Ao traduzirmos “El Niño” do espanhol, temos “O Menino”. Fazendo jus ao nome, o fenômeno age como um garoto travesso que chega para bagunçar o clima no mundo quando as águas do Pacífico Equatorial aquecem mais do que o normal. Mudanças no regime de chuvas, ondas de calor, secas prolongadas e enchentes passam a ocorrer com maior frequência em diferentes partes do planeta.
No Brasil, essa “traquinagem” se traduz em uma perigosa divisão meteorológica: enquanto as regiões Norte e Nordeste entram em estado de atenção devido à seca severa e ao risco de incêndios florestais, o Sul do país se prepara para chuvas torrenciais, enchentes e ciclones.
Em resumo:
O El Niño é um fenômeno que intensifica eventos climáticos extremos;
No Brasil, provoca secas no Norte e chuvas intensas no Sul;
Fenômeno reduz safras, eleva preços dos alimentos e afeta a economia;
Um Super El Niño pode ampliar desastres e perdas agrícolas;
Tecnologia, seguros e manejo sustentável ajudam produtores a reduzir impactos.
Cada região do Brasil reage ao El Niño à sua maneira. – Credito: Imagem gerada por IA/Gemini
Como o El Niño influencia os preços dos alimentos
Além de sobrecarregar o sistema de saúde, comprometer o abastecimento de energia elétrica e colapsar a infraestrutura das cidades, essa instabilidade também pesa no bolso dos produtores de quase tudo que consumimos.
“Por um lado, a gente tem Norte e Nordeste que enfrentam secas severas e estiagens históricas, falta água para o pasto, a pecuária de leite sofre muito, as grandes plantações de grãos sofrem muito e frutas regionais sofrem perdas graves. Por outro lado, a gente vai ter Sul e Sudeste que vivem o extremo oposto. O excesso de umidade vai favorecer o surgimento de doenças nas plantas. Para piorar, as ondas de calor intenso fazem o café abortar suas flores e estragam as lavouras de hortaliças antes mesmo da colheita”, explicou Bruno Dupin Gaspar, engenheiro agrônomo com extensa experiência em empresas multinacionais e referência internacional em tecnologia e inovação, especialmente no agronegócio, em entrevista ao Olhar Digital.
“É a lei da oferta e da procura”, resume o especialista. “Com a produção nacional prejudicada pelo clima, o volume de alimentos que chega ao centro de distribuição despenca. Se a oferta cai e a procura continua a mesma, o preço nas prateleiras dispara. E aí é exatamente onde a inflação de alimentos acontece, pesando diretamente no orçamento das famílias”.
Está achando caro o óleo de soja e outros alimentos? Com o El Niño, isso deve piorar ainda mais. – Crédito: Imagem gerada por IA/Gemini
O fantasma do “Super El Niño” e as lições do passado
O Brasil tem um histórico marcante de prejuízos causados por esse aquecimento do Pacífico. Entre 2015 e 2016, o país viveu impactos severos na produção agrícola. Dados da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) apontam que a produtividade de grãos despencou na região do Matopiba (Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia) devido à seca severa daquela época.
Atualmente, o maior receio dos meteorologistas é a consolidação de um “Super El Niño“. Esse termo é usado pela comunidade científica quando o aquecimento das águas do Oceano Pacífico Equatorial é extremo, ultrapassando a marca crítica de 2℃ acima da média histórica – um limite alcançado pouquíssimas vezes no último século e que eleva drasticamente o risco de desastres climáticos globais.
Sob a influência de um evento dessa magnitude, os impactos climáticos tradicionais são amplificados drasticamente. O Nordeste passa a enfrentar estiagens históricas e secas prolongadas, enquanto a região Sul fica sujeita a volumes de precipitação extraordinários, com enchentes e tempestades violentas capazes de causar a perda total de lavouras e a degradação profunda do solo.
Segundo Gaspar, as crises geradas por eventos de El Niño intensos, como o de 2015-2016, trazem uma lição importante. “De lá para cá, a gestão de risco no agronegócio brasileiro amadureceu bastante, os produtores e as entidades do setor entenderam que o futuro da atividade depende de estratégias inteligentes que vão além do manejo de terra e hoje diretrizes da CNA e do Ministério da Agricultura focam em criar defesas financeiras mais robustas”.
Bruno Dupin, engenheiro agrônomo referência internacional em tecnologia e inovação. – Crédito: Olhar Digital
Soluções que ajudam o campo a enfrentar o El Niño
Ele se refere a soluções práticas de adaptação climática que vêm sendo implementadas em diferentes regiões do país. “Por exemplo, no oeste da Bahia, a região que se consolidou como uma liderança nacional em irrigação sustentável, o segredo é a gestão hídrica responsável. Então, os produtores monitoram os aquíferos e usam sistemas automatizados para aplicar a quantidade exata de água que o solo precisa. Isso permite até duas safras anuais, mesmo em períodos sem chuva, sem esgotar o meio ambiente”.
Já no centro-oeste, Gaspar diz que o foco da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) está no manejo de inteligência da terra. “Os produtores têm recorrido ao sistema de plantio direto e à rotação de culturas, como por exemplo o cultivo de arroz de sequeiro em sucessão à soja. Esse processo cria uma camada de palha sobre o solo, funcionando como uma cobertura morta. Essa camada protege a umidade natural da terra e evita o superaquecimento das raízes durante os veranicos, que são aqueles períodos de calor e seca no meio do verão”.
Para dar suporte a essas mudanças, o setor investe em proteção no campo. Segundo o engenheiro agrônomo, a principal ferramenta é o seguro agrícola. “Ele funciona como seguro de carro, por exemplo. Então, se o clima castiga e a safra é perdida, o seguro garante a estabilidade de renda daquela família. E, além disso, existem investimentos focados em construir reservatórios comunitários de água, garantindo abastecimento regional durante a estiagem”.
Leia mais:
El Niño está de volta — e os sinais já aparecem do espaço
Calor, ar seco e umidade: como o El Niño afeta alergias respiratórias
El Niño: o fenômeno que muda o clima do planeta inteiro
A inteligência artificial como aliada da lavoura
Sistemas de inteligência artificial desenvolvidos pela Embrapa já cruzam dados de satélite e históricos climáticos para prever cenários na lavoura. Os modelos conseguem estimar janelas ideais de plantio e identificar indícios de doenças foliares antes da proliferação na plantação. A democratização dessa tecnologia ocorre por meio de iniciativas como o projeto Semear Digital, voltado para a introdução das ferramentas na agricultura familiar.
“Eles conseguem mapear e identificar pragas ou áreas com estresse hídrico, que é quando a planta começa a passar sede, antes que o olho humano consiga notar algum problema. Isso permite ao produtor agir rápido e economizar recursos”, explica Gaspar.
Na operação de campo, a tecnologia atua no controle de insumos e recursos. Drones e sensores acoplados ao maquinário realizam o mapeamento em tempo real. A partir desse diagnóstico, os sistemas automatizados direcionam a aplicação de água e defensivos agrícolas de forma cirúrgica, reduzindo o custo operacional e o impacto ambiental em períodos de instabilidade climática.
“Então, contra a força do clima, a melhor resposta do nosso agronegócio é a união de três fatores: a tecnologia, o planejamento financeiro e a sustentabilidade”, conclui o especialista.
O post El Niño vira o clima do avesso e ameaça o agro no Brasil apareceu primeiro em Olhar Digital.
Artigo originalmente publicado em
olhardigital.com.br