Enquanto os Estados Unidos e nações europeias comemoram quedas nas taxas de demência nas últimas décadas — resultado, em grande parte, de melhoras no acesso à saúde e no controle de fatores de risco —, a América Latina e o Caribe caminham na direção oposta. Uma pesquisa conduzida pela Universidade Washington em St. Louis, em parceria com a Universidade de Newcastle, no Reino Unido, acompanhou populações de múltiplos países da região por mais de vinte anos e chegou a uma conclusão preocupante: a proporção de adultos vivendo com demência cresceu de forma significativa no período.
É a primeira vez que a ciência apresenta evidências diretas dessa divergência regional. Nos países de alta renda, avanços no tratamento da hipertensão, redução do tabagismo e maior escolaridade contribuíram para segurar o avanço da doença. Na América Latina, porém, a combinação de envelhecimento populacional acelerado, desigualdade no acesso a serviços de saúde e alta prevalência de doenças crônicas como diabetes e obesidade cria um cenário propício para o crescimento dos casos.
Do ponto de vista do estilo de vida, os dados reforçam uma mensagem que o universo fitness já defende há anos: cuidar do corpo hoje é investir na saúde do cérebro no futuro. Exercícios aeróbicos regulares melhoram a circulação cerebral, reduzem a inflamação e estimulam a produção de fatores neurotróficos — proteínas que protegem e regeneram os neurônios. Estudos mostram que pessoas fisicamente ativas têm risco até 35% menor de desenvolver declínio cognitivo.
Além do treino, o controle de fatores como pressão arterial elevada, sedentarismo, sono de má qualidade e isolamento social são determinantes para a saúde cerebral a longo prazo. A alimentação também entra nessa equação: dietas ricas em ultraprocessados e pobres em nutrientes estão associadas a maior risco de demência, enquanto padrões alimentares anti-inflamatórios, como a dieta mediterrânea, mostram efeito protetor consistente na literatura científica.
O recado que fica é claro: a demência não é um destino inevitável do envelhecimento. Muito do que fazemos nas décadas intermediárias da vida — como nos movemos, o que comemos, como dormimos e nos relacionamos — molda diretamente a saúde do nosso cérebro nos anos seguintes. Para a América Latina, reverter essa tendência passa, sim, por políticas públicas, mas também por escolhas individuais que começam agora.