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EXCLUSIVO: A trajetória do brasileiro que está investindo em robótica no Vale

Redação Recifes
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EXCLUSIVO: A trajetória do brasileiro que está investindo em robótica no Vale

Aos cinco anos, Alex Dantas decidiu que queria trabalhar com robôs. Mas sua vida passou longe de ser linear e teve várias reviravoltas até ele realizar esse sonho. O brasileiro começou a estudar Direito na Universidade Católica de Goiás (atual PUC Goiás). Mudou-se para os Estados Unidos para dançar balé clássico. Morou dentro do próprio carro em São Francisco. Comprou e vendeu imóveis até a crise do subprime derreter o mercado financeiro global. Serviu na Marinha americana – mesmo odiando navegar. Vendeu carros de luxo para clientes no Brasil e na China. Montou algumas empresas de software que fracassaram e uma que deu certo.

Foi apenas em 2016, ao encontrar um antigo prédio industrial vazio em Oakland, que ele finalmente se reconectou profissionalmente com a robótica. Hoje, mais de duas décadas longe do Brasil, ele lidera a Circuit Launch, um ecossistema voltado a startups de hardware, robótica e desenvolvimento de sistemas eletrônicos no Vale do Silício. Com unidades em Oakland e em Mountain View, o plano do fundador e CEO é expandir o modelo para todo os EUA e ainda disputar espaço com universidades na formação de profissionais de mecatrônica.

“Nosso objetivo final é reinventar a universidade. Queremos construir um campus em cada estado dos Estados Unidos até 2035, usando um modelo híbrido para ensinar engenharia mecatrônica”, revelou ele, em conversa com o Startups.

A ideia surgiu a partir de uma necessidade observada dentro do próprio ecossistema. Ao reunir startups de hardware e robótica, Alex percebeu que muitas empresas esbarravam em dois desafios: encontrar infraestrutura para desenvolver protótipos e formar profissionais preparados para atuar nesse mercado.

A partir desse diagnóstico, a Circuit Launch deixou de ser apenas um espaço onde startups de hardware encontravam um teto. O projeto, que começou como uma mistura de coworking com makerspace, evoluiu para um modelo que Alex define como “co-factory”: ambientes compartilhados onde empresas podem desenvolver protótipos, fabricar pequenos lotes e acessar infraestrutura industrial sem precisar montar uma fábrica própria.

Desde a inauguração da unidade de Oakland, em 2017, centenas de startups passaram pelo espaço. Entre elas está a 1X, fabricante de robôs humanoides que já levantou mais de US$ 100 milhões. Outro exemplo é a Cartken, que desenvolve robôs autônomos para transporte e entrega de materiais. A empresa já captou um total acumulado de US$ 22,5 milhões em investimentos, com sua rodada de financiamento mais recente de US$ 10 milhões, liderada pela gestora de capital de risco 468 Capital.

“Em um mundo em que você assiste um vídeo e em 15 minutos aprende a fazer algo, passar quatro, cinco anos na universidade não está fazendo muito sentido. Principalmente nos Estados Unidos, onde você pode chegar a pagar US$ 250 mil para chegar nesse patamar”, avaliou Alex.

No lugar dos cursos tradicionais, a proposta é oferecer programas curtos, orientados por projetos e acompanhados por inteligência artificial, que identifica lacunas de aprendizado e recomenda novos desafios conforme a evolução do aluno.

A formação não acontece diretamente pela Circuit Launch, mas pela MacLabs, empresa criada pelo grupo para desenvolver um modelo alternativo de ensino em engenharia mecatrônica. Embora ainda opere em modo fechado, a iniciativa já recebeu mais de 500 alunos em diferentes programas-piloto e deve ser aberta ao público até o fim deste ano.

Do gibi do Mickey ao Vale do Silício

Quando era criança em Formosa (GO), cidade para onde se mudou ainda pequeno depois de nascer em Goiânia, Alex passava horas lendo revistas de eletrônica na casa de um tio técnico em telecomunicações. Em uma delas, viu um anúncio de um robô à venda. Na mesma época, histórias em quadrinhos do Mickey e do Tio Patinhas, em que robôs ajudavam os personagens, fizeram com que ele decidisse que queria trabalhar com mecatrônica. “Inicialmente, a minha ideia não era trabalhar com robótica. Era trabalhar com engenharia mecatrônica. Eu gostava da parte eletrônica, da parte mecânica e a robótica é uma das vertentes dessa indústria”, relembrou.

Mas o sonho acabou ficando em segundo plano. Na adolescência, Alex conseguiu uma bolsa para estudar Direito em Goiânia e se apresentar como bailarino clássico. Pouco tempo depois, abandonou o curso e se mudou para os Estados Unidos ao conquistar outra bolsa, desta vez para estudar dança em uma escola particular na cidade de Ridgefield, no estado de Connecticut. “Eu nunca me tornei um grande bailarino, mas me tornei muito melhor do que imaginava. O balé me ajudou imensamente no desenvolvimento pessoal”, relembra.

Alex contou que abandonou o balé depois de assistir a uma entrevista de Mikhail Baryshnikov, um dos maiores bailarinos da história, relatando dificuldades financeiras para manter sua escola de dança aberta. Percebendo que nem o “melhor dos melhores” escapava desse aperto, ele decidiu que não valia a pena seguir na carreira.

Foi justamente durante esse período que ele ouviu falar, pela primeira vez, do Vale do Silício. Um amigo descreveu a região como um lugar onde “as árvores davam notas de cem dólares” e onde as pessoas criavam empresas de tecnologia. A curiosidade foi suficiente para que Alex tentasse abrir sua primeira startup. O projeto, no entanto, não conseguiu captar os US$ 2 milhões necessários para sair do papel. Mesmo assim, ele decidiu permanecer na Califórnia.

