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Como a tecnologia está apagando as estrelas

Redação Recifes
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Como a tecnologia está apagando as estrelas
Foto: William Carvalho / Pexels

Há muito tempo atrás, as noites na Terra eram muito diferentes das que conhecemos hoje. Quando o Sol desaparecia no horizonte e as brasas de uma fogueira reuniam e aqueciam nossos ancestrais, bastava erguer os olhos para encontrar um céu completamente tomado por estrelas.

A necessidade de compreendê-las transformou o céu noturno em um imenso palco onde se desenvolviam nossas mitologias. Ligávamos os pontos cintilantes e surgiam monstros, heróis e deuses  em enredos épicos transmitidos entre gerações. E antes mesmo dos telescópios, os astros nos ensinaram a medir o tempo, a planejar nossa agricultura e navegar pelo globo. Foi olhando para cima que formamos as bases para aquilo que hoje chamamos de ciência.

Paradoxalmente, tudo que o Universo nos ensinou vem sendo usado para desenvolvermos tecnologias que, aos poucos, estão nos privando justamente daquilo que despertou nossa curiosidade: as estrelas.

Desde os primórdios a humanidade procurou compreender os mecanismos que movem o Universo. – Gravura de Camille Flammario

Durante quase toda a história da astronomia, o grande desafio foi enxergar mais longe. A olho nu, podíamos ver planetas, as estrelas mais brilhantes e a mancha leitosa da Via Láctea. Depois vieram as lunetas de Galileu, os telescópios refletores, os grandes observatórios e, finalmente, os telescópios espaciais. Cada nova tecnologia ampliou nossa visão do Universo. Até então, o desafio era enxergar mais longe, mas agora a história parece ter nos levado a um ponto onde o grande desafio da astronomia moderna será simplesmente enxergar.

As luzes artificiais aos poucos empurraram os observatórios para longe das cidades. A iluminação refletida na atmosfera clareia o céu e ofusca as estrelas impedindo a observação dos objetos mais tênues e distantes. Isso é um dos motivos para os principais observatórios do mundo terem sido instalados em desertos. Só que o tipo de poluição luminosa que estamos enfrentando agora afeta todo o planeta e ameaça inviabilizar a prática da astronomia na superfície da Terra.

Luzes das grandes cidades ofuscam o brilho das estrelas. – Bryce David/Flickr

Nos últimos anos, milhares de satélites passaram a ocupar a órbita baixa terrestre. Grande parte deles pertence às chamadas mega-constelações, redes destinadas principalmente à oferta de internet global, ampliando a conectividade, levando comunicação a regiões remotas e oferecendo benefícios reais para a sociedade. Mas enquanto geramos soluções aqui embaixo, estamos criando problemas lá em cima.

Hoje já existem mais de dez mil satélites ativos orbitando a Terra, e os projetos atualmente licenciados ou em planejamento apontam para um futuro onde centenas de milhares deles passarão continuamente sobre nossas cabeças. Já tem até empresário trilionário querendo colocar mais de um milhão de satélites em órbita.

Cada um desses objetos reflete a luz do Sol durante parte da noite. Isso significa um número cada vez maior de pontos luminosos cruzando lentamente o céu e que muita gente vai chamar de OVNIs. Agora, para um observatório astronômico, significa algo ainda mais sério.

As imagens obtidas pelos grandes observatórios começam a ser cortadas por rastros brilhantes deixados pelos satélites durante as exposições. Por enquanto, a maioria desses riscos pode ser removida por software. Mas existe um limite para essa correção. Hoje já ocorrem casos em que parte dos dados científicos é simplesmente perdida. Só que a tendência é piorar. E quando o número de satélites aumenta demais, deixa de ser um inconveniente e passa a comprometer a própria eficiência dos observatórios.

Satélites Starlink cruzando o campo de visão do Observatório CTIO em Cerro Tololo, no Chile. – CTIO/NOIRLab/NSF/AURA/DECam DELVE Survey

Pesquisadores alertam que alguns levantamentos astronômicos poderão sofrer perdas significativas de dados caso o número de satélites continue crescendo no ritmo atual. Observatórios projetados para detectar objetos extremamente tênues, como asteroides potencialmente perigosos, galáxias distantes ou explosões cósmicas de curta duração, tornam-se particularmente vulneráveis. Em alguns cenários estudados, determinadas observações poderão ficar praticamente inviáveis durante parte da noite.

E esse não é o único problema. Além da luz refletida, os satélites também emitem sinais de rádio. A radioastronomia, que observa o Universo utilizando ondas de rádio extremamente fracas vindas de estrelas, galáxias e nuvens de gás interestelar, passa a enfrentar um ambiente cada vez mais ruidoso. É como tentar ouvir um áudio do Zap em um estádio lotado comemorando o gol do Vini Jr na final da Copa (algo aí parece impossível).

Alguns dos satélites artificiais e detritos espaciais em órbita da Terra. – Purdue University’s Space Information Dynamic Group

É claro que engenheiros e empresas têm buscado soluções. Alguns satélites receberam revestimentos menos reflexivos, outros alteraram sua orientação para reduzir o brilho observado a partir da Terra. Esses esforços são importantes e mostram que o problema é reconhecido. Mas muitos astrônomos alertam que essas medidas talvez sejam insuficientes diante do crescimento previsto para as próximas décadas.

E o prejuízo não é apenas para a astronomia. O céu noturno faz parte do patrimônio cultural da humanidade. Todas as civilizações olharam para essas mesmas estrelas. Nelas nasceram calendários, mitologias, mapas celestes, poemas, músicas e perguntas que deram origem à filosofia e à ciência. O céu é um só, e sempre foi compartilhado por todos, independentemente de fronteiras, idiomas ou crenças.

E nem estamos falando dos riscos que as constantes reentradas desses objetos e possíveis colisões orbitais oferecem às pessoas em solo e às outras missões espaciais.

A ocupação da órbita terrestre vem crescendo em uma velocidade muito maior do que a nossa capacidade de regulá-la. Existem acordos para evitar colisões e coordenar frequências de comunicação, além de projetos para redução de lixo espacial. Mas na prática, as ações concretas inexistem ou são insuficientes, e não há governança global sobre o impacto cumulativo dessa ocupação na astronomia e na preservação do céu noturno.

Uma hora de satélites sobre o norte do deserto do Atacama. – . Kamphues, ESO/M. Kornmesser

O progresso tecnológico não precisa ser inimigo da ciência. Muito pelo contrário. Foi ele que nos permitiu chegar à Lua, enviar sondas aos planetas e construir telescópios capazes de observar galáxias em formação no início do Universo. Mas talvez este seja um daqueles momentos em que precisamos refletir sobre quais tecnologias nós realmente precisamos e o que estamos dispostos a abrir mão por elas.

Afinal, nossos antepassados descobriram o Universo olhando para um céu escuro e repleto de estrelas. Nós construímos instrumentos extraordinários para enxergar ainda mais longe. Seria uma enorme contradição permitir que a tecnologia nos apague as estrelas. Justamente as estrelas que inspiraram nossos ancestrais e por onde iniciamos nossa jornada científica sobre a Terra. O post Como a tecnologia está apagando as estrelas apareceu primeiro em Olhar Digital.

Artigo originalmente publicado em olhardigital.com.br
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