O mercado de apostas esportivas movimentou bilhões no Brasil nos últimos anos, e com ele veio uma avalanche de contratos publicitários envolvendo nomes conhecidos do esporte e do entretenimento. Atletas em atividade, narradores veteranos e ex-jogadores tornaram-se rostos recorrentes de plataformas de bets — mas uma pesquisa inédita agora coloca em xeque o retorno real dessa estratégia para a imagem de quem assina esses contratos.
De acordo com o levantamento, 40% dos brasileiros afirmam não confiar ou passaram a confiar menos em personalidades que veiculam publicidade de casas de apostas. O dado é expressivo e contraria a lógica que costuma guiar grandes investimentos em marketing de influência: a de que a audiência fiel de uma celebridade se transfere naturalmente para a marca anunciada. No universo das bets, esse mecanismo parece operar ao contrário — contaminando a reputação do comunicador, não legitimando o produto.
O problema vai além da percepção pública. Relatos de consumidores que desenvolveram dependência em jogos de azar e atribuem parte da responsabilidade à exposição constante a esse tipo de publicidade têm ganhado espaço no debate social. Frases como 'destruíram minha vida' sintetizam um sentimento que une ex-apostadores em grupos de apoio e fóruns on-line, e que já chegou aos corredores do Congresso Nacional, onde tramitam propostas de restrição à propaganda do setor.
Para especialistas em branding, a equação é clara: categorias de produto associadas a risco social elevado — como bebidas alcoólicas, tabaco e, agora, apostas — exigem dos influenciadores uma avaliação criteriosa que vai além do valor do cachê. A percepção de que uma figura pública está 'vendendo' algo potencialmente prejudicial a seus seguidores corrói a autenticidade, ativo mais precioso de qualquer criador de conteúdo ou celebridade. Uma vez perdida essa confiança, recuperá-la é um processo lento e incerto.
O cenário reacende o debate sobre regulamentação publicitária no setor. Enquanto o governo federal avança na normatização das apostas esportivas, a pressão por regras mais claras sobre quem pode anunciar, como e para qual público tende a crescer. Para as marcas e para os influenciadores, o recado do mercado começa a ficar mais nítido: em um ambiente de crescente desconfiança, contratos lucrativos no curto prazo podem representar um custo reputacional de longo prazo muito mais alto do que o valor depositado em conta.