Existe uma cena em certo gibi da Supergirl em que a heroína embarca num ônibus lotado de seres extraterrestres, numa das situações mais improvável e ao mesmo tempo mais humanas que essa heroína já viveu nas páginas de um quadrinho. O que o leitor não imagina é que a referência visual por trás daquele caos interplanetário está a menos de um quilômetro da Estação da Luz, no coração de São Paulo: a rua 25 de Março, reduto de ambulantes, compradores atacadistas e uma multidão que nunca parece diminuir.
A responsável por essa transposição criativa é a quadrinista paulistana Bilquis Evely, cujo nome hoje figura entre os talentos mais requisitados da DC Comics. Ao se deparar com o desafio de dar vida visual a uma cena cheia de criaturas alienígenas num transporte coletivo desconfortável, Evely recorreu ao repertório mais íntimo que um artista pode ter: a memória afetiva da própria cidade. O resultado foi uma composição de rara autenticidade, capaz de fazer o leitor sentir o calor, o aperto e a energia particular daquele tipo de espaço urbano — mesmo que o cenário fictício esteja a anos-luz da Terra.
A trajetória de Bilquis Evely é representativa de uma geração de artistas brasileiros que, nas últimas duas décadas, deixaram de ser coadjuvantes no mercado global de quadrinhos para assumir posições centrais. Editoras como DC e Marvel têm buscado ativamente ilustradores do Brasil, atraídas por uma escola visual que combina influências do traço europeu com a vivacidade cromática e narrativa da produção nacional. Evely se destaca nesse grupo não apenas pela técnica apurada, mas pela capacidade de carregar subjetividade brasileira para dentro de histórias que, à primeira vista, parecem pertencer a outro universo cultural.
O arco da Supergirl no qual Evely trabalhou foi recebido com entusiasmo pela crítica especializada e pelos fãs da personagem, que há anos aguardavam uma abordagem que tornasse Kara Zor-El tão complexa e interessante quanto seu primo, o Superman. A heroína kryptoniana carrega consigo um dilema identitário potente: ao contrário de Clark Kent, ela tem memórias vívidas de Krypton, o que faz sua adaptação à Terra ser muito menos serena. Essa tensão entre pertencimento e deslocamento encontrou na sensibilidade de uma artista brasileira — alguém que, por definição, habita criativamente pelo menos dois mundos culturais — uma intérprete à altura.
Ver a rua 25 de Março refletida, ainda que metaforicamente, nas páginas de um gibi americano é mais do que uma curiosidade biográfica. É um lembrete de que a criação artística não acontece no vácuo: ela é feita de calçadas, de barulho, de gente. E que às vezes é preciso sair do planeta para enxergar melhor o seu próprio bairro.