Há um universo de histórias que flui junto com os rios da Amazônia — causos passados de geração em geração nas beiras d'água, situações cômicas do cotidiano ribeirinho, expressões que carregam a alma de um povo inteiro. É esse tesouro cultural que a dupla paraense formada pelos artistas Epaminondas Gustavo e Adilson Alcântara decidiu levar para o teatro em 'Agora é que são Eles', espetáculo que chega ao Teatro das Bacabeiras, em Macapá, trazendo consigo muito mais do que risadas.
O show bebe diretamente da fonte: são as vivências das populações ribeirinhas do interior do Pará que alimentam o roteiro. Com sotaque marcado e referências genuínas da cultura regional, os personagens criados pela dupla funcionam como espelhos — e quem cresceu às margens de igarapés e furos sabe exatamente do que se fala. Para o público urbano, é uma janela aberta para um modo de vida que costuma ficar invisível nas grandes narrativas midiáticas.
A escolha de Macapá como palco não é trivial. A capital do Amapá guarda uma relação umbilical com a floresta e os rios, e sua população reconhece na linguagem ribeirinha ecos da própria identidade. Levar esse humor para um espaço formal como o Teatro das Bacabeiras é também um gesto político: afirmar que a cultura do interior amazônico tem lugar garantido nos palcos, não apenas como exotismo, mas como manifestação artística legítima e sofisticada.
Em tempos em que se discute cada vez mais a representatividade nas artes, iniciativas como essa apontam um caminho concreto. Não basta incluir — é preciso deixar que as próprias comunidades contem suas histórias com sua própria voz, seu próprio ritmo, sua própria graça. Epaminondas Gustavo e Adilson Alcântara fazem exatamente isso: devolvem ao palco o protagonismo de quem vive à margem dos grandes centros, mas no coração da maior floresta tropical do planeta.