Ele trouxe um protetor solar da Austrália, viu uma oportunidade e criou uma empresa que deve faturar R$ 3 milhões em 2026
O surfista Juliano Lima enfrentava um problema toda vez que entrava no mar — e isso o fez enxergar uma oportunidade de negócio. Dentista de formação e surfista nas horas vagas, ele passava longos períodos exposto ao sol e se incomodava com a necessidade constante de reaplicar protetor solar durante a prática esportiva. O problema parecia simples, mas acompanhava o empreendedor desde a adolescência.
A solução veio por meio da Brazinco, uma marca de protetor solar voltada a atletas que praticam esportes ao ar livre.
Tudo começou cerca de 25 anos atrás, quando Lima fez um intercâmbio para a Austrália aos 17 anos. Morando próximo ao litoral e convivendo com grupos de salvamento aquático ligados ao Surf Life Saving, ele percebeu que a cultura de proteção solar no país era diferente da brasileira.
"Reparei que os protetores deles seguravam mais, e eram mais resistentes ao suor e à água. Sempre tive esse problema de ter que parar o que estava fazendo para reaplicar", afirma o empreendedor em entrevista ao Seu Dinheiro.
A observação ficou guardada por anos. Já formado em odontologia e trabalhando como implantodontista em Curitiba, no Paraná, Lima voltou à Austrália para visitar a irmã, que morava no país. Na viagem, trouxe alguns protetores em bastão e com cor para testar no Brasil.
Foi nesse momento que identificou uma oportunidade. Ao analisar os produtos disponíveis no mercado brasileiro, percebeu que a maioria das opções com cor estava mais associada ao universo da maquiagem do que à prática esportiva.
Faltava, na visão dele, um produto desenvolvido especificamente para quem passava horas ao ar livre.
A partir dessa percepção nasceu a ideia de criar uma marca voltada para atletas e praticantes de atividades outdoor.
A pesquisa que durou anos para criar um protetor solar
A experiência profissional na odontologia acabou desempenhando um papel importante no desenvolvimento do negócio.
Acostumado a estudar materiais, fórmulas e componentes químicos utilizados em procedimentos odontológicos, Lima decidiu mergulhar por conta própria no universo da fotoproteção.
O empreendedor pesquisou as diferenças entre filtros químicos e filtros físicos, optando por construir o produto com base em ingredientes como óxido de zinco e dióxido de titânio.
Mas transformar a ideia em produto exigiu mais tempo do que imaginava. Entre pesquisas, testes e ajustes, a busca pela fórmula ideal durou cerca de quatro anos. Ele começou pesquisando laboratórios menores que faziam terceirização de produtos (como amenities para hotéis). Com o tempo, ele passou a buscar laboratórios maiores em busca do produto que ele considerasse o melhor.
Foram centenas de amostras testadas até encontrar uma formulação que atendesse às características que considerava indispensáveis. "Muitos eram moles, outros muito duros. Em outros a cor não dava certo", conta.
O objetivo era desenvolver um produto que reunisse várias características ao mesmo tempo: alta resistência à água e ao suor, toque seco, boa cobertura e, principalmente, que não escorresse nos olhos durante a prática esportiva.
Segundo ele, esse último ponto era uma das maiores reclamações entre surfistas e praticantes de atividades ao ar livre.
O nascimento da Brazinco
A empresa ganhou forma com a entrada de dois sócios. Lima se uniu ao amigo de infância Rafael Mainardes Tempo, responsável por atuar na operação do negócio. Posteriormente, Ícaro Riede passou a integrar a sociedade e realizou um aporte inicial de R$ 170 mil.
O nome escolhido para a empresa também refletia o posicionamento da marca. "Brazinco" surgiu da união entre as palavras "Brasil" e "zinco", um dos principais ingredientes utilizados na fórmula dos protetores.
O primeiro produto lançado foi o Protetor Solar Facial FPS 47. Desenvolvido inicialmente em uma tonalidade, o produto evoluiu ao longo dos anos para três versões: bege médio, bege escuro e incolor.
