Há documentários que informam e há os que incomodam — no melhor sentido. Má Reputação pertence claramente à segunda categoria. Dirigido pelas cineastas Marta García e Sol Infante, o filme mergulha no cotidiano de Karina Núñez, trabalhadora sexual e fundadora de um sindicato da categoria no Uruguai, construindo um retrato que recusa tanto o melodrama quanto a vitimização fácil. O que se vê na tela é uma mulher que ocupa o próprio espaço com autoridade e ironia, transformando a luta por dignidade em narrativa cinematográfica de primeira linha.
A câmera das diretoras não trata Núñez como objeto de estudo nem como símbolo de causa. Ela é, antes de tudo, uma personagem: carismática, contraditória, engraçada e politicamente afiada. O filme abre com uma imagem que poderia ser interpretada como provocação, mas rapidamente deixa claro que o olhar aqui pertence a ela — não ao espectador. Essa virada sutil dá o tom de tudo que vem a seguir: Má Reputação existe nos próprios termos de suas protagonistas.
A força do documentário está em sua escolha de privilegiar o cotidiano em detrimento do sensacionalismo. Vemos reuniões sindicais, conversas entre colegas, enfrentamentos com autoridades e momentos de descontração — a textura real de uma vida que raramente aparece nas telas sem distorção. O Uruguai, país com legislação relativamente avançada sobre o trabalho sexual na América Latina, serve de cenário para um debate que vai além das fronteiras: o reconhecimento de direitos trabalhistas, a estigmatização social e o papel do Estado na proteção de grupos vulneráveis.
García e Infante constroem o filme com ritmo seguro e olhar respeitoso, sem jamais cair na armadilha de transformar sofrimento em espetáculo. O resultado é um trabalho galvanizador — palavra que cai bem aqui — capaz de sacudir convicções e ampliar empatias. Em tempos em que o debate sobre trabalho sexual ancora em trincheiras ideológicas, Má Reputação aposta no poder humanizador do cinema documental para ir além dos slogans.
Para o circuito de festivais e para quem acompanha o documentário político contemporâneo, o filme é uma adição significativa — e necessária. Karina Núñez não pede simpatia. Exige respeito. E o cinema, aqui, está à altura dessa exigência.