Uma aliança de parlamentares e prefeitos ligados ao Partido Trabalhista do Reino Unido apresentou uma proposta que promete romper o impasse em torno das empresas de água em situação de insolvência: transformá-las em cooperativas sem fins lucrativos, geridas pelos próprios usuários e comunidades atendidas. A iniciativa é apresentada como alternativa tanto à privatização tradicional quanto à nacionalização direta pelo Estado, um caminho que preocupa o governo pelo impacto nas contas públicas.
O modelo chamado de 'mutualização' já tem precedentes em outros setores de infraestrutura no mundo. A ideia central é que os consumidores de água se tornem, na prática, os donos do serviço, com governança participativa e reinvestimento integral dos excedentes na melhoria das redes. Diferentemente de uma estatal convencional, a dívida da cooperativa não seria contabilizada no balanço do governo, o que torna a proposta atraente para um gabinete comprometido com a disciplina fiscal.
O contexto é o colapso iminente da Thames Water, maior operadora hídrica da Inglaterra, que serve cerca de 16 milhões de pessoas e acumula dívidas superiores a 15 bilhões de libras. A empresa passou anos distribuindo dividendos generosos aos acionistas enquanto adiava investimentos em infraestrutura envelhecida, resultando em vazamentos crônicos e despejos de esgoto em rios. A crise expôs as fragilidades do modelo de privatização adotado pelo Reino Unido nos anos 1980.
Figuras próximas ao prefeito do Grande Manchester, Andy Burnham, estão entre os principais entusiastas do modelo cooperativo. Burnham já é conhecido por ter recriado o serviço de transportes de Manchester sob uma estrutura pública não convencional, experiência que serve de referência para a proposta hídrica. Os defensores argumentam que a mutualização combina eficiência operacional com responsabilidade social, eliminando o incentivo perverso de maximizar retorno para acionistas distantes.
O debate reflete uma mudança mais ampla no pensamento econômico europeu sobre como gerir serviços essenciais. Para o mercado e para gestores públicos, a questão central é encontrar estruturas de governança capazes de atrair capital para modernizar infraestrutura sem socializar prejuízos gerados por má gestão privada. A proposta cooperativa ainda precisa superar obstáculos regulatórios e de financiamento, mas já ocupa espaço relevante nas discussões sobre o futuro dos serviços de utilidade pública no mundo pós-pandemia.
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