Corrida tecnológica global: o Brasil vai ficar para trás de novo?
Corrida tecnológica | Foto: Canva
*Por Franklin Lacerda, economista e CEO da Análise Econômica
Se eu lhe perguntar por que, mesmo com indicadores macroeconômicos razoáveis, a sensação térmica da nossa economia parece tão ruim, você saberia responder? A raiz desse mal-estar é que o Brasil está ignorando a corrida tecnológica global.
Enquanto focamos no timing errado de juros e inflação, a corrida tecnológica global avança rápido, ditando a geopolítica da inovação. Preso à velha economia, o país assiste à corrida tecnológica global sem o protagonismo necessário para competir no mercado moderno.
O resultado dessa corrida tecnológica global apática é o que meu orientador de mestrado, Rubens Sawaya, chama de subordinação consentida: nossa recorrente escolha de sermos meros coadjuvantes das cadeias de valor estrangeiras.
A herança histórica das nossas vantagens comparativas
Se olharmos para o espelho da história, as decisões estratégicas do país sempre priorizaram o conforto das vantagens comparativas de David Ricardo em detrimento do futuro de longo prazo.
Na quarta revolução tecnológica, quando a indústria automobilística liderava as grandes transformações mundiais, o Brasil focava em dominar o mercado de café e commodities básicas. Quando resolvemos nos industrializar, optamos por abrir as portas para as matrizes estrangeiras instalarem suas montadoras aqui.
Paralelamente, países como o Japão e as economias do Leste Asiático aplicavam estratégias agressivas de catching up tecnológico para criar suas próprias marcas globais, como Honda, Toyota e Samsung.
Décadas depois, na quinta revolução, quando as Tecnologias de Informação e Comunicação (TICs) começaram a redesenhar as estruturas de consumo de produtos e serviços, nós ainda estávamos “batendo cabeça” com problemas crônicos de câmbio e inflação herdados do século passado.
O mundo gerou Apple, Microsoft, Google, Meta e OpenAI. A China nos superou ao largo de forma praticamente irreversível e nós continuamos na base da pirâmide produtiva mundial, vendendo o almoço para comprar a janta.
O plano de ação para mudar a nossa trajetória
Olhar para esse histórico é doloroso e muitas vezes desanimador, mas existe um caminho real para rompermos com a nossa dependência, reverter esse cenário de subordinação e avançarmos na produtividade nacional. O plano de ação urgente para o Brasil exige cinco passos cirúrgicos, ao meu ver.
Estratégias práticas para o desenvolvimento econômico:
Mapear a onda: compreender em qual fase exata da atual revolução tecnológica nós estamos para alinhar nossos investimentos públicos e privados, evitando gastar recursos em soluções que já nascem obsoletas.
TRL e Horizontes de Inovação: mapear o nível de maturidade tecnológica (Technology Readiness Level) dos nossos centros de pesquisa e universidades, direcionando o capital de risco para impulsionar aquilo que tem viabilidade real de escala comercial.
“Buscar a escada”: Resgatar o papel do incentivo inteligente à tecnologia nacional. Os países desenvolvidos enriqueceram usando forte proteção e fomento estatal e, depois que chegaram ao topo, “chutaram a escada” recomendando o livre mercado aos subdesenvolvidos.
Leapfrogging tecnológico: saltar etapas produtivas expandindo a nossa complexidade econômica através de tecnologias disruptivas (Horizontes 2 e 3 de inovação), focando na aplicação de Inteligência Artificial onde já temos força bruta, como no agronegócio e na transição energética.
Microlearning para o capital humano: investir pesado em capacitações ágeis, focadas em tecnologia e engenharia, para escalar rapidamente as habilidades fundamentais da nossa força de trabalho antes que as transformações digitais dizimem os empregos tradicionais.
O alerta econômico para as próximas eleições
Levando em consideração que estamos em um ano de decisões, quero deixar um conselho prático para os tomadores de decisão e fundadores do ecossistema: observem atentamente as propostas para o futuro do país.
Se o plano de governo de um candidato resumir a estratégia brasileira a construir galpões de data centers para armazenar dados de grandes corporações americanas, ou se a grande promessa de riqueza for apenas escavar o chão para exportar minérios de terras raras in natura para a Ásia, o diagnóstico já é conhecido.
Estaremos, mais uma vez, assinando o nosso termo de subordinação e nos declarando perdidos no atraso estrutural.
