A Anthropic estendeu pela segunda vez o período em que assinantes dos planos pagos do Claude podem usar o Fable 5, seu modelo de inteligência artificial mais avançado, sem custo adicional. A nova data-limite é 19 de julho. Depois disso, o modelo deixará de fazer parte da assinatura e passará a ser cobrado conforme o consumo, mesmo para quem já paga os planos Pro, Max, Team e Enterprise.
Segundo a Anthropic, a mudança é temporária e foi motivada por limitações de capacidade computacional para atender à demanda pelo modelo. Reem Ateyeh, porta-voz da empresa, afirmou em declaração enviada à Wired que o Fable 5 voltará a fazer parte das assinaturas “quando houver capacidade suficiente”. A reportagem observa, no entanto, que não está claro se, nem quando, essa restrição deixará de existir.
Caso a cobrança adicional seja mantida, será a primeira vez que uma empresa de IA adota um modelo baseado em consumo para seu sistema mais avançado voltado a assinantes, segundo a Wired. Até então, o padrão do setor era oferecer acesso gratuito limitado no chatbot ou uma assinatura mensal fixa, com limites maiores de uso e recursos premium.
Um pouco de contexto
O Fable 5 e o Mythos 5 foram lançados em 9 de junho compartilhando o mesmo modelo base, sendo o Fable a versão voltada para o consumidor. Três dias depois, o governo dos Estados Unidos impôs controles de exportação, restringindo o acesso aos modelos por cidadãos estrangeiros. Como não havia uma forma confiável de verificar a nacionalidade em tempo real, a Anthropic optou por suspender temporariamente o acesso a ambos para toda a base de usuários
Segundo comunicado da empresa, a medida do governo foi adotada depois que as autoridades norte-americanas tomaram conhecimento de um relatório da Amazon que descrevia uma forma de contornar as salvaguardas do Fable 5. Com esse método, era possível induzir o modelo a identificar vulnerabilidades de software e, em um caso específico, gerar código para explorar uma delas.
A Anthropic argumenta, porém, que testes internos mostraram que modelos menos avançados — incluindo o Claude Opus 4.8, o GPT-5.5 e o Kimi K2.7 — também eram capazes de identificar as mesmas vulnerabilidades descritas no relatório.
Os controles foram suspensos em 30 de junho, e o acesso ao Fable 5 voltou em 1º de julho, inicialmente com validade até 7 de julho. A data foi prorrogada para 12 de julho e, na sequência, para 19 de julho. Durante esse período, assinantes dos planos Pro, Max e Team podem usar até 50% do limite semanal do Fable 5 sem custo adicional.
Por trás da decisão
Depois de 19 de julho, continuar usando o Fable 5 exigirá créditos pré-pagos, na mesma tabela cobrada de desenvolvedores que utilizam a API da empresa: US$ 10 por milhão de tokens enviados ao modelo e US$ 50 por milhão de tokens gerados como resposta. Na prática, um assinante do plano de US$ 20 que enviar 1 milhão de tokens ao Fable 5 e receber 1 milhão de tokens de resposta pagaria US$ 60 adicionais no mês, chegando a US$ 80 no total.
O custo adicional está relacionado ao consumo de recursos do Fable 5. Desenvolvido para tarefas mais complexas e de longa duração, o modelo demanda muito mais capacidade computacional do que versões anteriores do Claude, o que ajuda a explicar a decisão da Anthropic de adotar uma cobrança baseada em uso.
A mudança evidencia que o modelo, classificado como um nível acima do Opus, deixou de ser tratado como parte natural da assinatura e passou a ser cobrado como um produto à parte, conforme o consumo, nos mesmos moldes da API para desenvolvedores.
O movimento acompanha uma discussão crescente no setor sobre a viabilidade dos planos de assinatura para modelos cada vez mais caros de operar. No início deste ano, Nick Turley, ex-responsável pelo ChatGPT e hoje à frente dos produtos corporativos da OpenAI, disse em entrevista ao podcast Bg2 que ter um plano ilimitado de IA “é como ter um plano de eletricidade ilimitado”, concluindo que “simplesmente não faz sentido”.
A Anthropic também já vinha alterando a forma de cobrar de grandes clientes corporativos, passando a taxar pelo uso real dos funcionários em vez de uma tarifa fixa. Segundo a Wired, a empresa ainda pode estar reorganizando sua estrutura de receita antes de um IPO planejado.
Testando os usuários premium
Segundo a Wired, a cobrança baseada em uso do Claude Fable 5 funciona como um teste para avaliar o apetite do consumidor pelos modelos da empresa. O Claude atingiu 245 milhões de visitantes únicos em maio, mais que o dobro de fevereiro, segundo a consultoria Sensor Tower — ainda distante dos 1,11 bilhão do ChatGPT e dos 662 milhões do Gemini, mas em crescimento acelerado.
Na avaliação da revista, a Anthropic busca ocupar uma posição semelhante à da Apple no mercado de IA, posicionando-se como uma marca premium voltada a usuários dispostos a pagar mais pelo acesso ao modelo considerado mais avançado.
Concorrência com o GPT-5.6
As prorrogações sucessivas do período gratuito do Fable 5 coincidem com o lançamento do GPT-5.6 Sol, da OpenAI, que chegou ao público em 9 de julho depois de semanas de acesso restrito. O lançamento também foi condicionado à aprovação prévia do governo norte-americano: inicialmente, apenas parceiros selecionados, com nomes compartilhados com as autoridades, tiveram acesso ao modelo, antes da liberação geral.
O episódio reflete um movimento mais amplo do governo dos Estados Unidos de escrutinar o lançamento de modelos de fronteira, com receio de uso indevido em ciberataques por parte de outros países. Tanto a Anthropic quanto a OpenAI foram afetadas por esse tipo de controle nas últimas semanas — a primeira, com a suspensão do Fable 5 e do Mythos 5; a segunda, com o lançamento faseado do GPT-5.6.
O que fica em aberto
Resta saber se os usuários do Claude aceitarão pagar assinatura e créditos por uso para manter acesso ao modelo mais avançado, enquanto Google e OpenAI apostam em publicidade para monetizar planos gratuitos e de baixo custo. Para a Anthropic, que se posiciona publicamente contra a publicidade, encarecer o acesso ao topo de linha pode ser, por ora, a única alternativa disponível.
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