O governo argentino anunciou uma mudança significativa em sua política comercial automotiva: a partir de julho, as tarifas de exportação sobre veículos fabricados no país serão completamente eliminadas. A decisão integra um pacote de estímulos ao setor industrial e tem como principal alvo a cadeia produtiva de picapes, segmento que responde por fatia expressiva da manufatura automotiva do país vizinho.
A zeragem do imposto de exportação é encarada pela indústria argentina como um alento em um momento delicado. Montadoras que operam no país, como Toyota e Volkswagen, mantêm linhas de picapes que abastecem tanto o mercado interno quanto destinos na América Latina e além. Com a redução do custo de saída dos veículos, o argumento é que a competitividade desses produtos no exterior aumenta, sustentando empregos e investimentos nas fábricas locais.
Do lado de cá da fronteira, porém, a expectativa é de tranquilidade. Analistas do setor automotivo brasileiro avaliam que o impacto direto nas concessionárias nacionais deve ser bastante restrito. Isso porque as picapes produzidas na Argentina e que têm o Brasil como destino já operam dentro de um arcabouço regulatório específico, definido pelo Acordo de Complementação Econômica (ACE 14), que rege o comércio bilateral de automóveis entre os dois países com cotas e regras próprias.
Além disso, o mercado brasileiro de picapes é altamente competitivo e conta com produção local robusta. Modelos como a Hilux, fabricada em Indaiatuba (SP), a Ranger, que sai da linha de montagem em Tatuí (SP), e a S10, produzida em São José dos Campos (SP), já atendem à demanda nacional com boa capilaridade. A eventual chegada de mais unidades vindas da Argentina teria de enfrentar não só essa concorrência estabelecida, mas também as oscilações cambiais que historicamente encarecem ou barateiam o produto importado de maneira imprevisível.
O movimento argentino serve, no entanto, como termômetro do esforço regional para tornar a indústria automotiva mais competitiva globalmente. Com montadoras reavaliando continuamente suas estratégias de produção na América do Sul, decisões de política fiscal como essa ganham peso estratégico — e merecem atenção de quem acompanha o setor, mesmo que seus efeitos imediatos no bolso do consumidor brasileiro sejam, por ora, quase imperceptíveis.