Fezes de 700 mil anos denunciam: esquilos pré-históricos eram comedores de mamute
<p>Quando pensamos em predadores dos mamutes lanosos, a mente vai direto para grandes felinos com dentes de sabre ou para os próprios humanos ancestrais. Mas uma descoberta inusitada no Ártico canadense está reescrevendo esse cardápio: esquilos pré-históricos também mordiam uma fatia desses gigantes da era do gelo. A evidência vem de uma fonte nada glamourosa — fezes fossilizadas com 700 mil anos de idade.</p><p>Pesquisadores escavaram túneis escavados no permafrost, a camada de solo permanentemente congelada do Canadá, e encontraram coprolitos — o nome científico para excrementos fossilizados — deixados por roedores antigos. Ao submeter essas amostras à análise genética, os cientistas conseguiram identificar fragmentos de DNA preservados pelo frio extremo. O resultado foi surpreendente: o material genético de mamutes (<em>Mammuthus</em> spp.) estava claramente presente nas fezes dos pequenos animais.</p><p>A interpretação mais provável não é que os esquilos caçavam mamutes — tarefa obviamente impossível para um animal de poucos centímetros. O comportamento identificado é o do necrofagismo, ou seja, alimentar-se de carcaças já mortas. Roedores têm o hábito bem documentado de roer ossos e carne seca em decomposição para obter proteínas, gorduras e minerais essenciais, especialmente durante os rigorosos invernos árticos. Um mamute morto representava, literalmente, um banquete que poderia durar semanas.</p><p>O que torna essa descoberta particularmente valiosa para a ciência é a raridade da preservação. O permafrost funciona como uma câmara fria natural, capaz de manter moléculas de DNA intactas por centenas de milênios. Esse tipo de análise, chamada de paleogenômica, está revolucionando nossa compreensão das teias alimentares do Pleistoceno — o período que vai de 2,6 milhões a 11.700 anos atrás. Cada coprolito é, essencialmente, um instantâneo molecular do que um animal comeu em um determinado dia, congelado no tempo.</p><p>Além de revelar o cardápio surpreendente dos esquilos antigos, o estudo abre portas para investigações mais amplas sobre como os ecossistemas árticos funcionavam antes da extinção em massa da megafauna. Compreender quais espécies interagiam, e de que forma, ajuda os cientistas a modelar o colapso desses ecossistemas — e a tirar lições sobre a crise de biodiversidade que o planeta enfrenta hoje. Afinal, o passado congelado tem muito a dizer sobre o futuro aquecido.</p>
Artigo originalmente publicado em
super.abril.com.br