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Ciclo menstrual e TDAH: a combinação que ninguém estava monitorando

Redação Recifes
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Ciclo menstrual e TDAH: a combinação que ninguém estava monitorando

Por décadas, o TDAH foi estudado predominantemente em corpos masculinos. As mulheres que viviam com o transtorno aprenderam, na maioria das vezes por conta própria, que havia semanas em que tudo parecia desmoronar: a concentração sumia, a impulsividade disparava, o caos mental se instalava sem aviso. O que muitas não sabiam era que o calendário tinha algo a ver com isso.

Agora, pesquisadoras britânicas estão conduzindo o primeiro estudo sistemático a investigar a relação entre o ciclo menstrual e a intensidade dos sintomas do TDAH. A hipótese central é que as variações nos níveis de estrogênio e progesterona ao longo do mês afetam diretamente a dopamina — o neurotransmissor já comprometido em quem tem o transtorno. Quando o estrogênio cai, como ocorre antes da menstruação, a regulação dopaminérgica pode se tornar ainda mais instável, amplificando dificuldades que já existiam.

Mulheres com TDAH relatam que os dias que antecedem o período menstrual funcionam como um gatilho: esquecimentos se multiplicam, a tolerância à frustração despenca e tarefas simples viram montanhas. Esse fenômeno tem sido frequentemente confundido com TPM severa ou até com transtornos de humor, o que atrasa diagnósticos e tratamentos adequados. A sobreposição de sintomas entre condições diferentes é um dos maiores desafios da saúde mental feminina.

A pesquisa em andamento pede que participantes monitorem seus sintomas ao longo de vários ciclos, cruzando esses dados com marcadores hormonais. O objetivo é entender se os medicamentos usados para TDAH precisariam de ajustes conforme a fase do ciclo — uma abordagem que ainda é raridade nos consultórios. Para muitas mulheres, essa possibilidade representa uma mudança concreta: em vez de tratar o transtorno com dose fixa o mês inteiro, o tratamento poderia responder à biologia real do corpo.

O estudo ainda está em fase de coleta, mas já provoca uma reflexão necessária sobre como a medicina historicamente ignorou as especificidades hormonais femininas ao pesquisar condições neurológicas. Reconhecer que o TDAH em mulheres não é um fenômeno estático — que ele pulsa, oscila e se agrava em momentos previsíveis — pode ser o primeiro passo para que milhões de pessoas finalmente entendam por que certos dias do mês parecem impossíveis de atravessar.

Artigo originalmente publicado em www.bbc.co.uk
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