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Como o mapa do nosso Sistema Solar mudou (e por que pode mudar de novo)

Redação Recifes
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Como o mapa do nosso Sistema Solar mudou (e por que pode mudar de novo)
Foto: Zelch Csaba / Pexels

Quais são os planetas do Sistema Solar? São oito ou nove planetas? Por que Plutão não é mais um planeta? Essas são perguntas que as pessoas fazem ao Google quando o assunto é o nosso quintal espacial, segundo o próprio buscador. São perguntas simples com respostas complexas.

É claro que se você jogar alguma delas no Google neste exato momento, a inteligência artificial (IA) da big tech vai te entregar uma resposta curtinha e polida. Se fuçar no site da NASA em busca de respostas aprofundadas, corre o risco de cair num rabbit hole e voltar para a superfície daqui uma semana (o portal da agência espacial dos EUA tem páginas, artigos, infográficos interativos).

O Olhar Digital te oferece um meio-termo. Nem muito curto a ponto de soar falso. Nem muito extenso a ponto de consumir horas e horas do seu dia. 15 minutos devem bastar. Vamos lá?

Por que a contagem de planetas do nosso Sistema Solar mudou? Entenda as três regras que ‘rebaixaram’ Plutão

Nosso Sistema Solar tem oito planetas, digamos, normais. Cinco planetas anões. Centenas de luas. Por volta de 1,4 milhão de asteroides. Aproximadamente quatro mil cometas. Pelo menos, é o que consta no site da NASA agora. Desses números, são os dois primeiros que nos interessam aqui: oito planetas e cinco planetas anões.

Podemos dividir os planetas “normais” do nosso Sistema Solar em duas categorias. Mercúrio, Vênus, Terra e Marte são “planetas internos”. Isso porque ficam na parte “de dentro” do sistema – isto é, antes do Cinturão de Asteroides. Passado esse cinturão, você encontra Júpiter, Saturno, Urano e Netuno. Esses são os “planetas externos” (a essa altura, você deve ter entendido o raciocínio).

Mas, afinal, o que é um planeta? Está aí outra pergunta simples com resposta complicada. Para começar, a palavra vem do termo grego “planēt”, que significa “errante”. Atualmente, a definição que vale para a ciência é a estabelecida pela União Astronômica Internacional (IAU, na sigla em inglês) em 2006. Segundo essa definição, um corpo celeste deve cumprir três requisitos para ser considerado um planeta:

  • Orbitar uma estrela: No caso do nosso Sistema Solar, essa estrela deve ser o Sol;
  • Ter forma esférica: O objeto deve possuir massa suficiente para que sua gravidade o force a assumir uma forma de equilíbrio hidrostático (quase redonda);
  • Limpar sua vizinhança: O corpo celeste deve ser gravitacionalmente dominante a ponto de ter removido outros objetos de tamanho comparável da sua zona orbital.

O ‘rebaixamento’ de Plutão

Ao longo de 76 anos, se ensinou nas escolas que Plutão era um planeta “normal” do nosso Sistema Solar. Descoberto em 18 de fevereiro de 1930 pelo astrônomo Clyde Tombaugh, o pequeno planeta gelado aparecia em nono na lista de mundos organizados ao redor do Sol.

Em 2006, isso mudou. Quer dizer, Plutão ainda está onde sempre esteve. Mas acabou realocado na literatura científica. Por que? Em suma: descobertas, falha em atender um dos critérios estabelecidos pela IAU e dimensões reduzidas.

Vamos começar pelas descobertas. Na década de 1990, astrônomos descobriram o Cinturão de Kuiper, região para além de Netuno cheia de objetos gelados. Se o Sistema Solar fosse uma metrópole, esse cinturão seria o bairro periférico onde Plutão mora. Em 2005, a descoberta de Éris, corpo celeste com tamanho similar ao do pequeno planeta, levou a ciência a questionar o que realmente definia um planeta.

É aqui que entra a IAU. Lembra daqueles critérios definidos em 2006 para um corpo celeste ser considerado planeta? Pois bem. O pequeno planeta “romântico” (já reparou em como ele parece ter um coração tatuado?) falha no terceiro.

Ou seja: Plutão não limpou sua vizinhança. Na imagem capturada pela NASA, ele pode parecer isolado. Mas o pequeno planeta compartilha seu caminho orbital com milhares de outros asteroides e grandes blocos de gelo no Cinturão de Kuiper. Como se não bastasse, ele tem uma lua, Caronte, com quase metade do seu tamanho. E o satélite compartilha sua órbita, evidentemente.