Nos anos seguintes, a trajetória continuou longe do convencional. Enquanto tentava encontrar uma oportunidade para empreender, chegou a morar dentro do próprio carro em São Francisco – mas um veículo com banco de couro, uma acomodação considerada “luxuosa”, segundo Alex. Aproveitou o aquecimento do mercado imobiliário americano para comprar, reformar e revender imóveis, até que a crise financeira de 2008 encerrou esse ciclo.

Sem saber qual seria o próximo passo, entrou para o exército americano, onde passou quatro anos trabalhando na manutenção eletrônica de embarcações. Depois, voltou ao empreendedorismo e fundou uma sequência de startups de software. Quatro delas fracassaram, enquanto a quinta acabou abrindo caminho para os projetos seguintes.

Nascimento da Circuit Launch

A ideia da Circuit Launch nasceu quando Alex procurava um lugar para trabalhar depois que seu filho nasceu. Na época, ele vendia carros de luxo, como Ferrari, Lamborghini e Mercedes-Benz, para clientes no Brasil e na China. Ao longo de três anos, ele chegou a fazer cerca de US$ 8 milhões em vendas de veículos, tudo feito remotamente: sem site, sem loja física e sem nunca ter conhecido pessoalmente nenhum dos clientes. Foi nesse período, enquanto alugava uma mesa em um escritório de arquitetura em Berkeley, que ele conheceu o proprietário de um prédio em Oakland que estava vazio havia mais de uma década.

Ao visitar o imóvel, o empreendedor enxergou a oportunidade de criar um espaço voltado especificamente para startups de hardware. O dono do prédio se tornou sócio do projeto e investiu os primeiros US$ 750 mil em uma reforma. Já Alex aportou cerca de US$ 100 mil do próprio bolso e levantou outros US$ 100 mil com dois investidores-anjo: um brasileiro e um canadense. Para reduzir os custos da obra, ele desenvolveu um sistema próprio de estruturas de alumínio, fabricado na China, e participou pessoalmente da reforma durante cerca de oito meses.

O primeiro espaço da Circuit Launch, inaugurado em 2017, em Oakland, surgiu a partir deste trabalho. Mas, com o crescimento da comunidade, Alex percebeu que muitas startups instaladas na região não queriam se deslocar até Oakland para utilizar a estrutura da Circuit Launch. Foi essa demanda que motivou a abertura da segunda unidade, inaugurada em 2025.

O campus em Mountain View, no entanto, tem uma história curiosa por trás, que os mais supersticiosos podem até chamar de predestinação. O imóvel abrigou durante muito tempo a Boston Dynamics, empresa de robótica criada a partir de um investimento inicial do Departamento de Defesa dos Estados Unidos por meio do DARPA e que criou o robô Atlas, que viralizou com suas performances de dança e acrobacia e que foi aposentado em 2024.

O prédio também foi a sede do que teria sido a primeira hacker house do Vale do Silício, da qual Alex chegou a ser membro. Na entrada do prédio havia um caixa eletrônico de Bitcoin, pelo qual ele diz ter passado “mais de mil vezes” sem nunca comprar a criptomoeda. Foi justamente ali, durante um dos eventos que costumavam acontecer no espaço, que ele assistiu a uma palestra de um jovem então desconhecido chamado Vitalik Buterin, apresentando um projeto para competir com o Bitcoin: o Ethereum, na época cotado a poucos centavos.

As frentes de negócio da Circuit Launch

Hoje, a Circuit Launch está estruturada em três frentes. A primeira é a própria operação de real estate, que se tornou a base estrutural do negócio. Depois de anos operando em parceria com donos de prédios, Alex percebeu que esse modelo limitava a agilidade e a escolha das melhores localizações, então decidiu criar um fundo para comprar os próprios prédios. Algo parecido com o que faz o McDonald’s. A meta é ter uma unidade em cada estado americano até 2035.

A segunda frente é voltada à manufatura, criada a partir de uma demanda recorrente das próprias startups residentes, que pediam recomendações de fabricantes para produzir seus protótipos. Percebendo que já tinha o espaço, o maquinário e uma comunidade de especialistas dentro de casa, ele decidiu montar um machine shop profissional para competir diretamente com as oficinas de manufatura fragmentadas dos Estados Unidos.

A visão de longo prazo inclui um modelo de roll-up, comprando pequenas oficinas sem sucessão, e eventualmente criando dark factories operadas por humanoides, onde pedidos seriam processados automaticamente do design à entrega, sem necessidade de mão de obra humana.

Já a terceira é a MacLabs, iniciativa de educação que oferece formação em engenharia mecatrônica por meio de projetos práticos e inteligência artificial. O objetivo é competir de igual para igual com instituições como Stanford e MIT em cerca de dez anos, apostando na tese de que as universidades tradicionais entrarão em colapso financeiro nas próximas duas décadas por dependerem de doações e prestígio de elite, não de mensalidades.

Alex explica que cada uma dessas frentes atende a um público diferente. Para ilustrar essa lógica, ele costuma recorrer a uma analogia recorrente em suas apresentações: todo negócio precisa identificar primeiro o “macaco” (o cliente) para depois entregar a “banana”, ou seja, a solução para aquele problema. “Cada um desses produtos tem macacos e bananas diferentes, mas eles, como ecossistema, se integram muitíssimo bem”, ressaltou.

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Artigo originalmente publicado em startups.com.br
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