Copa do Mundo 2026: o formato ampliado está esvaziando a última rodada dos grupos?
<p>A Copa do Mundo de 2026 trouxe uma mudança histórica: 48 seleções disputando a fase de grupos em 12 chaves de quatro times. A promessa era democratizar o futebol mundial, dar mais nações a chance de brilhar no maior palco do esporte. Mas, à medida que a última rodada se aproxima, um efeito colateral incômodo veio à tona — oito equipes já sabem que vão para casa antes mesmo de entrar em campo pela terceira vez. E isso levanta uma questão difícil: estamos assistindo a jogos de Copa do Mundo ou a meras formalidades?</p><p>O problema é estrutural. No novo formato, os dois primeiros de cada grupo avançam automaticamente, e os oito melhores terceiros colocados entre as 12 chaves também se classificam para o mata-mata. Isso significa que, em certos grupos, o placar acumulado das duas primeiras rodadas já pode selar o destino de uma ou duas seleções sem apelação possível. O resultado prático são partidas de encerramento onde pelo menos um dos times já não tem nada a ganhar — e, em alguns casos, nenhum dos dois. Para os torcedores que pagaram caro pelos ingressos, e para quem assiste pela televisão esperando tensão máxima, é uma decepção evidente.</p><p>A integridade da competição também entra em xeque. Quando uma seleção já eliminada enfrenta outra que ainda briga pela classificação, o equilíbrio natural do jogo desaparece. Tecnicamente, nada impede que um time sem motivação poupe titulares, adote uma postura passiva ou simplesmente não entregue o mesmo nível de comprometimento que entregaria em um jogo decisivo. A FIFA tem regras para coibir manipulação de resultados, mas regular o empenho emocional de atletas é uma equação sem solução simples.</p><p>Em defesa do formato, argumenta-se que a terceira rodada dos grupos ainda guarda duelos emocionantes quando os dois times disputam a vaga ou a liderança da chave — e isso acontece na maioria das chaves. Além disso, a possibilidade de avançar como um dos melhores terceiros coloca em jogo combinações de resultados simultâneos que exigem atenção dos torcedores em múltiplas partidas ao mesmo tempo, criando uma experiência coletiva única. Há emoção, sim, mas ela não é distribuída de forma uniforme.</p><p>O debate vai além do campo. Ele toca em uma tensão fundamental que a FIFA precisará enfrentar: crescimento comercial versus qualidade competitiva. Ampliar a Copa para 48 times foi uma decisão orientada, em grande parte, por receita e por pressão política de confederações menores. O futebol saiu ganhando em termos de alcance global — mas talvez tenha perdido um pouco daquela sensação de que cada partida importa. Para os críticos, o preço da inclusão não deveria ser a diluição da emoção que faz da Copa do Mundo o evento mais assistido do planeta.</p>
Artigo originalmente publicado em
www.bbc.co.uk