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Deafkids lança 'Cicatrizes do Futuro' e reinventa o barulho brasileiro

Redação Recifes
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Deafkids lança 'Cicatrizes do Futuro' e reinventa o barulho brasileiro

Existem artistas que habitam confortavelmente um gênero, e existem os que tornam o próprio desconforto em linguagem. A dupla Deafkids pertence à segunda categoria com uma obstinação quase filosófica. Em Cicatrizes do Futuro, seu quarto álbum de estúdio, o grupo consolida uma identidade que continua sendo, deliberadamente, inclassificável — e orgulhosa disso.

O disco chega num momento em que as fronteiras entre o ruído e a dança, entre o colapso e o ritmo, parecem mais porosas do que nunca. Mas Deafkids não está surfando uma tendência: a dupla vem construindo esse território há anos, fundindo a agressividade visceral do punk e do metal com camadas de eletrônica densa e pulsante. O resultado é algo que irrita e fascina ao mesmo tempo — punk demais para quem busca sintetizadores limpos, eletrônico demais para quem quer só distorção e grito.

O que diferencia Cicatrizes do Futuro é a latinidade explícita que percorre o trabalho. Há calor, síncope e uma certa urgência tropical que não deixa o som congelar em qualquer fórmula importada. O álbum respira Brasil sem recorrer a folclorismos fáceis — é uma brasilidade áspera, urbana, que emerge do atrito entre influências e não da reverência a elas.

No cenário independente nacional, Deafkids ocupa uma posição rara: é referência sem ser consenso. Respeitada por músicos de origens estéticas completamente distintas, a dupla funciona como uma espécie de zona de convergência para quem acredita que a música ainda tem territórios inexplorados. Cicatrizes do Futuro não é uma resposta, é uma pergunta jogada em alto volume — e vale muito a pena ouvi-la.

Artigo originalmente publicado em redir.folha.com.br
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