Por isso, Plutão é considerado, atualmente, um dos cinco planetas anões que habitam nosso Sistema Solar. O quinteto é:

  • Plutão: O mais famoso, localizado no Cinturão de Kuiper;
  • Makemake: Também localizado no Cinturão de Kuiper, coberto por metano congelado;
  • Éris: Gelado e massivo, localizado além de Plutão;
  • Haumea: Conhecido por seu formato alongado (parecido a uma bola de rúgbi) e rotação ultraveloz;
  • Ceres: O menor deles e o único situado no Cinturão de Asteroides, entre Marte e Júpiter.

Nosso Sistema Solar tem oito planetas? O revisionismo em torno de Plutão e a busca pelo hipotético ‘Planeta X’

Se você chegou até aqui, deve ter notado a natureza dinâmica da ciência. Definições consolidadas podem mudar à luz de descobertas. Com planetas, não é diferente. Quando Plutão passou a ser considerado planeta anão, o total de planetas “normais” do nosso Sistema Solar caiu de nove para oito. E ele já tinha sido seis, já tinha sido 11. Essa flutuação reflete o avanço da tecnologia e a evolução da compreensão científica sobre o cosmos.

“É uma consequência natural do avanço dos estudos, do avanço da ciência, nesta área”, disse Marcelo Zurita, presidente da Associação Paraibana de Astronomia, em entrevista ao Olhar Digital. “A gente precisa de uma classificação para entender esses objetos. Existe a controvérsia popular. Mas, cientificamente, isso é necessário.”

Durante milênios, o Sistema Solar se resumiu à Terra e aos cinco planetas visíveis a olho nu. O jogo começou a virar em 1781 graças a aperfeiçoamentos no telescópio, que permitiram aos astrônomos descobrir Urano e, logo depois, usar a matemática para calcular e localizar Netuno – o que expandiu drasticamente o nosso mapa espacial.

Porém, o mesmo avanço tecnológico que adicionava mundos à lista também serviu para cortá-los. Se em 1930 instrumentos mais potentes permitiram a descoberta de Plutão, nos anos 2000 eles revelaram que o pequeno mundo gelado dividia espaço com milhares de outros objetos no Cinturão de Kuiper. Para manter a ordem na classificação, a ciência precisou criar critérios mais rígidos, o que culminou na saída de Plutão da lista principal em 2006.

Assim, dá para organizar a flutuação do número de planetas do nosso Sistema Solar da seguinte forma:

  • Da Antiguidade até 1781 (6 planetas): Nesta época, conheciam-se apenas os planetas visíveis a olho nu – Mercúrio, Vênus, Terra, Marte, Júpiter e Saturno;
  • 1781 (7 planetas): William Herschel descobre Urano;
  • 1801 (de 7 a 11 planetas): Ceres é descoberto entre Marte e Júpiter e inicialmente classificado como planeta. Logo depois, outros três objetos similares são encontrados na mesma região, o que eleva o total para 11;
  • Entre 1801 e 1846 (de volta a 7 planetas): À medida que mais objetos eram encontrados naquela zona, os astrônomos perceberam que eles representavam uma população distinta. Eles foram então reclassificados como asteroides ou “planetas menores”;
  • 1846 (8 planetas): A descoberta de Netuno eleva a contagem novamente;
  • 1930 (9 planetas): Clyde Tombaugh descobre Plutão, o que estabelece o total de nove planetas que persistiu por grande parte do século 20;
  • 2006 (8 planetas): A União Astronômica Internacional redefine critérios para o que constitui um planeta. A mudança foi motivada pela descoberta do Cinturão de Kuiper e de objetos como Éris, que tinham tamanho similar ao de Plutão.

‘Faça Plutão um Planeta Novamente’

Então, é consenso que nosso Sistema Solar tem oito planetas, certo? Veja bem… existe revisionismo sobre Plutão, liderado por ninguém menos do que o atual administrador da NASA, Jared Isaacman. Em abril de 2026, Isaacman defendeu publicamente a campanha “Faça Plutão um Planeta Novamente”, numa clara alusão ao movimento MAGA (“Make America Great Again”) do presidente dos EUA, Donald Trump.

O administrador da NASA e outros defensores do revisionismo argumentam que a definição da IAU é inconsistente. Eles apontam o tal critério “limpar a vizinhança” como problemático porque planetas como Júpiter também compartilham suas órbitas com vários asteroides.

Além disso, dados coletados pela sonda New Horizons em 2015 revelaram que Plutão é um planeta bem diverso e ativo, com montanhas, geleiras de nitrogênio e possivelmente um oceano escondido. Isso reforça o argumento de que ele possui características de um planeta “normal”.

