O que poderia ser apenas mais uma rodada de formalidades diplomáticas transformou-se em algo bem mais concreto. O Brazil-Korea Business Roundtable, realizado durante a visita do presidente sul-coreano Lee Jae Myung ao Brasil, funcionou na prática como uma grande sala de negociação — com executivos dos dois lados da mesa dispostos a fechar acordos, não apenas a cumprimentar autoridades. O vice-presidente Geraldo Alckmin copresidia o encontro ao lado de Lee, dando ao evento um peso político que raras vezes acompanha eventos do gênero.
Aproximadamente 30 líderes empresariais brasileiros e sul-coreanos participaram de três painéis temáticos que cobriram territórios estratégicos para ambas as economias: inteligência artificial, proteína animal e tecnologia industrial. A composição dos grupos não foi aleatória — reflete setores em que Brasil e Coreia do Sul têm complementaridades evidentes e, sobretudo, interesse mútuo em avançar. De um lado, o Brasil com sua escala produtiva no agronegócio e a crescente demanda por infraestrutura digital; do outro, a Coreia com seu ecossistema consolidado de manufatura avançada e P&D em IA.
A presença de empresas do setor de carnes no encontro chamou atenção e não foi por acaso. A Coreia do Sul é um mercado importador relevante para a proteína brasileira, e as discussões giraram em torno de condições de acesso, rastreabilidade e certificação sanitária — temas que, na prática, definem se os negócios avançam ou emperram nos meandros burocráticos. Para os frigoríficos brasileiros, consolidar canais diretos com distribuidores e varejistas coreanos representa redução de intermediários e margens mais competitivas.
Na frente tecnológica, o interesse sul-coreano no mercado brasileiro ficou evidente. Empresas do setor de semicondutores, eletrônicos e soluções de automação enxergam no Brasil um destino com demanda reprimida e política industrial em reconfiguração — o que, no vocabulário dos investidores, equivale a janela de oportunidade. As discussões sobre inteligência artificial foram além do entusiasmo retórico: os painéis abordaram aplicações específicas em logística, agricultura de precisão e serviços financeiros, áreas em que os dois países já possuem projetos em estágio avançado.
O formato fechado do evento — sem a pressão das câmeras e com espaço para conversas francas — foi apontado por participantes como diferencial decisivo. Acordos de intenção foram desenhados e, em alguns casos, equipes técnicas já saíram com cronogramas para dar os próximos passos. O que o roundtable deixa claro é que a relação Brasil-Coreia do Sul está migrando de uma parceria baseada em fluxos comerciais tradicionais para uma articulação mais sofisticada, ancorada em cadeias de valor compartilhadas e em tecnologia como vetor central de integração.