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El Niño acende alerta: Brasil está preparado para enfrentar outra temporada de queimadas?

Redação Recifes
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El Niño acende alerta: Brasil está preparado para enfrentar outra temporada de queimadas?
Foto: Franco Monsalvo / Pexels

A confirmação de um novo episódio de El Niño reacendeu o alerta para uma temporada de queimadas mais intensa no Brasil. Os modelos climáticos indicam que o fenômeno deve permanecer ativo até o início de 2027 e há uma alta probabilidade de que atinja forte intensidade, favorecendo temperaturas acima da média e redução das chuvas em diversas regiões do país.

Embora especialistas alertem que ainda seja cedo para afirmar que o cenário repetirá a crise de 2024, quando cerca de 30 milhões de hectares foram consumidos pelo fogo, há consenso de que os próximos meses exigirão planejamento, monitoramento e ações preventivas para reduzir os riscos.

“O que os cientistas, climatologistas e as previsões estão mostrando é que já há uma certeza de que o El Niño vai acontecer e que há uma probabilidade grande, mais de 95%, de ele ser forte ou muito forte”, afirmou Jarlene Gomes, pesquisadora e coordenadora técnica do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (IPAM), ao Olhar Digital.

Segundo ela, a principal incerteza não está mais na ocorrência do fenômeno, mas em sua duração.

Se a gente tem um El Niño forte e ele dura um pouco mais tempo, a gente tem um atraso ou uma redução na quantidade de chuva no período em que ela deveria acontecer. Consequentemente, temos uma floresta mais inflamável, um solo mais seco e criamos um ambiente favorável para que ocorram os incêndios. Jarlene Gomes, pesquisadora e coordenadora técnica do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (IPAM)

A avaliação é compartilhada por Lincoln Muniz Alves, pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE). Segundo ele, as previsões científicas apontam um cenário que exige atenção, principalmente para o segundo semestre. Mesmo assim, não é possível afirmar que a temporada repetirá a gravidade observada em 2024.

Apesar do alerta, o pesquisador ressalta que não é possível afirmar que a temporada repetirá a gravidade observada em 2024.

A severidade de uma temporada de incêndios depende não apenas do El Niño, mas também das condições de seca acumulada, da umidade da vegetação, do uso antrópico do fogo, da capacidade de prevenção, fiscalização, monitoramento e resposta operacional. Lincoln Muniz Alves, pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE)

O El Niño está associado a temperaturas da superfície do mar equatoriais acima da média – Crédito: NASA

O El Niño é um fenômeno climático provocado pelo aquecimento anormal das águas superficiais das regiões central e leste do Oceano Pacífico Equatorial. Essa alteração modifica a circulação da atmosfera e interfere na distribuição de chuvas e temperaturas em diferentes partes do planeta.

No Brasil, seus efeitos variam conforme a região, mas costumam provocar redução das chuvas em parte da Amazônia e do Nordeste, além de favorecer temperaturas mais elevadas em diversas áreas do país. Em escala global, o fenômeno também contribui para o aumento da temperatura média do planeta.

As projeções mais recentes indicam que o episódio atual poderá figurar entre os mais intensos desde o início dos registros históricos, aumentando a probabilidade de eventos climáticos extremos ao longo dos próximos meses.

Por que o El Niño aumenta o risco de queimadas?

Ao contrário do que muitas pessoas imaginam, o El Niño não provoca incêndios diretamente. O fenômeno cria condições ambientais que facilitam a propagação do fogo quando há uma fonte de ignição, geralmente associada à atividade humana.

Segundo Lincoln Muniz Alves, a combinação entre menos chuva, temperaturas mais altas e baixa umidade faz com que o solo e a vegetação percam água, aumentando a quantidade de material seco disponível para queimar.

“Isso não significa que o El Niño ‘cause’ diretamente o fogo, mas cria condições ambientais mais favoráveis para que focos iniciados por ação humana se espalhem com maior intensidade”, explicou.