Outro ponto importante: Plutão foi o único planeta do nosso Sistema Solar descoberto por um americano. Então, existe um forte componente de orgulho nacional para os Estados Unidos nessa história. Daí a alusão ao MAGA. Isaacman defende que a reclassificação de Plutão é necessária para devolver a Tombaugh o crédito que ele (leia-se: os EUA) merece. 

“Não é como um cartão vermelho na Copa do Mundo que o presidente faz a pressão e a pessoa anula os efeitos dele”, observa Zurita. “É uma questão de terminologia adotada pela União Astronômica Internacional.”

“Se algum dia a União Astronômica Internacional mudar essa definição, talvez Plutão mude de status novamente”, acrescentou o especialista – coisa que, para ele, é “muito difícil” acontecer. “A questão é só se, de repente, essa pressão, um dia, levar a mudanças na definição de planeta. Essa pressão é mais política do que científica.”

O misterioso (e hipotético) ‘Planeta X’

Fora dos revisionismos, existe um paradoxo tecnológico. Vivemos numa era de telescópios potentes e avançados o suficiente para “ver” o início do Universo. Mesmo assim, mapear o quintal escuro do nosso próprio planeta é, aparentemente, um desafio óptico imenso.

“Como eles [planetas, planetas anões e outros tipos de objeto distantes] não têm luz própria e refletem a luz do Sol a essa distância, o brilho deles é muito tênue para ser observado por meio dos nossos equipamentos mais comuns”, explica Zurita. “Eles são praticamente imperceptíveis aos nossos telescópios.”

O que fazer, então? “Usar equipamentos que trabalham com infravermelho”, responde o especialista. “Só que aí estamos falando de James Webb, por exemplo. É um telescópio com tempo de uso bastante restrito. É muito disputado.”

Zurita acrescenta o seguinte: “Quando a gente considera, por exemplo, o objeto chamado ‘Planeta Nove’, a gente imagina que ele exista e que esteja entre 250 e 800 Unidades Astronômicas de distância. Isso é muito mais distante do que o planeta conhecido mais distante do Sol, Netuno, que está a cerca de 30 Unidades Astronômicas.”

O “Planeta X” pode mexer o ponteiro do total de planetas do nosso Sistema Solar para cima. Embora nunca tenha sido observado diretamente, é um mundo que pode existir lá nos confins das órbitas em torno do Sol.

O primeiro a propor a existência desse planeta foi o astrônomo Percival Lowell, em 1915. Era sua ideia para explicar irregularidades na órbita de Urano. Na verdade, as irregularidades eram erros de medição mesmo. Mas essa busca iniciada por Lowell levou à descoberta de Plutão em 1930.

Vamos avançar 86 anos na história agora. Em 2016, os astrônomos Konstantin Batygin e Mike Brown, do Instituto de Tecnologia da Califórnia (Caltech), apresentaram evidências de um novo “Planeta X”, apelidado de “Planeta Nove”. Na época, Plutão já tinha sido “rebaixado” para planeta anão. Então, este seria o “novo nono” planeta do nosso Sistema Solar. Daí o nome.

A evidência que sugere a existência do tal “Planeta X” é gravitacional. Astrônomos notaram que vários objetos pequenos e gelados no Cinturão de Kuiper tinham órbitas peculiares. Órbitas que pareciam estar sob influência da gravidade de um corpo celeste grande. Bem grande.

Se existir mesmo, esse planeta teria aproximadamente o tamanho de Netuno (que é quatro vezes maior do que a Terra). Além disso, ele teria de cinco a dez vezes a massa do nosso planeta. Outra característica peculiar é sua órbita, que seria extremamente alongada. Para você ter ideia, ele demoraria entre dez e 20 mil anos terrestres para completar uma volta ao redor do Sol.

Bom, o “Planeta X” ainda é teórico. Telescópios potentes no Havaí e no Chile, além de projetos de ciência cidadã da NASA, tentam localizá-lo até hoje. “Essa busca por um objeto que não sabemos exatamente onde está acaba sendo muito dificultada quando temos que fazer com um instrumento muito disputado, como é o caso do James Webb”, explica Zurita.

Pode ser que o tal “Planeta Nove” não exista, no fim das contas. Pode ser que o comportamento estranho dos objetos no Cinturão de Kuiper tenha outras explicações. Na ciência, o trabalho nunca para.

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Artigo originalmente publicado em olhardigital.com.br
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