Uma carta com 200 vinhos dificilmente parece o jeito mais simples de aproximar alguém do universo da bebida. Ainda assim, é exatamente essa a proposta do novo Wine Bar da Casa La Pastina. Mais do que reunir rótulos, a seleção funciona como uma espécie de curadoria dentro da própria curadoria, um mapa para navegar pelos 500 vinhos disponíveis na casa.
A decisão dialoga com um momento curioso do mercado. Enquanto o consumo mundial de vinho continua em retração, o Brasil segue na contramão, ao lado de poucas exceções, como Portugal. Há mais gente interessada em vinho — e talvez menos tempo disponível para a liturgia da bebida.
É justamente essa mudança que a Casa La Pastina contempla com seu Wine Bar. A seleção reduz o universo de escolhas sem abrir mão da diversidade: são 15 países, dezenas de regiões e produtores que vão de grandes clássicos a nomes pouco conhecidos do público brasileiro. Antes restritos à adega, eles agora ganham espaço próprio, como uma vitrine para o movimento da rua Oscar Freire.
"O consumidor brasileiro está cada vez mais interessado em vinho, mas busca experiências menos formais e mais acolhedoras. Queremos mostrar que o vinho pode fazer parte do cotidiano", defende João Renato, gerente geral da Casa La Pastina. "Grandes rótulos não precisam ficar reservados apenas para datas especiais."
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A história em uma carta
Na prática, isso aparece em uma seleção construída para ser plural sem ser genérica. Exemplares históricos como o DAL 1947 Primitivo di Manduria, da Puglia, dividem espaço com o Raúl Pérez Ultreia Saint Jacques, de Bierzo, símbolo do interesse da casa por produtores de mínima intervenção.
Marqués de Murrieta Castillo Ygay Gran Reserva Especial 2011
Clássicos também estão presentes. Caso, por exemplo, do espanhol Marqués de Murrieta Castillo Ygay Gran Reserva Especial 2011, "que resume o porquê de olharmos para produtores que não abrem concessões ao tempo". Mas aqui, eles encontram também rótulos como o Los Parientes Pinot Noir, do lendário produtor Francisco Baettig em Malleco, que João Renato considera representar o futuro da viticultura chilena.
Baettig Los Parientes Pinot Noir
O denominador comum, de acordo com o gerente, é a autenticidade sem pose de produtores que carreguem a tipicidade e personalidade da enologia de suas regiões. "Qualquer produtor pode contar uma boa história — o que nos interessa é quando o vinho na taça confirma o que o rótulo promete".
João Renato, Gerente Geral da Casa La Pastina
Esse cuidado com a tipicidade dos vinhos aparece nas regiões presentes na carta. "Colocamos pelo menos um exemplar de cada país produtor que importamos", conta Renato.
Naturalmente, portanto, Bordeaux, Borgonha e Chablis estão presentes. Assim como os DOCGs italianos da Toscana e Piemonte, os DOCas da Rioja e os DOCs do Alentejo.
Mas a casa também percorre rincões menos conhecidos do paladar médio – são três regiões e variedades que merecem mais conversa do que costumam ter. Entre eles, João aponta a Sardenha, com o blend Aru como janela para uma ilha que tem muito a oferecer.
Ponce La Casilla de Manchuela
O segundo é o Bobal espanhol, representado por Ponce La Casilla de Manchuela. "[É] uma casta patrimonial quase esquecida que nas mãos certas entrega frescor, personalidade e profundidade raramente associados à Espanha."
Jérôme Arnoux Entre-Deux
Por fim, aponta o Savagnin do Jura, com o Jérôme Arnoux Entre-Deux como um branco que desafia qualquer referencial francês conhecido.
Sacramentos Sabina Extra Brut
O Brasil entra, claro, mas não como uma concessão, garante João: "é convicção". Como exemplo, cita dois rótulos de Sacramentos Sabina, o espumante Extra Brut, feito com Pinot Noir, Chenin Blanc e Chardonnay, e o Entre Serras, blend de Syrah das serras da Canastra e da Mantiqueira. "Não estão aqui por patriotismo", garante, "estão porque pertencem ao perfil de nossa carta".