Entre os biomas que exigem maior atenção estão a Amazônia, especialmente seu arco sul, o Cerrado, o Pantanal e áreas da Caatinga. Cada um apresenta vulnerabilidades diferentes, mas todos tendem a sofrer com períodos mais secos e temperaturas elevadas durante episódios intensos do fenômeno.

Na Amazônia, o cenário preocupa ainda mais porque a floresta tropical não evoluiu para conviver com incêndios de grandes proporções.

De acordo com Jarlene Gomes, o comportamento observado em 2024 mostrou justamente essa mudança de padrão.

Historicamente, a maior parte das áreas queimadas na Amazônia está associada à agropecuária. Na temporada de 2024, entretanto, uma parcela significativa do fogo atingiu áreas de vegetação nativa, algo considerado incomum para um bioma naturalmente úmido.

“Isso é assustador, porque, naturalmente, as florestas tropicais não deveriam queimar”, afirmou. Ela contou que o estresse climático provocado pela seca prolongada torna a floresta mais inflamável.

Modelos indicam maior chance de calor intenso e aumento do risco de incêndios florestais na Amazônia no segundo semestre – Imagem: Leonardo Dalll Igna/Shutterstock

Impactos vão muito além da floresta

Embora as imagens de animais resgatados e áreas devastadas chamem atenção durante grandes incêndios, os prejuízos provocados pelo fogo se estendem para muito além da biodiversidade. Segundo Gomes, os incêndios afetam diretamente a economia local, comprometendo desde pequenos agricultores até grandes produtores rurais.

Ela lembra que as consequências também chegam rapidamente aos centros urbanos. A fumaça produzida pelas queimadas piora a qualidade do ar, aumenta os casos de doenças respiratórias e pressiona o sistema público de saúde.

Se o fogo entra numa propriedade, ele queima a lavoura, ele queima a produção, ele queima a cerca, ele queima a pastagem. Tudo isso é prejuízo. (…) Você também tem um aumento no agravamento da saúde das pessoas. Consequentemente, aumenta a demanda do SUS. Mais pessoas são internadas, mais pessoas têm problemas de saúde. Jarlene Gomes, pesquisadora e coordenadora técnica do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (IPAM)

Além disso, para a pesquisadora, incêndios de grandes proporções alteram o modo de vida de comunidades inteiras, especialmente na Amazônia, onde muitas populações dependem diretamente dos recursos naturais para sobreviver.

Lincoln Muniz Alves destaca que os efeitos sociais e econômicos de uma temporada extrema de queimadas costumam ser amplos. Segundo ele, além dos danos ambientais, os incêndios podem comprometer a agropecuária, afetar infraestrutura, logística e produtividade do trabalho, interromper aulas, restringir a mobilidade e aumentar a pressão sobre os serviços públicos.

A fumaça aumenta a concentração de material particulado no ar, agravando doenças respiratórias e cardiovasculares, especialmente em crianças, idosos, gestantes, pessoas com doenças preexistentes e populações expostas por longos períodos. Lincoln Muniz Alves, pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE)

O pesquisador também chama atenção para o impacto sobre povos indígenas, comunidades tradicionais e moradores de áreas rurais, que frequentemente enfrentam perdas econômicas e dificuldades de acesso a serviços essenciais durante grandes incêndios.

O que mudou desde a temporada histórica de 2024?

As queimadas de 2024 marcaram uma mudança importante na forma como o Brasil passou a discutir o manejo do fogo.

Jarlene Gomes explicou que, até então, a política brasileira era baseada principalmente no combate aos incêndios depois que eles já haviam começado. A experiência dos últimos anos mostrou que essa estratégia, sozinha, não é suficiente diante de eventos climáticos cada vez mais extremos.

“A melhor coisa a se fazer agora é tentar controlar o uso do fogo”, declarou.

Essa mudança de visão deu origem à Política Nacional de Manejo Integrado do Fogo (MIF), aprovada em 2024 após a temporada recorde de incêndios.

