Fuga da ilha: por que cubanos agora superam venezuelanos no Brasil
<p>Há algo de surreal na cena que se repete semana após semana em Pacaraima, no extremo norte de Roraima: homens e mulheres exaustos, muitos ainda com barro nas botas, cruzando a fronteira depois de dias de caminhada por trilhas na floresta. Não são venezuelanos — protagonistas da crise migratória da última década. São cubanos. E desde 2025, eles se tornaram, pela primeira vez na história recente, a principal nacionalidade a solicitar refúgio ao Brasil, superando os próprios vizinhos venezuelanos em número de pedidos registrados.</p><p>O que empurra esse fluxo? A resposta está em números cotidianos que beiram o absurdo. Um psicólogo formado em Cuba, profissão que exige anos de estudo e dedicação, pode receber um salário mensal equivalente a algumas dezenas de dólares — quantia insuficiente para comprar sequer trinta ovos no mercado informal da ilha. O colapso do sistema de abastecimento, combinado com apagões que chegam a durar mais de vinte horas por dia em certas regiões, transformou a sobrevivência em um exercício diário de criatividade e resistência. Para muitos, a conclusão é inevitável: ficar é uma escolha que o corpo e a mente já não conseguem sustentar.</p><p>A rota até o Brasil não é simples nem barata. Coiotes cobram até dez mil dólares por pessoa para guiar grupos por caminhos que passam pela América Central, Colômbia e Venezuela antes de chegar a Roraima. Parte do trajeto é feita em barcos precários; outra parte, a pé por mata fechada, com todos os riscos que isso implica — animais peçonhentos, doenças, grupos armados e o simples risco de se perder. Quem não tem o dinheiro todo adianta uma parte e negocia o restante com promessas de pagamento futuro, já em solo brasileiro.</p><p>O paradoxo geopolítico não passa despercebido: Cuba e Brasil mantêm relações diplomáticas cordiais, e o governo cubano historicamente vê com desconfiança seus cidadãos que emigram por rotas não oficiais. Ainda assim, o fluxo não para. As autoridades brasileiras em Roraima relatam chegadas constantes, e o sistema de acolhimento da região — já tensionado pela crise venezuelana dos anos anteriores — precisa se adaptar a um novo perfil de migrante: frequentemente mais escolarizado, falante apenas do espanhol e com uma narrativa de crise econômica profunda, não de perseguição política direta, o que torna o processo de reconhecimento do status de refugiado mais complexo juridicamente.</p><p>O que o fenômeno revela, no fundo, é que o colapso de uma sociedade raramente chega de uma vez. Ele se acumula em pequenas impossibilidades: o ovo que falta, a luz que não volta, o salário que não cobre o básico. Até que atravessar selva e mar, pagar a um coiote e começar do zero em um país desconhecido parece, de alguma forma, a opção mais racional disponível. O Brasil, acostumado a ser destino de migrações regionais, agora aprende que a crise cubana também chegou — e chegou pela porta dos fundos da Amazônia.</p>
Artigo originalmente publicado em
www.bbc.com