Localizado a cerca de 120 anos-luz da Terra, o exoplaneta K2-18b é alvo constante da astrobiologia. Um estudo recente usou dois dos mais potentes radiotelescópios do mundo para “ouvir” o planeta em busca de sinais artificiais. O resultado: nenhuma “tecnoassinatura” ou sinal de tecnologia alienígena foi detectado.
Maior que a Terra e menor que Netuno, o K2-18b orbita a zona habitável de uma estrela anã vermelha. Ele é classificado como um possível mundo hiceano (planeta coberto por um oceano líquido sob uma atmosfera rica em hidrogênio). O interesse sobre ele explodiu após o telescópio James Webb identificar indícios de “bioassinaturas” em sua atmosfera. Em 2025, isso repercutiu como uma das maiores pistas de vida extraterrestre já encontradas.
Contudo, o “silêncio” na busca por ondas de rádio não descarta a possibilidade de vida por lá. Só quer dizer que os pesquisadores não captaram ondas de rádio parecidas com as que nós, humanos, usamos hoje em dia. Isso não elimina a possibilidade de existirem formas de vida mais simples, como microrganismos, no exoplaneta. A seguir, o Olhar Digital te explica a pesquisa e como a ciência investiga a existência de vida no Universo.
O que são ‘tecnoassinaturas’ e como cientistas ‘ouviram’ o exoplaneta
Na busca por inteligência extraterrestre (SETI, na sigla em inglês), os astrônomos diferenciam emissões naturais do Universo de sinais artificiais. Enquanto fenômenos astrofísicos (estrelas, pulsares, galáxias) transmitem energia espalhada por uma ampla faixa de frequências, uma “tecnoassinatura” de rádio se caracteriza como um sinal de faixa estreita. Esse tipo de transmissão concentrada funciona como o indício de radares ou sistemas de comunicação semelhantes aos produzidos pela humanidade.
O interesse em direcionar observações para K2-18b cresceu após o Telescópio Espacial James Webb (JWST) detectar moléculas de dióxido de carbono e metano em sua atmosfera. Isso sugere que o planeta tem condições favoráveis à habitabilidade. Para investigar a hipótese de uma civilização usando tecnologia de rádio na região, cientistas uniram dados de dois dos observatórios mais potentes do mundo: o Karl G. Jansky Very Large Array (VLA), nos Estados Unidos, e o MeerKAT, na África do Sul.
O maior desafio técnico da pesquisa, publicada no The Astrophysical Journal Letters, foi separar eventuais sinais espaciais do imenso volume de interferências de radiofrequência (RFI) geradas na própria Terra. Para isso, os pesquisadores aplicaram algoritmos de filtragem que analisaram o desvio Doppler (a pequena variação na frequência causada pela aceleração orbital de K2-18b), descartando qualquer emissão estática em relação aos nossos receptores. O protocolo previa ainda checar se o sinal sumia quando o exoplaneta passava atrás de sua estrela hospedeira.
Essa triagem minuciosa ilustra o ritmo cadenciado do método científico, que avança pela eliminação rigorosa de hipóteses e pelo acúmulo contínuo de dados. O astrônomo Marcelo Zurita, presidente da Associação Paraibana de Astronomia e colunista do Olhar Digital, destacou que a confirmação de qualquer dado extraordinário exige paciência e repetição contínua de observações.
“Tem muita gente que acha que o cientista tira uma ideia da cabeça, escreve e está feito a ciência. Na verdade, é muito trabalho, muita pesquisa”, disse o especialista, numa conversa com a pesquisadora em oceanografia Jacqueline Sibuya, da Universidade Federal da Bahia (UFBA), durante o programa Olhar Espacial. “Confirmar qualquer hipótese que você levante é uma coisa bem complicada. Ainda mais quando a gente trata de algo tão extraordinário como vida fora da Terra.”
O astrônomo ressaltou que medir variações no espectro de um planeta a 120 anos-luz exige múltiplos trânsitos em frente à sua estrela. “É um trabalho tão complexo que nem mesmo o nosso maior telescópio, o maior instrumento científico já construído pela humanidade, tem essa capacidade de fazer isso de uma única vez”, observou. “Precisou de vários trânsitos desse planeta em frente à estrela para a gente poder ter uma informação mais válida para a ciência […] E mesmo tendo, pode ser outra coisa.”
Bioassinaturas, ‘alarmes falsos’ e a realidade do consenso científico
Enquanto as tecnoassinaturas buscam vestígios de tecnologia, uma “bioassinatura” é um elemento químico ou molécula cuja presença pode indicar atividade de processos biológicos. No caso de K2-18b, grande parte da especulação recente girou em torno do sulfeto de dimetila (DMS). Na Terra, esse composto de enxofre é produzido predominantemente por organismos vivos marinhos, como o fitoplâncton. É a substância responsável pelo “cheiro de mar” que você sente no litoral.
Na conversa com Zurita, a pesquisadora em oceanografia comentou sobre a divulgação dos dados captados pelo telescópio espacial. “A partir dessas observações contínuas do James Webb, fez-se uma descoberta que foi veiculada na mídia como a maior evidência de vida fora da Terra, a descoberta do gás […] O que o James Webb identificou [foi que] a quantidade desse gás na atmosfera desse planeta seria muito maior do que a gente tem aqui na Terra.”
Apesar da empolgação inicial, a presença do gás a 120 anos-luz não equivale a uma prova definitiva de biologia. “A gente não pode bater o martelo porque existem falsos positivos […] Pode ser que haja um meio de produzir DMS sem precisar de vida. Às vezes naquele planeta tem algum mecanismo que produza o DMS sem necessariamente precisar da vida”, ponderou Sibuya. Confira abaixo a conversa entre Zurita e a pesquisadora:
Essa cautela reforça o gap entre (algumas) manchetes e a postura real da comunidade científica. Em artigo publicado no portal The Conversation, o professor Peter Vickers, da Universidade de Durham (Inglaterra), aponta que anúncios sobre “as maiores evidências já encontradas” costumam simplificar o debate e criar uma falsa impressão de consenso científico. Pesquisas de opinião com astrobiólogos mostram que a maioria dos especialistas prefere tratar vestígios gasosos como dados preliminares sob forte incerteza. E não como confirmação de vida extraterrestre.
A combinação entre a incerteza das bioassinaturas gasosas e a ausência de tecnoassinaturas de rádio captadas pelos telescópios VLA e MeerKAT não desaponta os astrônomos. Na prática, ela ajuda a afunilar os caminhos da investigação. Ou seja, ajuda a ciência. A busca por vida fora da Terra avança justamente no ritmo dessa checagem cruzada, na qual descartar hipóteses apressadas é o passo mais seguro para construir respostas verdadeiramente científicas.
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