Cisma à vista? Grupo ultraconservador desafia o papa com ordenação não autorizada
<p>Em um desafio aberto à autoridade do papa Francisco, a Fraternidade Sacerdotal São Pio X — movimento tradicionalista que rejeita as reformas do Concílio Vaticano II — confirmou para o próximo dia 1º de julho a ordenação de quatro novos bispos em Écône, pequena cidade no cantão suíço do Valais, sede histórica da organização. A cerimônia não conta com a aprovação da Santa Sé, e o Vaticano já sinalizou que a desobediência pode custar ao grupo a punição mais grave prevista pelo direito canônico: a excomunhão coletiva de seus líderes.</p><p>Fundada em 1970 pelo arcebispo francês Marcel Lefebvre, a fraternidade nasceu como reação ao aggiornamento promovido pelo Vaticano II, que modernizou práticas como a celebração da missa — antes realizada em latim, com o sacerdote de costas para os fiéis. Para os membros do grupo, essas mudanças representaram uma ruptura com a tradição milenar da Igreja. Em 1988, Lefebvre já havia provocado uma crise semelhante ao ordenar bispos sem autorização pontifícia, o que resultou na excomunhão imediata de todos os envolvidos — pena que só seria levantada décadas depois, pelo papa Bento XVI, em 2009, numa tentativa frustrada de reconciliação.</p><p>No Brasil, a fraternidade tem ampliado silenciosamente sua presença, atraindo católicos insatisfeitos com o perfil pastoral da Igreja contemporânea e jovens em busca de uma espiritualidade que consideram mais rigorosa e enraizada. Capelas e priories do grupo estão espalhadas por estados como São Paulo, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul e Minas Gerais, onde missas em latim no rito tridentino reúnem fiéis com regularidade crescente. O fenômeno reflete uma tendência global de redescoberta do catolicismo pré-conciliar, impulsionada também pelas redes sociais.</p><p>A tensão com Roma se intensificou nos últimos anos após o papa Francisco restringir, em 2021, o uso da missa em latim por meio do motu proprio <em>Traditionis Custodes</em>, revertendo as concessões feitas por seus predecessores. Para a São Pio X, a medida foi mais uma prova de que o pontificado atual segue um caminho que consideram incompatível com a fé católica autêntica. A ordenação de julho, se concretizada, representaria a mais grave confrontação entre o grupo e a hierarquia romana desde o episódio de 1988.</p><p>Teólogos e analistas religiosos acompanham o caso com atenção. Uma nova excomunhão colocaria mais de um milhão de fiéis vinculados à fraternidade em situação canônica irregular, além de acirrar divisões já existentes dentro do catolicismo conservador. Por ora, o Vaticano mantém o canal de diálogo aberto, mas deixou claro que a realização da cerimônia sem autorização papal seria um passo inaceitável — um ultimato que a liderança da fraternidade, até o momento, demonstra não estar disposta a acatar.</p>
Artigo originalmente publicado em
www.bbc.co.uk