Algumas estrelas parecem azuis, como Spica, a mais brilhante da constelação de Virgem. Outras exibem um intenso tom avermelhado, que é o caso de Antares, a principal de Escorpião. Pollux, a mais luminosa de Gêmeos, tem coloração alaranjada. Já Sirius, a mais brilhante do céu noturno, é branca, enquanto Alpha Centauri A, uma das principais estrelas do sistema estelar mais próximo do Sol, apresenta tonalidade amarela.
As estrelas variam em cor conforme a temperatura. As mais quentes são azuladas ou brancas, enquanto as mais frias tendem ao laranja ou vermelho. Os astrônomos classificam as estrelas da sequência principal em tipos espectrais: O (azul), B (branco-azulado), A (branca), F (branco-amarelada), G (amarela), K (laranja) e M (vermelha), do mais quente ao mais frio.
No caso do Sol, embora seja considerado uma estrela anã amarela, a luz que emite é praticamente branca. O aspecto amarelado que observamos quando ele está próximo ao horizonte é provocado pela atmosfera do planeta, que espalha parte da luz azul antes que ela alcance nossos olhos.
Mas, entre tantas cores, existe alguma estrela verde? Há muito tempo um astro em específico desperta essa discussão. Trata-se de Zubeneschamali, também conhecida como Beta Librae, a estrela mais brilhante da constelação de Libra. Ela ficou famosa por supostamente apresentar uma tonalidade esverdeada, a ponto de muitos observadores afirmarem que se trata da única estrela verde visível a olho nu.
O curioso é que essa fama contradiz a astronomia moderna. De acordo com o site EarthSky.org, os cientistas garantem que estrelas verdes simplesmente não existem.
A explicação está na forma como esses astros emitem luz. Embora uma estrela produza comprimentos de onda correspondentes ao verde, ela também emite luz em diversas outras cores ao mesmo tempo. Como todas essas cores se misturam, o resultado final percebido pelo olho humano nunca é um verde.
Entre os astrônomos, Zubeneschamali é classificada como uma estrela azul-esbranquiçada do tipo espectral B, um grupo formado por estrelas extremamente quentes.
Mesmo assim, o debate continua. Ao longo da história, diversos observadores relataram enxergar um discreto tom esverdeado nessa estrela. Um dos exemplos mais conhecidos é o do astrônomo amador William Tyler Olcott, dos EUA, que a descreveu como a única estrela verde visível sem o auxílio de telescópios. Seu relato foi reproduzido no clássico Burnham’s Celestial Handbook, uma das principais referências para observadores do céu.
Mapa de localização das estrelas Zubenelgenubi (Alpha Librae) e Zubeneschamali (Beta Librae) – Crédito: União Astronômica Internacional/ Sky & Telescope (Roger Sinnott & Rick Fienberg)/ Wikimedia Commons ( CC BY 3.0 )
Por que algumas pessoas enxergam a estrela como verde?
Uma das hipóteses é que a resposta esteja na visão humana. A percepção das cores varia de pessoa para pessoa e pode ser influenciada por fatores como a adaptação dos olhos ao escuro, a transparência da atmosfera e até o contraste entre estrelas vizinhas. Em outras palavras, duas pessoas podem olhar para o mesmo astro e perceber cores ligeiramente diferentes.
Quem quiser fazer o teste pode procurar Zubeneschamali em uma noite de céu limpo. Astrônomos amadores recomendam observá-la primeiro a olho nu e, depois, com um binóculo. Também vale pedir a opinião de outras pessoas, já que nem todos enxergam a mesma tonalidade.
Zubeneschamali pode ser observada em noites de céu limpo olhando para a direção da constelação de Libra, que fica próxima de Escorpião – facilmente identificado pela estrela vermelha Antares. Uma boa referência é localizar primeiro Escorpião e, em seguida, buscar uma área ligeiramente ao norte dessa constelação, onde Libra aparece mais discreta. A observação é mais favorável entre abril e setembro, quando essa parte do céu fica mais alta no início da noite, especialmente entre 20h e 23h (pelo horário de Brasília).
Um app de observação, como Stellarium, Star Walk ou Sky Safari, por exemplo, pode ajudar a encontrar a constelação de Libra.
Localização da estrela Zubeneschamali no céu – Crédito: Stellarium / Adaptado e editado por Olhar Digital
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A história de Zubeneschamali
Além da polêmica sobre sua cor, Zubeneschamali também chama atenção por sua história. Seu nome vem do árabe e significa “Garra do Norte”, enquanto a estrela vizinha Zubenelgenubi significa “Garra do Sul”. Esses nomes são uma herança de milhares de anos atrás, quando ambas pertenciam à constelação de Escorpião e representavam as garras do animal.
Mais tarde, gregos e romanos redesenharam essa região do céu e criaram a constelação de Libra, representada por uma balança. Há mais de dois mil anos, durante o equinócio de outono no Hemisfério Norte, o Sol aparecia diante dessa constelação, simbolizando o equilíbrio entre a duração do dia e da noite. Atualmente, por causa da precessão (o lento movimento do eixo de rotação da Terra), o Sol passa pelo equinócio em frente à constelação de Virgem.
Do ponto de vista científico, Zubeneschamali também se destaca pelo brilho. Embora pareça ter luminosidade semelhante à da vizinha Zubenelgenubi (Alpha Librae) quando observada da Terra, isso acontece apenas porque está muito mais distante. Enquanto Zubenelgenubi fica a cerca de 75 anos-luz de distância, Zubeneschamali está a aproximadamente 185 anos-luz. Na realidade, Beta Librae tem uma luminosidade quase cinco vezes maior que Alpha Librae e cerca de 130 vezes maior que o Sol.
Mesmo após décadas de estudos, a explicação científica permanece a mesma: estrelas verdes não existem. Mas Zubeneschamali continua desafiando a percepção de muitos observadores e alimentando uma curiosidade que atravessa gerações. Seja uma questão de ilusão de ótica ou apenas de uma característica da visão humana, ela segue como um dos debates mais curiosos da astronomia observacional. O post Existem estrelas verdes? apareceu primeiro em Olhar Digital.