Um levantamento do Datafolha divulgado nesta sexta-feira indica uma mudança relevante na forma como os brasileiros enxergam a pobreza. Em 2026, 40% dos entrevistados disseram concordar com a ideia de que pessoas pobres estariam nessa condição por “preguiça de pessoas que não querem trabalhar”. Em 2022, essa fatia era de 22%.
O salto chama atenção não apenas pelo tamanho, mas pelo que revela sobre o debate público no país. Em vez de ser vista como resultado de uma combinação de fatores sociais, econômicos e históricos, a pobreza aparece, para uma parcela maior da população, como falha individual. Esse tipo de leitura tende a simplificar um problema complexo e pode enfraquecer a discussão sobre políticas de renda, emprego, educação e proteção social.
A própria trajetória recente do Brasil ajuda a contextualizar o cenário. No começo dos anos 2000, o país registrou crescimento do PIB per capita, recuo da desigualdade e redução expressiva da pobreza. Mesmo assim, o avanço material não eliminou percepções duras sobre mobilidade social e responsabilidade individual, que seguem disputando espaço no imaginário político e econômico.
O dado do Datafolha sugere, portanto, mais do que uma opinião isolada: ele aponta para uma mudança de clima no país, em que parte dos brasileiros passa a tolerar explicações mais rígidas e menos estruturais para a pobreza. Num momento em que o tema volta ao centro da política, o número serve como alerta sobre o tipo de sociedade que está sendo formada e sobre o debate público que se quer sustentar.