O Festival OFF Avignon, um dos maiores encontros de teatro alternativo do mundo, recebe este ano um espetáculo que mergulha fundo no universo fragmentado e plural de Fernando Pessoa. 'Pessoa et Ses Autres' propõe uma viagem pelo labirinto interno do poeta português, costurando poesia, canto e teatro numa experiência que vai além da simples biografia encenada.
No centro dessa criação está a cantora franco-portuguesa Bévinda, que empresta sua voz e presença cênica à figura de Ofélia Queiroz — a mulher que trocou cartas apaixonadas com Pessoa e que, apesar da intensidade do afeto revelado na correspondência, jamais conseguiu alcançar plenamente o homem por trás dos heterônimos. A escolha de Bévinda para o papel não é casual: com trajetória consolidada entre o fado e a chanson francesa, a artista traz ao palco uma sensibilidade que dialoga diretamente com a melancolia e a ambiguidade que marcam essa história de amor improvável.
A montagem se inspira justamente nas cartas trocadas entre Pessoa e Ofélia, documentos que revelam um Fernando humano, contraditório e, ao mesmo tempo, incapaz de se desprender da própria obra para viver plenamente o amor. É a partir dessa tensão — entre o homem real e o poeta eterno — que o espetáculo constrói sua dramaturgia, alternando momentos de lirismo intenso com passagens de humor sutil e melancolia profunda.
O projeto extrapolou os limites do palco e resultou em um disco recém-lançado, no qual Bévinda interpreta canções que expandem o universo emocional do espetáculo. O álbum funciona como um desdobramento poético da peça, permitindo que o público leve para casa algo da experiência vivida na sala de teatro. Para os admiradores da literatura portuguesa e da música de raiz ibérica, a obra chega como um convite raro a revisitar Pessoa por um ângulo íntimo e sensível.
Com 'Pessoa et Ses Outros', o Festival OFF Avignon reafirma seu papel de palco para criações que atravessam fronteiras culturais e linguísticas. O espetáculo é uma prova de que a poesia de Pessoa continua viva e capaz de gerar novas interpretações — desta vez, pela voz de uma mulher que, como Ofélia, se aproxima do poeta sem nunca conseguir esgotá-lo.