Após fechar loja física, Cansei Vendi reduz operação e prioriza equilíbrio de caixa
Leilane Sabatini, fundadora e CEO da Cansei Vendi | Crédito: Divulgação
A Cansei Vendi passou por uma reestruturação completa nos últimos anos. Depois de apostar em uma estratégia omnichannel que chegou a dobrar o faturamento da empresa, a startup encerrou a loja física, reduziu equipe e portfólio e redesenhou a operação com foco na geração de caixa. Agora, com uma operação mais enxuta, a empresa voltou ao breakeven, prioriza a geração de caixa e busca retomar o crescimento de forma sustentável.
Fundada em 2013 por Leilane Sabatini, ex-trader do mercado de energia, a Cansei Vendi nasceu como uma página no Instagram para revenda de artigos de luxo e se tornou um dos principais brechós online do segmento no país. Em 2022, a empresa reunia mais de 10 mil peças de 125 grifes, autenticadas por uma equipe interna e pela norte-americana Real Authentication.
Foi naquele ano que a empresa apostou na expansão física, abrindo uma loja no bairro dos Jardins, em São Paulo. A unidade funcionava como vitrine do catálogo digital, exibindo cerca de 70 itens de marcas como Gucci, Chanel, Dior, Prada, Dolce & Gabbana e Louis Vuitton. O restante do acervo podia ser acessado mediante agendamento ou pela plataforma online, e as compras continuavam sendo concluídas no ambiente digital. Mesmo no espaço físico, toda a jornada de compra era concluída pelo celular.
O faturamento dobrou com a abertura da unidade, acima do crescimento histórico de cerca de 20% ao ano. A presença física também reforçou a credibilidade da marca e facilitou a conversão de clientes menos familiarizados com as compras online, especialmente mulheres acima de 50 anos que recebiam auxílio da equipe para concluir as compras pela plataforma.
O modelo chamou atenção do mercado de luxo. Segundo Leilane, o diretor da Galeries Lafayette, tradicional loja de departamentos de luxo francesa, visitou a loja da Cansei Vendi na primeira semana de operação. “Ele classificou o formato como inovador, principalmente pela experiência omnichannel”, diz a fundadora.
Um passo para trás
A estratégia, porém, teve vida curta. De acordo com Leilane, a decisão de encerrar a loja física, no fim de 2024, foi tomada após episódios de insegurança envolvendo o imóvel. A fundadora relata que uma tentativa de invasão elevou os custos operacionais — a empresa passou a manter vigilância armada durante a noite — e afetou sua saúde mental. Após seis meses operando nessas condições, decidiu fechar a unidade.
O fim da loja física impactou no caixa. Leilane afirma que o faturamento caiu cerca de 40%, chegando a recuar 50% em alguns meses. Para se adaptar ao novo cenário, a empresa enxugou a operação. A equipe, que chegou a ter 35 pessoas durante a operação física, hoje conta com apenas seis colaboradores.
Além disso, a curadoria de produtos ficou mais restrita. A Cansei Vendi deixou de aceitar roupas e calçados e passou a vender apenas bolsas, acessórios de couro, joias e relógios. “São as categorias com maior liquidez e menor tempo de estoque”, diz a CEO. A estratégia também busca elevar o ticket médio da operação.
A reorganização também passou por uma mudança de postura em relação ao capital. Leilane já injetou recursos próprios na empresa em diferentes momentos e contou com investidores no passado, incluindo um aporte anjo de R$ 400 mil e uma rodada pré-Série A de pouco mais de R$ 1 milhão.
Agora, a fundadora afirma ter retirado novas captações do planejamento e prioriza que a operação se sustente com o próprio caixa. “Nosso objetivo é garantir que a empresa tenha saúde e equilíbrio financeiro. Alcançamos o break-even e estamos voltando a gerar caixa”, afirma. Segundo Leilane, o foco agora é fortalecer a sustentabilidade do negócio — hoje 100% centrado no marketplace de moda circular de luxo — antes de retomar a expansão.
Novo ciclo
Para este ano, a Cansei Vendi retomou a meta de crescer 20% em faturamento, voltando ao ritmo que a empresa mantinha antes da aposta na expansão física. Leilane admite que o objetivo ainda não foi alcançado e destaca que as prioridades para o segundo semestre são fortalecer a presença digital e tornar a receita mais constante.
O cenário do varejo de moda no Brasil também pesa nos resultados. A CEO observa que o setor enfrenta instabilidade e que, embora o mercado de moda circular tenha crescido globalmente nos últimos anos, perdeu tração no Brasil, em parte pela falta de consolidação entre concorrentes. A Troc, outra empresa do setor, encerrou as operações.
Apesar dos desafios, Leilane afirma que a Cansei Vendi hoje opera com processos mais estruturados, o que lhe permite dividir a agenda entre a gestão da empresa e sua pré-candidatura a deputada estadual.
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