A legislação substitui a lógica do chamado “fogo zero” por uma abordagem mais ampla, que reconhece diferentes usos do fogo e prioriza a prevenção, o planejamento e a integração entre diferentes setores da sociedade.

A coordenadora do IPAM explicou que a proposta não é simplesmente proibir qualquer uso do fogo, mas compreender que existem situações distintas. Por exemplo:

Há o chamado fogo cultural, utilizado por povos indígenas e comunidades tradicionais em práticas de manejo e rituais;

O fogo produtivo, empregado por pequenos produtores rurais em atividades agrícolas;

O fogo ecológico, representado pelas chamadas queimadas prescritas, realizadas de forma planejada para reduzir o acúmulo de vegetação seca;

O fogo predatório, associado a incêndios criminosos ou que escapam do controle.

“Você precisa entender de que fogo estamos falando. Se é um fogo que foi usado para alguma atividade e escapou, ou se é um fogo criminoso”, declarou.

Prevenção virou prioridade

Na avaliação da pesquisadora, a principal inovação da política é justamente abandonar uma postura exclusivamente reativa.

Em vez de concentrar esforços apenas quando os incêndios já estão fora de controle, a nova estratégia busca identificar áreas de risco, organizar a resposta antecipadamente e reduzir as chances de que pequenos focos se transformem em grandes incêndios.

Para isso, o IPAM tem apoiado governos estaduais na elaboração de mapas de risco, diagnósticos territoriais e planos de manejo.

Segundo Gomes, essas análises cruzam informações sobre áreas queimadas em anos anteriores, desmatamento, condições climáticas e histórico de ocorrência de incêndios para identificar os locais mais vulneráveis.

Estamos produzindo um mapa de risco potencial de incêndios. Cruzamos dados do que queimou no ano passado, do que foi desmatado, das áreas com maior incidência de fogo e das condições climáticas para identificar quais regiões têm maior risco. Jarlene Gomes, pesquisadora e coordenadora técnica do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (IPAM)

Essas informações orientam desde o posicionamento de brigadas até ações de treinamento junto a produtores rurais e comunidades locais. “Agora a prevenção é o melhor combate, e todo mundo precisa estar engajado”, defendeu.

Especialistas defendem política de prevenção ao fogo, em vez de agir após o início dos incêndios – Crédito: Toa55 / Shutterstock

Integração entre governos e comunidades é um dos principais desafios

Na prática, uma das maiores apostas da Política Nacional de Manejo Integrado do Fogo é fazer com que diferentes instituições deixem de atuar de forma isolada.

Segundo Jarlene Gomes, o combate às queimadas depende da atuação coordenada entre órgãos ambientais, Corpo de Bombeiros, governos estaduais, União, brigadas comunitárias e populações locais.

A pesquisadora explicou que o IPAM estruturou seu trabalho em três grandes frentes para apoiar os estados na implementação da nova política:

A primeira é a chamada inteligência do fogo, baseada na produção de mapas, análises e indicadores que permitem identificar as áreas mais vulneráveis antes do início da temporada seca;

A segunda envolve a governança e gestão, com apoio à elaboração dos planos estaduais de Manejo Integrado do Fogo, regulamentação dos instrumentos previstos na lei e organização das responsabilidades entre os diferentes órgãos públicos;

Já a terceira frente reúne ações de prevenção, controle e combate, incluindo o fortalecimento das brigadas, o monitoramento do uso do fogo e o compartilhamento de boas práticas entre estados e comunidades.

Segundo ela, o objetivo é fazer com que o combate aos incêndios comece muito antes das primeiras chamas.

Tecnologia ajuda, mas informação precisa chegar a quem está no campo

Satélites, imagens de sensoriamento remoto, previsões meteorológicas e sistemas digitais de monitoramento vêm ganhando espaço na gestão das queimadas. Mas, para Gomes, a tecnologia, sozinha, não resolve o problema.

“O mais importante é como você usa. Como essa informação vai entrar nos planejamentos e de forma acessível para todos”, declarou.