O post Corrida tecnológica global: o Brasil vai ficar para trás de novo? apareceu primeiro em Startups.
*Por Franklin Lacerda, economista e CEO da Análise Econômica
Se eu lhe perguntar por que, mesmo com indicadores macroeconômicos razoáveis, a sensação térmica da nossa economia parece tão ruim, você saberia responder? A raiz desse mal-estar é que o Brasil está ignorando a corrida tecnológica global.
Enquanto focamos no timing errado de juros e inflação, a corrida tecnológica global avança rápido, ditando a geopolítica da inovação. Preso à velha economia, o país assiste à corrida tecnológica global sem o protagonismo necessário para competir no mercado moderno.
O resultado dessa corrida tecnológica global apática é o que meu orientador de mestrado, Rubens Sawaya, chama de subordinação consentida: nossa recorrente escolha de sermos meros coadjuvantes das cadeias de valor estrangeiras.
A herança histórica das nossas vantagens comparativas
Se olharmos para o espelho da história, as decisões estratégicas do país sempre priorizaram o conforto das vantagens comparativas de David Ricardo em detrimento do futuro de longo prazo.
Na quarta revolução tecnológica, quando a indústria automobilística liderava as grandes transformações mundiais, o Brasil focava em dominar o mercado de café e commodities básicas. Quando resolvemos nos industrializar, optamos por abrir as portas para as matrizes estrangeiras instalarem suas montadoras aqui.
Paralelamente, países como o Japão e as economias do Leste Asiático aplicavam estratégias agressivas de catching up tecnológico para criar suas próprias marcas globais, como Honda, Toyota e Samsung.
Décadas depois, na quinta revolução, quando as Tecnologias de Informação e Comunicação (TICs) começaram a redesenhar as estruturas de consumo de produtos e serviços, nós ainda estávamos “batendo cabeça” com problemas crônicos de câmbio e inflação herdados do século passado.
O mundo gerou Apple, Microsoft, Google, Meta e OpenAI. A China nos superou ao largo de forma praticamente irreversível e nós continuamos na base da pirâmide produtiva mundial, vendendo o almoço para comprar a janta.
O plano de ação para mudar a nossa trajetória
Olhar para esse histórico é doloroso e muitas vezes desanimador, mas existe um caminho real para rompermos com a nossa dependência, reverter esse cenário de subordinação e avançarmos na produtividade nacional. O plano de ação urgente para o Brasil exige cinco passos cirúrgicos, ao meu ver.
Estratégias práticas para o desenvolvimento econômico:
Mapear a onda: compreender em qual fase exata da atual revolução tecnológica nós estamos para alinhar nossos investimentos públicos e privados, evitando gastar recursos em soluções que já nascem obsoletas.
TRL e Horizontes de Inovação: mapear o nível de maturidade tecnológica (Technology Readiness Level) dos nossos centros de pesquisa e universidades, direcionando o capital de risco para impulsionar aquilo que tem viabilidade real de escala comercial.
“Buscar a escada”: Resgatar o papel do incentivo inteligente à tecnologia nacional. Os países desenvolvidos enriqueceram usando forte proteção e fomento estatal e, depois que chegaram ao topo, “chutaram a escada” recomendando o livre mercado aos subdesenvolvidos.
Leapfrogging tecnológico: saltar etapas produtivas expandindo a nossa complexidade econômica através de tecnologias disruptivas (Horizontes 2 e 3 de inovação), focando na aplicação de Inteligência Artificial onde já temos força bruta, como no agronegócio e na transição energética.
Microlearning para o capital humano: investir pesado em capacitações ágeis, focadas em tecnologia e engenharia, para escalar rapidamente as habilidades fundamentais da nossa força de trabalho antes que as transformações digitais dizimem os empregos tradicionais.
O alerta econômico para as próximas eleições
Levando em consideração que estamos em um ano de decisões, quero deixar um conselho prático para os tomadores de decisão e fundadores do ecossistema: observem atentamente as propostas para o futuro do país.
Se o plano de governo de um candidato resumir a estratégia brasileira a construir galpões de data centers para armazenar dados de grandes corporações americanas, ou se a grande promessa de riqueza for apenas escavar o chão para exportar minérios de terras raras in natura para a Ásia, o diagnóstico já é conhecido.
Estaremos, mais uma vez, assinando o nosso termo de subordinação e nos declarando perdidos no atraso estrutural.
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Artigo originalmente publicado em
startups.com.br