Brinquedos equipados com inteligência artificial comercializados no Brasil passaram a ser alvo de análise do Ministério da Justiça e Segurança Pública após uma avaliação indicar possíveis riscos relacionados à privacidade e ao comportamento de crianças. O levantamento foi divulgado em julho de 2026 pela Secretaria Nacional de Direitos Digitais.
A análise identificou preocupações envolvendo dispositivos capazes de registrar voz, imagens e informações do ambiente em que são utilizados, além de criar interações personalizadas com crianças. O estudo recomenda que órgãos responsáveis investiguem se fabricantes e plataformas de venda cumprem as exigências de proteção previstas para o público infantil.
A nota técnica foi elaborada pela Secretaria Nacional de Direitos Digitais, com participação de pesquisadores da Universidade Federal Rural de Pernambuco, após a avaliação de seis produtos disponíveis em grandes marketplaces no país. O documento aponta a necessidade de fiscalização sobre transparência, segurança e tratamento de dados coletados.
Ministério aponta possíveis falhas em transparência e proteção de dados
O estudo analisou os dispositivos Loona, EMO, Miko 3, Aibi, Amazon Fire HD Kid Pro e Vector, encontrados em plataformas como Amazon, Mercado Livre, Shopee, AliExpress, Magazine Luiza, eBay e Casas Bahia.
De acordo com a Secretaria Nacional de Direitos Digitais, os equipamentos avaliados possuem recursos como câmeras, microfones e sensores que permitem captar diferentes informações durante a utilização. Entre os dados que podem ser registrados estão características da voz, imagens faciais e elementos do espaço doméstico.
Além da coleta de informações, o documento destaca que esses brinquedos utilizam sistemas de inteligência artificial para conversar, responder a comandos e modificar suas interações conforme o comportamento da criança. Para o órgão, essa capacidade de adaptação pode criar relações de proximidade que exigem atenção.
A secretaria afirma que vínculos construídos entre crianças e dispositivos inteligentes podem estimular uma dependência maior do produto e aumentar riscos relacionados ao compartilhamento inadequado de informações. A avaliação também menciona a possibilidade de exposição de dados sensíveis caso existam falhas de segurança nos sistemas.
Entre os exemplos citados no relatório está a boneca My Friend Cayla, que teve sua comercialização proibida na Alemanha após autoridades apontarem que conversas captadas pelo brinquedo poderiam ser acessadas por terceiros. O caso foi usado como referência para discutir riscos envolvendo dispositivos conectados.
O documento também menciona registros de vazamento de áudios de crianças associados ao robô Miko 3. Outro equipamento analisado foi o Loona, um robô que simula um animal de estimação, utiliza processamento de linguagem natural, possui integração com o ChatGPT, conta com câmera para reconhecimento de usuários e sensores para mapear ambientes.
Loona é um pet robô autônomo (Imagem: divulgação/Jianbo)
O Ministério da Justiça também destacou a responsabilidade das plataformas de comércio eletrônico que oferecem esses produtos. Segundo a pasta, os sites devem apresentar informações claras sobre o uso de inteligência artificial, conexão com a internet, riscos à privacidade e necessidade de acompanhamento dos responsáveis.
A recomendação da Secretaria Nacional de Direitos Digitais é que a Secretaria Nacional do Consumidor e a Autoridade Nacional de Proteção de Dados avaliem possíveis irregularidades envolvendo a divulgação das características dos produtos e o tratamento das informações coletadas.
“Os fatos relatados apontam para indícios de possíveis irregularidades, de caráter sistêmico, com potencial de afetar direitos fundamentais de crianças e adolescentes, o que recomenda apuração formal”, afirmou a Secretaria Nacional de Direitos Digitais, em nota técnica encaminhada aos órgãos responsáveis pela fiscalização. O post Brinquedos com IA se aproveitam de crianças? O Governo teme que sim apareceu primeiro em Olhar Digital.