Ela explica que um dos principais desafios ainda é compreender melhor o chamado comportamento do fogo. Isto é, como fatores como temperatura, umidade e direção do vento influenciam a propagação das chamas em cada situação.

Hoje, com essa mudança das condições climáticas, principalmente afetada pelo El Niño, essa noção foi perdida. Então, a gente precisa entender o comportamento do fogo para que se tenha eficiência no controle e no combate. Jarlene Gomes, pesquisadora e coordenadora técnica do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (IPAM)

Outro desafio apontado pela pesquisadora é integrar as diferentes bases de dados utilizadas pelos estados.

Durante um diagnóstico realizado pelo IPAM, foi identificado que cada unidade da Amazônia Legal utilizava ferramentas e sistemas próprios para monitorar incêndios. Na avaliação dela, os melhores resultados aparecem justamente quando diferentes instituições compartilham as mesmas informações para orientar a tomada de decisão.

Uma das iniciativas para integrar esses dados é o SISFOGO, sistema nacional de gestão de informações previsto nas resoluções da Comissão Nacional de Manejo Integrado do Fogo (COMIF). A plataforma deve reunir informações de produtores rurais, municípios, estados e governo federal, permitindo acompanhar autorizações para uso do fogo, monitorar áreas de risco e apoiar a resposta aos incêndios.

Para Gomes, essa integração deve facilitar tanto o planejamento quanto a fiscalização.

O El Niño eleva as temperaturas e reduz as chuvas na Amazônia, criando um cenário perigoso de seca e calor – Crédito: Karn Buppunhasamai – Shutterstock

O Brasil está preparado para uma nova temporada de queimadas?

Apesar dos avanços observados desde 2024, os especialistas evitam dizer que o país já esteja preparado para enfrentar uma nova temporada extrema de incêndios.

Para Lincoln Muniz Alves, a principal diferença em relação ao passado é que hoje existe capacidade de antecipar o risco climático com maior antecedência. O desafio é transformar essa informação em ações concretas.

“A principal prioridade é antecipar a resposta. Não podemos esperar os incêndios atingirem seu pico para agir”, declarou.

Segundo ele, isso passa por atualizar planos de contingência, posicionar brigadas e equipamentos antes do auge da estação seca, fortalecer a fiscalização, restringir o uso do fogo em períodos críticos e melhorar a comunicação com produtores rurais e comunidades.

Também é necessário integrar diferentes áreas do poder público. “É preciso articular defesa civil, meio ambiente, saúde, recursos hídricos, segurança pública e assistência social”, defendeu.

Jarlene Gomes concorda que a preparação começa muito antes da temporada crítica.

Para ela, a mobilização da sociedade será tão importante quanto o trabalho realizado pelos órgãos públicos: “A melhor coisa a se fazer agora é tentar controlar o uso do fogo. Primeiro, fazer uma mobilização e um engajamento de toda a sociedade de que a gente tem realmente um risco de grandes incêndios e que é preciso que cada um faça a sua parte”.

Segundo a pesquisadora, mapas de risco, treinamentos de brigadistas, planejamento operacional e controle do uso do fogo já estão sendo reforçados em diferentes estados, especialmente na Amazônia.

A expectativa é que essas medidas, aliadas à integração prevista pela Política Nacional de Manejo Integrado do Fogo, permitam reduzir os impactos caso o novo El Niño confirme as projeções de forte intensidade.

Ainda assim, os especialistas alertam que o comportamento do clima continuará sendo um fator determinante. Se a estiagem se prolongar e as temperaturas permanecerem acima da média, o Brasil poderá enfrentar novamente um cenário de alto risco para incêndios florestais – tornando a prevenção a principal ferramenta para evitar que a história de 2024 se repita. O post El Niño acende alerta: Brasil está preparado para enfrentar outra temporada de queimadas? apareceu primeiro em Olhar Digital.

Artigo originalmente publicado em olhardigital.com.br
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