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Estudo sugere que viagens espaciais aceleram envelhecimento do fígado

Redação Recifes
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Estudo sugere que viagens espaciais aceleram envelhecimento do fígado
Foto: RDNE Stock project / Pexels

Uma nova pesquisa indica que a exposição às condições extremas do espaço pode provocar no fígado alterações semelhantes às observadas durante o envelhecimento.

O trabalho aponta que, apenas 24 horas após o contato com níveis de radiação comparáveis aos encontrados no espaço profundo, já é possível identificar mudanças genéticas no órgão, levantando preocupações sobre os efeitos de missões espaciais de longa duração, como uma futura viagem a Marte.

O estudo foi liderado pelo professor Michal Masternak, da Universidade da Flórida Central, e publicado na revista científica GeroScience.

Fígado foi escolhido por seu papel central no organismo

  • Os pesquisadores concentraram a investigação no fígado por ele desempenhar funções essenciais para o funcionamento do corpo humano, incluindo metabolismo, armazenamento de energia, desintoxicação e diversos outros processos biológicos;
  • “Nós nos concentramos no fígado porque ele é um dos principais órgãos metabólicos do nosso corpo”, afirmou Masternak ao Earth.com;
  • Segundo o pesquisador, as primeiras alterações apareceram rapidamente após a exposição à radiação.

“O que descobrimos foi que, apenas 24 horas após a exposição à radiação, há muitas alterações genéticas no fígado que são notavelmente semelhantes ao que acontece durante o envelhecimento.”

Ele acrescenta que uma permanência prolongada no espaço poderia intensificar esses efeitos. “Podemos supor que, se alguém ficasse no espaço por muito mais tempo, o dano poderia ser muito maior.”

Ambiente espacial foi reproduzido em laboratório

Para investigar os possíveis impactos de uma missão tripulada a Marte, a equipe recriou em laboratório condições semelhantes às do espaço profundo.

Modelos animais permaneceram durante 14 dias em um ambiente de microgravidade simulada e foram expostos simultaneamente à radiação cósmica galáctica e a eventos de partículas solares no Laboratório de Radiação Espacial da NASA.

As doses utilizadas foram projetadas para reproduzir a exposição que astronautas poderiam enfrentar durante uma missão ao planeta vermelho.

Pesquisadores observaram inflamação e sinais de envelhecimento celular

Após os experimentos, os cientistas identificaram diversas alterações prejudiciais no fígado.

Entre elas estavam o aumento da senescência celular, processo no qual células envelhecidas deixam de desempenhar adequadamente suas funções, além de níveis mais elevados de inflamação e de fibrose, um tipo de cicatrização dos tecidos que pode comprometer o funcionamento normal do órgão.

Segundo os autores, caso essas alterações persistam por longos períodos, elas poderão contribuir para o declínio progressivo da função hepática ou até para falência do órgão.

Alterações no fígado também apareceram em dados de astronautas

Os pesquisadores compararam os resultados obtidos no laboratório com amostras de sangue coletadas durante o Estudo dos Gêmeos da NASA e de astronautas que participaram da missão Inspiration4.

A análise revelou alterações genéticas semelhantes às observadas nos experimentos. “Temos esses dados brutos de estudos humanos e eles mostram que algumas dessas alterações são semelhantes”, afirmou Masternak.

“Isso nos diz que estamos identificando alvos moleculares úteis que um dia poderão ajudar a proteger os astronautas durante missões espaciais de longa duração.”

Moléculas podem abrir caminho para novos tratamentos

Além de identificar as alterações provocadas pela radiação, os cientistas também investigaram formas de interferir nesse processo.

O estudo destacou o potencial de moléculas conhecidas como antagomirs, que atuam sobre os microRNAs — pequenas moléculas responsáveis por regular a ativação e o desligamento de genes dentro das células.

Segundo os pesquisadores, ao modificar essas vias genéticas, os antagomirs podem reduzir parte dos efeitos associados ao envelhecimento e à inflamação desencadeados pela exposição à radiação semelhante à espacial.

Embora os experimentos ainda estejam em estágio inicial, os autores afirmam que os resultados representam um possível ponto de partida para futuras terapias destinadas tanto à proteção de astronautas quanto ao tratamento de doenças relacionadas ao envelhecimento.

Espaço pode acelerar pesquisas sobre envelhecimento

Masternak destaca que estudar o envelhecimento em condições normais exige muitos anos de observação, especialmente em seres humanos.

“Muitas vezes, quando estudamos diferentes processos de envelhecimento, leva tempo. Mesmo em humanos, é quase impossível porque levaria décadas.”

Segundo ele, o ambiente espacial pode acelerar esse processo, permitindo que os cientistas compreendam mais rapidamente seus mecanismos. “Mas, se observarmos alguma aceleração do envelhecimento no espaço, então podemos transferir isso para estudos humanos.”

“Podemos observar processos acontecendo muito mais rápido, entendê-los melhor e, eventualmente, usar esse conhecimento para melhorar a saúde das pessoas aqui na Terra.”

Os pesquisadores ressaltam que o espaço vem sendo considerado cada vez mais um importante laboratório para a biologia humana. Trabalhos anteriores já mostraram que voos espaciais podem afetar o sistema imunológico, a saúde cardiovascular, a massa muscular, a densidade óssea e até a atividade genética.

Envelhecimento envolve diversos órgãos além do fígado, dizem cientistas

Para Masternak, o envelhecimento não pode ser entendido apenas pelas mudanças visíveis no corpo. “Nossa compreensão do envelhecimento é muito complexa.”

“O envelhecimento não é simplesmente rugas ou mudanças estéticas. É a falência gradual e em cascata de múltiplos órgãos e sistemas biológicos que acontece ao mesmo tempo.”

Ele afirma que compreender como esse processo começa poderá ajudar na prevenção de diversas doenças. “Ao entender o que inicia esse processo e onde ele acontece, temos uma chance melhor de prevenir muitas doenças antes que se desenvolvam. Essa é uma das maiores questões em aberto.”

Projeto está ajudando na formação de novos profissionais

O projeto também está servindo como oportunidade de formação para estudantes de pós-graduação interessados em medicina espacial.

O doutorando Md Tanjim Alam afirmou que entrou no laboratório com a intenção de estudar câncer e envelhecimento, mas acabou direcionando sua pesquisa para os efeitos das viagens espaciais na saúde humana.

“Quero continuar explorando o desconhecido. Quero realmente entender como as viagens espaciais influenciam a saúde humana, particularmente seus efeitos sobre o envelhecimento e o câncer.”

Já a estudante Sarah S. Siddiqi disse que foi atraída pela possibilidade de integrar diferentes áreas da ciência em uma mesma pesquisa.

Ela destaca que o envelhecimento não deve ser estudado apenas em idosos. “Mas estudamos o envelhecimento em diferentes estágios da vida e em diferentes ambientes, incluindo o espaço. Sempre estarei focada em melhorar a qualidade de vida.”

“Quero entender melhor doenças que são cada vez mais prevalentes e encontrar maneiras de reconhecê-las mais cedo, antes que avancem para estágios mais tardios.”

O post Estudo sugere que viagens espaciais aceleram envelhecimento do fígado apareceu primeiro em Olhar Digital.

Artigo originalmente publicado em olhardigital.com.br
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