Sacramentos Sabina Entre Rios
Da porta para dentro
É claro que falar em acessibilidade em um dos cantos mais disputados da Oscar Freire pode levantar sobrancelhas. Mas João e a Casa La Pastina dobram a aposta com etiquetas que partem de R$ 124 a garrafa.
Além disso, a casa reforçou também sua oferta de taças para receber o público da rua. "A filosofia é simples", explica o gerente, "o preço da taça não deve punir a curiosidade. Queremos que nossos clientes entrem pela primeira vez e saiam com vontade de voltar — não com a sensação de ter gastado demais para entender o que estava bebendo."
E, se os 200 rótulos funcionam como um mapa, a cozinha da Casa La Pastina completa o percurso. Inspirado na tradição mediterrânea da partilha, o cardápio foi pensado justamente para que vinho e comida conversem à mesa, com pequenas porções, tábuas, petiscos e pratos concebidos para harmonizações.
Menos interessado em impressionar pelo tamanho da adega, o Wine Bar da Casa La Pastina convida a compreendê-la em uma taça ou garrafa de passagem pelo espaço. Um trajeto com 200 caminhos para conhecer a bebida que cai cada vez mais no gosto do brasileiro.
Três harmonizações do novo Wine Bar da Casa La Pastina
Petisco: Tábua de queijos Pardinho (Cuesta, Mandala e Cuesta Azul – R$96). Vinho: A acidez marcante do Riesling Balthasar Ress Rheingau Trocken (Alemanha – R$60/taça) vai balancear com perfeição a intensidade e gordura dos queijos do Pardinho.
Petisco: Espeto de camarões grelhados com molho nduja (R$59). Vinho: o vinho laranja Animalia Orange Wine (Chile, Emiliana – R$45/taça) com seus aromas de frutas cítricas/tropicais tem complexidade suficiente para esta bela harmonização.
Petisco: Cru em crosta (sanduíche de filet mignon cortado na ponta da faca e temperado com mostarda Dijon – R$57)Vinho: Poggiotondo Chianti Organic DOCG (Itália – R$45/taça). Nada como um belíssimo Chianti italiano, à base de Sangiovese, para andar de mãos dadas com este petisco leve de carne crua, bem temperada.
As indicações do sommelier para o iniciante e para o habitué
Para o iniciante: o Donnafugata Anthìlia é o ponto de entrada perfeito para a Sicília — fresco, aromático, acessível e com a assinatura de um dos produtores mais cuidadosos da ilha. O Longaví República, um tinto natural de Carignan, Garnacha e Monastrell do Valle del Maule, é uma descoberta que parece simples e tem muito a dizer.
Para o habitué: o Domaine du Haut Bourg Muscadet 2014 Sur Lie é uma raridade — um vinho que desafia qualquer noção de que Muscadet é simples, com mais de dez anos em garrafa e uma mineralidade que poucos brancos do Loire alcançam. O Jérôme Arnoux Savagnin do Jura é para quem quer sair completamente do convencional. E o Le Puy "Emilien", Bordeaux natural da Famille Amoreau com presença desde 1610, é um dos vinhos mais singulares do mundo — e está aqui em taça.
Três segredos bem guardados do novo Wine Bar da Casa La Pastina
Apostamos com convicção no Donnafugata Sherazade Nero d'Avola — um tinto siciliano de perfil imediato, frutado e generoso, que tem tudo para conquistar quem ainda não conhece a Sicília. É o tipo de vinho que começa a conversa.
O Arboleda Brisa, blend de Syrah, Grenache e Cabernet do Aconcagua, é outro que gostaríamos de ver mais nas mesas — é um vinho que surpreende pela complexidade a um preço que ainda não reflete isso.
E o Vivanco Crianza de Rioja: tinto majoritariamente de Tempranillo, com estágio em carvalho, possui ótima estrutura e elegância a um preço que raramente aparece nesse nível. São vinhos que fazem o cliente sentir que encontrou algo antes de todo mundo.
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