiro ex-detentor de uma Uva Michelin, Domaine Arnoux-Lachaux.
Guia, críticos e concursos: o que cada um avalia?
The Wine Advocate (Robert Parker Wine Advocate)
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Falar em crítica de vinhos é, incontornavelmente, falar em Robert Parker. O americano nascido em 1947, fundou a publicação considerada a responsável por popularizar a escala de 100 pontos. Como resultado, acabou atingindo o consumidor médio de vinhos nos Estados Unidos e moldando o mercado de vinhos finos por décadas.
Em 2019, Parker anunciou sua aposentadoria como avaliador de vinhos. Meses depois, a Michelin concluiu a compra de 100% dos direitos dado The Wine Advocate. Hoje, o guia segue ativo com uma equipe internacional de degustadores e continua sendo uma das referências mais influentes para Bordeaux, Vale do Rhône, Califórnia e outras regiões clássicas.
James Suckling
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Após quatro décadas como jornalista da revista especializada Wine Spectator, James Suckling despediu-se da publicação para lançar seu próprio projeto em 2010. Desde então, surge como uma voz capaz de impactar preços de vinhos comparável à de Robert Parker em seu auge.
Com base em Hong Kong, tornou-se central para o mercado asiático, embora disponha de grande importância para regiões produtoras clássicas, como Itália, Bordeaux e Champagne. Sua equipe afirma provar 25 mil rótulos por ano, mas por vezes são acusados de certa generosidade nas pontuações, o que levanta algumas críticas em relação a sua credibilidade.
Vinous
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Antonio Galloni teve uma passagem de destaque no The Wine Advocate, onde era responsável por vinhos italianos e Champagne. Em 2013, ele fundou a Vinous, onde escrevia paralelamente à sua rotina na prestigiada publicação de Robert Parker. Após uma separação pouco amigável, ele acabou partindo para dedicar-se integralmente a seu empreendimento.
A plataforma o consolidou como uma das vozes mais influentes do mundo. A contratação de Neal Martin em 2017 representou um ponto de virada, tornando-os uma dupla de críticos extremamente respeitada – inclusive por investidores.
Decanter World Wine Awards (DWWA)
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O Decanter World Wine Awards (DWWA) é um concurso internacional de degustação às cegas conduzido por centenas de Masters of Wine, sommeliers e especialistas.
As medalhas são entregues pela competição em cinco categorias – bronze, prata, ouro, platina e Best in Show, o ápice de cada segmento avaliado. Todas as distinções estão entre as mais respeitadas do setor. Elas costumam ser usadas por produtores como um importante selo de qualidade, especialmente para vinhos de faixas de preço mais amplas.
Concours Mondial de Bruxelles (CMB)
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Uma das avaliações mais rigorosas de vinhos e destilados do mundo, o Concours Mondial de Bruxelles (CMB) é destaque por um perfil mais internacional que outros concursos. Isso se reflete na origem dos mais de 15 mil rótulos examinados, como também em seu júri de 350 provadores de 50 nacionalidades.
A competição é feita 100% às cegas e dividida em quatro sessões específicas para diferentes estilos de vinho. Entre as premiações, concede medalhas de ouro, prata e grande ouro. Para muitos produtores, especialmente os de menor porte, uma medalha do CMB representa reconhecimento técnico, além de uma importante ferramenta de divulgação em mercados internacionais.
International Wine Challenge (IWC)
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Seus mais de 400 avaliadores incluem sommeliers, produtores, críticos, educadores, comerciantes, além de Masters of Wine. Com testes às cegas e múltiplas rodadas de degustação, o International Wine Challenge (IWC) tornou-se um dos mais sólidos concursos de vinho do mundo.
Criado em 1984, o IWC é realizado anualmente. E, além das categorias ouro, prata e bronze, ele concede troféus para os melhores exemplares de cada país, região ou estilo. Um bom recorte para quem busca uma avaliação independente.
Guia Descorchados
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Em 2026, o Guia Descorchados chegou a sua 28ª edição. O lançamento veio em um especial em três volumes que refletem sua identidade – um para vinhos chilenos, um para argentinos e um para Brasil, Uruguai, Bolívia e Peru. Isso porque, desde sua fundação, em 1999, a publicação do jornalista chileno Patricio Tapia tornou-se a principal avaliação dos vinhos da América do Sul.
Os números impressionam: a edição deste ano contempla 4 mil vinhos degustados, 200 vinícolas argentinas, 170 chilenas, 40 uruguaias, 37 brasileiras, 16 peruanas e 13 bolivianas. Com seu sistema de notas e distinções por categoria, acabou tornando-se, talvez, o panorama mais amplo e atualizado do vinho da região.
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