O Estado de Nova York se tornou o primeiro dos Estados Unidos a impor uma moratória à construção de grandes data centers, em medida que representa revés para empresas de inteligência artificial (IA) e amplia o debate sobre os impactos ambientais, energéticos e econômicos dessas instalações.
A governadora Kathy Hochul assinou, nesta terça-feira (14), uma ordem executiva que suspende por até um ano a emissão de licenças ambientais para novos data centers de grande porte. Segundo ela, o período será utilizado para que autoridades estaduais elaborem regras destinadas a proteger a rede elétrica, os recursos naturais e as comunidades que recebem esse tipo de empreendimento.
“À medida que o desenvolvimento de data centers ameaça aumentar as contas de serviços públicos, esgotar nossos recursos naturais e criar incerteza para os nova-iorquinos, é minha responsabilidade agir e liderar”, afirmou Hochul em comunicado.
A governadora acrescentou que “Nova York liderará o caminho na criação dos padrões mais rigorosos do país para o desenvolvimento de data centers, garantindo que, quando as empresas prosperam por causa de Nova York, os nova-iorquinos também prosperem”.
Efeitos imediatos ainda são incertos
Os impactos práticos da medida ainda não estão totalmente definidos. Nova York possui menos data centers do que estados, como Virgínia e Texas. Ainda assim, diversos projetos planejados para o Estado já vinham gerando conflitos com comunidades locais.
A moratória representa uma escalada na disputa entre a indústria de tecnologia e autoridades políticas que enfrentam a crescente preocupação de moradores com os efeitos do rápido crescimento dessas instalações e com as mudanças econômicas provocadas pelos sistemas de IA que elas alimentam.
Resistência cresce entre a população
Segundo o The Washington Post, pesquisas recentes indicam que muitos estadunidenses afirmam sentir-se mais confortáveis com a instalação de uma usina nuclear em sua cidade do que com um data center.
Até mesmo localidades que, durante décadas, dependeram dessas instalações para fortalecer suas receitas públicas, passaram a demonstrar resistência. O caso mais citado é o do norte da Virgínia, considerado o maior polo mundial de data centers.
Os incentivos oferecidos anteriormente pelas empresas de tecnologia para conquistar apoio das comunidades, como investimentos em escolas e promessas de financiar obras de infraestrutura, perderam parte de seu apelo.
Além disso, autoridades em diferentes regiões dos Estados Unidos passaram a defender a revisão de incentivos fiscais concedidos ao setor. Nesta terça, Hochul também pediu aos legisladores estaduais que revoguem as isenções de imposto sobre vendas atualmente concedidas aos data centers.
Consumo de energia preocupa autoridades
O crescimento acelerado dos data centers também intensificou as preocupações com o consumo de eletricidade.
Essas instalações exigem grandes quantidades de energia, e a rede elétrica estadunidense enfrenta dificuldades para atender à demanda crescente. Alguns data centers já consomem mais eletricidade do que grandes cidades inteiras, segundo o Post.
Representantes da indústria e integrantes da Casa Branca argumentam que limitar a expansão dos data centers — e das usinas responsáveis por abastecê-los — pode comprometer a liderança dos Estados Unidos na corrida pela IA diante de países rivais.
Segundo eles, a IA será determinante não apenas para a economia global, mas também para o desenvolvimento de sistemas militares.
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Proibições avançam em diferentes regiões
A oposição aos data centers também tem crescido em nível local. Dezenas de municípios aprovaram restrições próprias, incluindo Monterey Park, na Califórnia (EUA), onde os eleitores decidiram proibir permanentemente esse tipo de instalação.
Tentativas de implementar moratórias estaduais, porém, tiveram menos sucesso. Em abril, a governadora do Maine, Janet Mills, vetou um projeto de lei semelhante, argumentando que a medida poderia comprometer um empreendimento planejado para o terreno de uma antiga fábrica na cidade de Jay, iniciativa que conta com apoio da comunidade local.
Governo Trump busca acelerar expansão da IA
A crescente resistência aos data centers também representa um desafio para o governo de Donald Trump, que considera a expansão da IA um componente estratégico de sua agenda doméstica.
Segundo a Reuters, autoridades federais trabalham para que empresas do setor de energia assinem um compromisso voltado à proteção dos consumidores durante a expansão dos data centers, em modelo semelhante ao firmado anteriormente pelas principais empresas de tecnologia.
Consumidores temem aumento das tarifas
Apesar desses compromissos, as preocupações sobre os impactos nas contas de energia permanecem.
Críticos dos data centers consideram as promessas do setor insuficientes e apontam situações em que parte dos custos de expansão da infraestrutura elétrica necessária para atender essas instalações teria sido repassada aos demais consumidores.
Quando as contas de eletricidade aumentaram significativamente no ano passado para consumidores residenciais atendidos por uma rede que cobre 13 estados, da Virgínia ao Michigan, um monitor independente do mercado concluiu que os data centers foram o principal fator responsável pela alta.
O tema também entrou no debate político das eleições de meio de mandato deste ano. Entre os defensores de uma moratória nacional estão o senador Bernie Sanders e a deputada Alexandria Ocasio-Cortez, que apresentaram propostas para interromper temporariamente a construção de novos data centers em todo o país.
Embora estudos apresentem resultados divergentes sobre a influência dessas instalações nas tarifas residenciais, dados federais indicam que os custos da energia para consumidores domésticos cresceram mais rapidamente do que aqueles pagos pelos setores comercial e industrial nos últimos anos.
Ao mesmo tempo, alguns especialistas em energia avaliam que grandes projetos poderão contribuir futuramente para tornar a rede elétrica mais estável e até reduzir preços, desde que o mercado regional seja estruturado de forma adequada.
Moratória vale para grandes empreendimentos
A ordem executiva assinada por Hochul aplica-se a data centers com demanda igual ou superior a 50 megawatts de energia. O objetivo é conceder aos legisladores e órgãos reguladores um período de um ano para promover mudanças regulatórias e ajustes no mercado que protejam consumidores e o sistema elétrico.
O gabinete da governadora informou que ainda não sabe quantos projetos serão diretamente afetados pela medida. No entanto, a empresa de dados Cleanview identificou 25 instalações propostas para o Estado de Nova York. Entre elas está um projeto de 300 megawatts planejado nas proximidades de Ithaca, que já enfrenta oposição de comunidades locais.
Em junho, o Legislativo estadual aprovou um projeto de lei prevendo uma moratória de um ano para grandes data centers, mas o texto ainda não foi sancionado. Segundo o gabinete de Hochul, a assinatura da ordem executiva permitiu que a governadora adotasse a medida imediatamente enquanto continua analisando a legislação.
Para Mitch Jones, diretor administrativo de políticas e litígios da organização ambiental Food & Water Watch, a decisão representa uma conquista para grupos que pressionavam o governo estadual. “Esta é uma vitória importante para os milhares de nova-iorquinos que exigiram que seu governo tomasse medidas para pausar os data centers de hiperescala”, afirmou Jones.
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