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Argélia e Áustria: do escândalo de Gijón às mesas que contam histórias

Argélia e Áustria: do escândalo de Gijón às mesas que contam histórias

Há encontros que carregam o peso da história muito além das quatro linhas. Em 1982, na cidade espanhola de Gijón — um porto asturiano famoso por seus frutos do mar e sua sidra gelada —, Alemanha Ocidental e Áustria protagonizaram uma partida que entrou para o folclore do futebol mundial como a 'Desonra de Gijón'. Com um resultado combinado que eliminou a Argélia, os europeus atravessaram o gramado como quem cumpre uma formalidade, e os argelinos partiram para casa com o amargor de uma injustiça no paladar. Agora, mais de quatro décadas depois, o destino coloca Argélia e Áustria frente a frente novamente em fase de grupos de Copa do Mundo, e o fantasma daquela tarde ensolarada volta a assombrar o torneio.

O paralelo gastronômico não poderia ser mais rico. A culinária argelina é uma herança viva de séculos de rotas comerciais, influências berberes, árabes e mediterrâneas. O couscous — elevado a Patrimônio Imaterial da Humanidade pela Unesco — é o coração dessa cozinha: grãos de sêmola cozidos no vapor e servidos com carnes, legumes e um caldo aromático que reconforta a alma. O chakhchoukha, prato rústico de massas quebradas refogadas em molho apimentado, e o méchoui, cordeiro assado lentamente em brasas, completam um repertório que transforma cada refeição em celebração coletiva. Comer na Argélia é sempre um ato de hospitalidade.

Do outro lado da chaveação, a Áustria apresenta uma proposta igualmente sedutora, porém radicalmente diferente. Viena é uma capital gastronômica europeia que soube transformar a herança imperial habsburga em uma cozinha de conforto refinado. O Wiener Schnitzel — filé de vitela empanado e frito até a perfeição dourada — é talvez o prato mais emblemático, mas a cidade também orgulha seus cafés centenários, onde Apfelstrudel (strudel de maçã) e Sachertorte (o bolo de chocolate com geleia de damasco criado em 1832) são servidos com a seriedade de um ritual cultural. A Gemütlichkeit austríaca, essa ideia intraduível de acolhimento e bem-estar, encontra seu melhor endereço à mesa.

O atual formato da Copa do Mundo, com 48 seleções e grupos de três equipes, trouxe de volta o risco de combinações convenientes — o mesmo fantasma de Gijón em nova roupagem. Seleções que já asseguraram classificação podem, matematicamente, jogar pelo empate sem prejudicar a nação adversária. O tema agita dirigentes e torcedores, mas para o viajante curioso, o episódio serve como um convite a olhar para além do placar: tanto a Argélia quanto a Áustria têm muito a oferecer a quem chega disposto a explorar sabores, aromas e tradições. Que a disputa dentro de campo seja justa — e que a mesa de cada país continue sendo o melhor campo neutro para o entendimento entre povos.

Artigo originalmente publicado em www.france24.com
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