Juliano Lima, fundador da Brazinco - Divulgação
Crescimento fora das farmácias
Na hora de colocar o produto no mercado, a Brazinco preferiu se aproximar diretamente do público que pretendia atender, ao invés de focar em farmácias. A distribuição começou por lojas de surfe, kitesurfe e artigos de praia, reproduzindo uma estratégia que Lima havia observado na Austrália e nos Estados Unidos.
Ao mesmo tempo, a marca distribuiu mais de mil amostras para atletas e formadores de opinião dentro da comunidade esportiva.
"A ideia super pegou. Como não existia nada novo na comunidade do surf, começou a acontecer naturalmente", afirma. “O boca a boca ajudou a consolidar a marca entre surfistas, skatistas e praticantes de esportes ao ar livre.”
No primeiro ano de operação, em 2016, a empresa comercializou cerca de 10 mil unidades.
Ao longo dos anos, o relacionamento com atletas se transformou em um dos pilares da estratégia de crescimento.
Hoje, a marca mantém parceria com Adriano de Souza, o Mineirinho, patrocinado há oito anos. Também fazem parte do time nomes como o surfista Yago Dora, campeão mundial da WSL em 2025, o skatista Pedro Barros, a big rider Michaela Fregonese e o surfista Mateus Herdy.
Além dos atletas patrocinados diretamente, a empresa apoia aproximadamente 50 esportistas de diferentes modalidades, incluindo kitesurfe, futevôlei e nado sincronizado.
Segundo Lima, a presença desses atletas ajudou a construir credibilidade para a marca em um segmento onde a performance do produto é constantemente colocada à prova.
Sustentabilidade entra na estratégia
Com o crescimento da operação, a empresa também passou a incorporar pautas ambientais ao desenvolvimento dos produtos.
Em 2021, a Brazinco reformulou sua composição e criou o selo "Biodefesa Amigo do Oceano".
A marca retirou a cera de abelha da fórmula, tornando os produtos 100% veganos. Também eliminou derivados de petróleo e ingredientes considerados prejudiciais aos corais e à vida marinha.
Outro diferencial destacado pela empresa é que o protetor em bastão é produzido sem utilização de água.
A iniciativa surgiu tanto como resposta às demandas dos consumidores quanto como uma forma de fortalecer a conexão da marca com o público ligado ao mar e aos esportes ao ar livre.
Expansão pelo país
A empresa encerrou 2025 com cerca de 50 mil protetores vendidos e presença em aproximadamente 600 pontos de venda.
Atualmente, o modelo de distribuição é baseado principalmente em revendedores e representantes comerciais, responsáveis por 85% das vendas. Os outros 15% vêm dos canais digitais, incluindo loja própria e marketplaces.
Embora cerca de 90% das vendas estejam concentradas no litoral brasileiro, um mercado chama a atenção da empresa: Minas Gerais.
Mesmo sem litoral, o estado se tornou o terceiro maior mercado da Brazinco. Segundo Lima, isso ocorreu principalmente pela recomendação de dermatologistas e pela divulgação orgânica feita por influenciadores.
A marca está presente em praticamente todo o território nacional e pretende ampliar ainda mais sua capilaridade. A expectativa para 2026 é chegar a 850 pontos de venda e superar R$ 3 milhões em faturamento.
O futuro da marca
No fim de 2024, o empreendedor tomou uma decisão que vinha sendo construída ao longo dos anos: deixou definitivamente a carreira na odontologia para se dedicar exclusivamente à Brazinco. Hoje, atua como CEO e lidera uma nova etapa de crescimento da empresa.
Para marcar os dez anos da marca, a Brazinco ainda pretende realizar uma campanha promocional com sorteio de viagem para a Bahia e prêmios assinados pelos atletas patrocinados.
Com fábrica e centro de distribuição em Curitiba, a empresa quer ampliar sua presença para além do universo do surfe e se consolidar em outras modalidades esportivas praticadas ao ar livre.
"A gente precisa segmentar para crescer. Se ficarmos só no ramo de surfe, não teremos o crescimento esperado a longo prazo", projeta o empreendedor.
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Artigo originalmente publicado em
www.seudinheiro.com