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Dois anos depois, a Geração Z do Quênia ainda cobra respostas do poder

Dois anos depois, a Geração Z do Quênia ainda cobra respostas do poder

Em junho de 2024, uma geração conectada e sem paciência para promessas vazias desceu às ruas do Quênia e reescreveu, pelo menos por um momento, as regras do jogo político africano. Jovens organizados por meio de redes como o TikTok e o X forçaram o presidente William Ruto a engolir o chamado Finance Bill 2024, um pacote tributário que previa novos impostos sobre itens básicos em um país já sufocado pelo custo de vida. O projeto foi retirado. Os manifestantes, porém, não foram embora — e dois anos depois, o eco daquelas semanas ainda ressoa nas ruas e nos parlamentos.

O que tornou o movimento singular não foi apenas a velocidade com que se espalhou, mas sua estrutura deliberadamente descentralizada. Sem líderes formais, sem partido e sem financiamento institucional, a mobilização desafiou os modelos tradicionais de oposição política no continente. Ativistas quenianos ressaltam que essa característica foi tanto uma força quanto uma vulnerabilidade: sem hierarquia, o movimento resistiu à cooptação, mas também encontrou dificuldades para transformar pressão de rua em agenda política sustentada.

No aniversário de dois anos, os grupos que protagonizaram os protestos afirmam que as feridas estruturais do país permanecem abertas. A corrupção sistêmica no setor público, a taxa de desemprego juvenil acima de 30% e a falta de accountability de autoridades eleitas continuam sendo os principais pontos de tensão. Ao menos 39 pessoas morreram nos confrontos de 2024, segundo organizações de direitos humanos, e as famílias das vítimas ainda aguardam responsabilização formal.

O legado mais duradouro, no entanto, pode ser comportamental. A Geração Z queniana demonstrou que a mobilização digital pode ter consequências políticas reais, inspirando movimentos similares em Uganda, Nigéria e Zimbábue. No Quênia, parlamentares que apoiaram o projeto tributário enfrentaram pressão eleitoral intensa nas urnas subsequentes, sinalizando que a memória coletiva do movimento se converteu em capital político. Para os analistas, o que nasceu como protesto está se consolidando como uma nova forma de cidadania — mais exigente, mais vigilante e menos disposta a aceitar o ciclo de promessas e decepções que marcou gerações anteriores.

Artigo originalmente publicado em www.dw.com
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