A revisão do acordo comercial entre Estados Unidos e Canadá acontece em um ambiente mais tenso do que o previsto quando o pacto foi firmado. O processo, que deveria servir para ajustar detalhes, passou a ser usado por Washington para cobrar mudanças em temas que há anos incomodam exportadores americanos e travam avanços na agenda bilateral.
Entre os principais pontos de atrito está o setor de laticínios. Os EUA criticam o sistema canadense de controle da oferta, que combina cotas e tarifas elevadas para proteger produtores locais e limita o acesso de concorrentes estrangeiros. Para Ottawa, essa estrutura é parte da defesa de uma cadeia sensível da economia rural; para Washington, é uma barreira difícil de justificar em um acordo de livre comércio.
A disputa pela madeira serrada também segue viva. O velho embate sobre softwood lumber volta e meia reaparece nas conversas porque os americanos acusam o Canadá de favorecer sua indústria florestal por meio do modelo provincial de exploração da terra. Os canadenses rejeitam a leitura de subsídio e defendem que as regras do setor refletem a forma como o país administra suas florestas.
Nos últimos meses, a taxação de serviços digitais acrescentou outra camada de atrito. Em Washington, a medida foi tratada como um custo imposto a grandes empresas americanas de tecnologia; em Ottawa, a decisão foi vista como parte de uma tentativa de ampliar a arrecadação. O resultado é uma revisão comercial em que cada lado tenta defender seus interesses enquanto negocia o mínimo de previsibilidade para empresas e investidores.