O envelhecimento da população brasileira deixou de ser uma previsão distante e já pressiona o país em áreas como saúde, renda, moradia e mobilidade. Para o pesquisador Jorge Félix, especialista em gerontologia e autor de A (difícil) decisão de envelhecer, a questão central não é apenas reconhecer que o Brasil está ficando mais velho, mas assumir, de forma objetiva, as consequências dessa mudança.
Na avaliação dele, o debate público ainda trata a velhice como um problema individual, quando deveria ser encarado como um desafio coletivo e de Estado. Isso significa pensar políticas que garantam autonomia, acesso a cuidados, prevenção de doenças e proteção social, especialmente para quem chega à maturidade com menos recursos e mais vulnerabilidades.
O livro de Félix funciona como uma cobrança direta a gestores e formuladores de políticas: envelhecer não pode ser uma experiência marcada por improviso, abandono ou desigualdade. Se a sociedade vive mais, o planejamento precisa acompanhar esse novo cenário, com serviços preparados para a demanda crescente e com atenção à qualidade de vida ao longo dos anos.
Mais do que discutir a longevidade como conquista, a reflexão proposta pelo pesquisador convida o Brasil a fazer uma escolha difícil, porém inadiável: organizar-se para envelhecer com dignidade. Sem essa decisão, o aumento da expectativa de vida corre o risco de vir acompanhado de mais sofrimento, maior dependência e menos proteção para milhões de pessoas.