Como se o cenário brasileiro já não gerasse preocupação para os empreendedores, os empresários do setor industrial agora também têm mais motivos internacionais para perder o sono: a ameaça do presidente Donald Trump de aplicar novas tarifas de importação sobre os produtos do Brasil, além das incertezas geopolíticas geradas pela reescalada recente da guerra entre os EUA e o Irã.
Essa combinação de fatores derrubou o Índice de Confiança do Empresário Industrial (ICEI), medido pela Confederação Nacional das Indústrias (CNI), em julho.
O índice mensal varia entre 0 e 100 pontos e representa um cenário de desconfiança entre os executivos do setor sempre que fica abaixo do patamar de 50 pontos.
No mês de julho, o indicador foi de 44,4 pontos.
O número por si só já demonstra cautela e receio nas empresas industriais. Porém, existe um agravante: é o pior patamar desde junho de 2020, quando o Brasil e o mundo lidavam com os efeitos da pandemia de coronavírus.
Há também outro ponto de atenção nesse dado. O ICEI de julho é o décimo nono consecutivo abaixo da linha de confiança, o que demonstra um pessimismo contínuo na indústria.
O indicador só ficou abaixo de 50 pontos por mais tempo do que isso entre os anos de 2015 e 2016, quando o país estava em recessão econômica.
O ICEI calcula duas métricas diferentes e considera dois espaços temporais para chegar à pontuação final. Em pesquisa com pequenas, médias e grandes companhias industriais, a CNI aborda a percepção dos empresários sobre:
- O cenário macroeconômico; e
- A própria companhia.
E faz isso a partir de uma avaliação sobre as condições atuais, que compara o mês de julho com os seis meses anteriores, e sobre expectativas futuras, que reflete o que o empresariado espera para os seis meses que vêm à frente.
Nos dois cenários, o que mais gera pessimismo para os empreendedores é o cenário macro. As condições atuais para a economia brasileira receberam avaliação de 34,7 pontos — 15,3 pontos abaixo da linha de confiança.
A pressão externa sobre a confiança dos empresários
O sentimento de cautela já se arrasta há meses, mas foi intensificado em julho principalmente com a pressão das notícias no exterior.
A guerra entre os Estados Unidos e o Irã, que dava sinais de menor tensão, voltou a gerar preocupações com novas ofensivas. Os efeitos que já começaram a aparecer são a elevação dos preços do petróleo e o aumento da cotação do dólar, fatores que podem respingar na economia e indústria brasileira.
Além das incertezas com o Oriente Médio, os empresários também monitoram as tensões comerciais entre o Brasil e Estados Unidos.
Na quarta-feira (15), deve ser divulgada a conclusão da investigação do Escritório do Representante de Comércio dos EUA (USTR), que apura supostas práticas brasileiras consideradas prejudiciais às empresas norte-americanas.
A depender do resultado, novas tarifas de 25% podem ser aplicadas sobre os produtos brasileiros importados pelos EUA.
Entre os pontos questionados pelos norte-americanos estão temas ligados ao ambiente digital, serviços financeiros e barreiras regulatórias. O Brasil contesta as acusações e mantém conversas com Washington na tentativa de evitar a adoção de novas sobretaxas.
Quais são os efeitos da desconfiança
Com perspectivas mais negativas por parte dos empresários da indústria, a CNI explica que pode haver consequências nas atividades do setor e em toda a economia brasileira.
“À medida que existe um período tão longo de falta de confiança, certamente isso se traduz mais em uma redução do número de empregados, falta de produção, além de cancelamento ou adiamento de investimentos produtivos. O empresário tende a reduzir a atividade para esperar condições melhores na economia”, destaca Marcelo Azevedo, gerente de Análise Econômica da CNI.
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