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Cisma em gestação: grupo ultraconservador desafia Roma com ordenações não autorizadas

Cisma em gestação: grupo ultraconservador desafia Roma com ordenações não autorizadas

Uma cerimônia marcada para o próximo dia 1º de julho na cidade suíça de Écône promete reacender uma das tensões mais profundas dentro da Igreja Católica nas últimas décadas. A Fraternidade Sacerdotal São Pio X, movimento de orientação ultraconservadora fundado em 1970 pelo arcebispo Marcel Lefebvre, anunciou a ordenação de quatro novos bispos — uma decisão tomada à revelia de Roma e que, segundo o Vaticano, pode resultar na pena máxima da disciplina eclesiástica: a excomunhão.

O ponto central do impasse é teológico e litúrgico. A fraternidade rejeita as reformas introduzidas pelo Concílio Vaticano II (1962–1965), defendendo a manutenção da chamada Missa Tridentina — celebrada em latim, com o sacerdote de frente para o altar e de costas para os fiéis, em um rito que remonta ao século XVI. Para os lefebvristas, como são conhecidos seus membros, o aggiornamento promovido pela Igreja a partir dos anos 1960 representou uma ruptura inadmissível com a tradição apostólica.

No Brasil, o movimento tem encontrado terreno fértil. Em um país onde o catolicismo convive com profundas transformações culturais e onde parte dos fiéis mais tradicionais sente saudade de uma Igreja mais hierárquica e ritualística, a São Pio X mantém capelas e comunidades ativas em diversas regiões. O apelo do latim, da solenidade litúrgica e de uma doutrina moral sem concessões atrai tanto convertidos quanto católicos que se sentem desconfortáveis com o rumo do pontificado do papa Francisco.

A relação entre a fraternidade e o Vaticano é marcada por décadas de negociação, ruptura e tentativas de reconciliação. Em 1988, Lefebvre realizou ordenações episcopais sem autorização papal — ato pelo qual foi imediatamente excomungado. João Paulo II levantou a punição em 2009, e Bento XVI chegou a ampliar o espaço para a missa em latim como gesto de aproximação. Francisco, porém, reverteu parte dessas concessões em 2021, restringindo a liturgia tridentina, o que aprofundou o distanciamento. Agora, com as novas ordenações planejadas, o ciclo de ruptura ameaça se repetir.

Para analistas da vida religiosa, o crescimento de grupos como a São Pio X reflete uma reação global a mudanças no interior do catolicismo — e não é fenômeno exclusivamente brasileiro. Em meio a debates sobre bênção de casais homoafetivos, papel das mulheres na Igreja e diálogo inter-religioso, movimentos que oferecem certeza doutrinária e continuidade litúrgica tendem a ganhar visibilidade. A questão que Roma terá de responder em julho é até onde vai sua tolerância com quem escolhe a tradição em detrimento da obediência.

Artigo originalmente publicado em www.bbc.com
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