Didier Eribon carrega incômodo consigo. Quando mencionam seu nome ao lado de Annie Ernaux e Édouard Louis, nomes exponenciais da autoficção contemporânea, o intelectual francês levanta a voz para corrigir a trajetória. Não é mera teimosia de autor; é uma questão de princípio sobre como definir e limitar uma obra que sempre escapou às categorias convencionais.
A confusão é compreensível. Eribon escreveu textos que desvendam sua própria vida—sua origem operária, sua homossexualidade, os conflitos familiares—entrelaçando memória pessoal com análise social aguda. Para muitos leitores e críticos, isso se encaixa perfeitamente na autoficção, esse gênero híbrido que dissolveu fronteiras entre ficção e realidade. Mas Eribon sustenta que sua operação é distinta. Seus ensaios não buscam a reinvenção ficcional do eu; buscam dissecá-lo, compreendê-lo através da sociologia e da história.
O desconforto do intelectual reflete uma tensão maior no debate literário atual. A autoficção conquistou força crítica justamente por sua ambiguidade, por permitir que autores explorem verdades pessoais sem se prenderem aos protocolos da autobiografia tradicional. Ernaux e Louis abraçaram essa liberdade com maestria. Eribon, porém, trabalha com ferramentas diferentes: ele não quer deslocar a realidade, quer iluminá-la. Seu texto é ensaístico, interventor, preocupado com o coletivo tanto quanto com o íntimo.
A recusa de Eribon é, paradoxalmente, um sinal de força. Num contexto onde rótulos facilitam a comercialização e a crítica, insistir que sua obra transcende categorias é um ato de resistência. Sugere que o pensamento vivo não se encaixa em prateleiras. E talvez esse seja o ponto: enquanto a autoficção se tornou moda crítica, Eribon segue seu próprio caminho, híbrido e inclassificável, onde a vida e o pensamento político não precisam pedir permissão para coexistirem na página.