Download E-mail Enviar A produção de energia ganhou novos contornos após o choque do petróleo, desde o início da guerra entre Irã e Estados Unidos que levou ao fechamento do Estreito de Ormuz. Especialistas acreditam que a crise geopolítica impulsiona o investimento nas tecnologias de renováveis, e até em nuclear, para reduzir os impactos nacionais. O conflito mais recente entre os dois países começou em 28 de fevereiro, com um ataque coordenado de Estados Unidos e Israel contra o Irã, e chegou a um acordo de paz em 15 de junho. Nesse período, os barris de petróleo passaram de 120 dólares, enquanto o valor anterior estava em torno de 60, segundo a Energy Information Administration. No entanto, novos ataques entre os países nos últimos dias mostraram que o acordo ainda é frágil. O Estreito de Ormuz é uma passagem marítima vital, considerada um ponto de estrangulamento, e o fechamento de uma região deste tipo causa impactos globais. Enquanto isso, o petróleo ainda é a principal matriz energética mundial e um dos grandes contribuidores para a crise climática, através das emissões de gases do efeito estufa no processo de produção de energia. Enfrentar essa dependência, portanto, é atacar dois problemas de uma só vez. “A agenda mudou, do ano passado para cá, de uma transição energética para segurança energética”, comentou o professor de geopolítica do petróleo da UFRJ, Marcelo Simas, durante o Energy Summit, que aconteceu no mês de junho, no Rio de Janeiro, e do qual a MIT Technology Review Brasil é parceira. Para o especialista, tanto as intervenções dos Estados Unidos na Venezuela como a guerra com o Irã levaram a essa visão do cenário global. Simas defende que o Brasil não deve abandonar o protagonismo no petróleo e que, até 2030, o país deve ficar entre os cinco maiores produtores do mundo, com 5,3 milhões de barris por dia. Por outro lado, deve investir na transição energética paralelamente com esses recursos. Os amortecedores tradicionais de setor energético, como estoque estratégico, não funcionam em crises de longo prazo e não existe uma única resposta para enfrentar os impactos econômicos. Desde o início de outra guerra, entre Rússia e Ucrânia, países europeus buscam se tornar independentes de combustíveis fósseis, investindo em renováveis e até em nuclear, que estava fora da agenda, como explicou ainda Maurício Tolmasquim, membro do conselho da AXIA Energia, ex-diretor da Petrobras e ex-presidente da Empresa de Pesquisa Energética. Dessa forma, a transição deixou de ser apenas climática para ser um caso de segurança energética. “O Brasil é privilegiado por ter recursos naturais, com vocação energética muito grande”, disse ao defender investimentos nas renováveis, apesar de indicar que o consumo de fósseis continuará existindo até 2050. “O mundo está eletrificando e seguir por esse caminho é uma das maneiras de reduzir a dependência”. Os talentos e a regulação também são grandes ativos que o Brasil tem e podem ajudar a navegar em situações como essa. “[O Brasil] precisa ter uma visão a longo prazo para ter políticas porque não será a última vez que teremos uma crise de energia”, comentou Navid Samandari, presidente do conselho de administração da BattMan Energy, também indicando que a energia nuclear tradicional e de terceira geração vão ocupar um grande papel. Samandari ainda disse que é preciso ter discussões mais realistas sobre como o mundo funciona e que a produção de energia faz parte da prosperidade que queremos. ONU, G7 e UE miram na redução da dependência de combustíveis fósseis Em março, Simon Stiell, secretário executivo de mudanças climáticas das Nações Unidas, declarou à Reuters que o choque no mercado de energia, causado pelo conflito no Irã, é uma lição sobre o risco de dependência de combustíveis fósseis: “Se houve algum momento para acelerar essa transição energética, rompendo dependências que acorrentaram economias, este é o momento”, declarou.
Duas semanas depois, no mesmo mês, a chanceler do Tesouro do Reino Unido, Rachel Reeves, em entrevista ao Guardian, disse que alertou os ministros de países do G7 sobre a necessidade de avançar na transição energética. “À medida que avançamos mais rapidamente em energias renováveis e nuclear, nossos parceiros do G7 devem fazer o mesmo, porque permanecer presos à montanha-russa dos preços globais do petróleo e do gás não ajudará ninguém”, comentou Reeves. Em abril, a Comissão Europeia propôs ações para proteger os europeus da crise. O órgão citou que esta é a segunda vez em cinco anos que o bloco paga pelo preço de importar energia baseada em combustíveis fósseis e que foram gastos 24 bilhões de euros adicionais desde o início do conflito no Irã. “Devemos acelerar a transição para energias limpas produzidas localmente. Isso nos dará independência e segurança energéticas, além de significar que estaremos mais bem preparados para resistir a tempestades geopolíticas”, declarou a presidente da Comissão Europeia Ursula von der Leyen, em nota à imprensa. Brasil caminha para uma política de transição Em entrevista à MIT Technology Review Brasil, Juliano Bueno de Araújo, diretor técnico do Instituto Internacional Arayara, ponderou que o modelo energético brasileiro é privilegiado, diferente do europeu. O país é um dos poucos no mundo que tem um “cardápio de energia” completo. Segundo o Balanço Energético Nacional de 2025, 50% da produção atual é de renováveis, mas o lobby pelos combustíveis fósseis ainda é uma barreira para ampliar a indústria. “Guerras energéticas são só mais uma das outras que virão e, obviamente, colocam países reféns de modelos de fornecimento de cadeias produtivas”, comenta Bueno. Criada em 2024, por resolução do Conselho Nacional de Política Energética (CNPE), a Política Nacional de Transição Energética tem como objetivo reestruturar a produção do país. Um de seus instrumentos é o Plano Nacional de Transição Energética, ou Plante, um planejamento estratégico para 30 anos, em ciclos de quatro, articulado ao Plano Nacional de Energia 2055. Ele foi dividido em três pilares: Segurança e Resiliência Energética; Justiça Energética, Climática e Ambiental; e Energia Competitiva para uma Economia de Baixo Carbono. A consulta pública do plano ficou aberta de 29 de abril a 26 de junho para receber contribuições e ser aprovado depois pelo CNPE. Em seu lançamento, João Marcos Paes Leme, diretor do Departamento de Energia do Itamaraty, se referiu à guerra no Irã ao dizer que a “transição energética é o sujeito oculto dos acontecimentos atuais”, comentando ainda que o mundo inteiro olha para a circunstância atual do estrangulamento da matriz energética e não para o elemento estrutural da transição energética. Uma das ações práticas deve ser a criação de um fundo para transição energética, conforme anunciado em 2025, durante a 30ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudança do Clima, COP30, em Belém, pelo presidente Lula. Os recursos seriam provenientes da exploração do petróleo e da mineração, mas ainda não há data para sair do papel. O post Choque do petróleo transforma transição energética em estratégia de segurança apareceu primeiro em MIT Technology Review - Brasil.