André Serpa, VP da ClickHouse para a América Latina | Foto: divulgação
No mercado de banco de dados para grandes empresas, a ClickHouse ainda é uma desafiante nova. Entretanto, em um cenário transformado pela inteligência artificial, a companhia nascida na Rússia está crescendo rápido e atraindo grandes clientes com a sua proposta. Agora, em sua estratégia de expansão global, o Brasil entra na mira, e a startup tem se estruturado para isso.
A empresa iniciou sua operação no Brasil e na América Latina no começo do ano passado, e, para acelerar a investida, contratou André Serpa, veterano de mercado que ajudou a trazer o Google Cloud para o Brasil, como VP para a América Latina. Contudo, conforme destacou o executivo em conversa exclusiva com o Startups, a empresa deixou para ligar o seu “modo de ataque” agora em 2026.
“Neste ano, estruturamos o time em todos os aspectos do mercado, com vendas, pré-vendas, treinamento, consultoria, marketing e parceiros”, explica o VP, frisando que a região é vista com otimismo pela multinacional.
A aposta na região, diz André, não é acaso. O CEO Aaron Katz queria abrir a operação latino-americana desde o início de 2024, convencido pelo potencial da região e por sua forte cultura de adoção de código aberto. “Há uma grande oportunidade de mercado, não só no Brasil, mas na região inteira”, afirma o VP, que já tem equipes na Argentina e na Colômbia e prepara a chegada ao México.
Com a estratégia alinhada, as metas são agressivas. Globalmente, a ClickHouse acabou de cruzar os US$ 250 milhões em receita recorrente anual, triplicando o negócio em menos de um ano. A receita recorrente cresce mais de 250% ao ano, e a base de clientes saltou de 3 mil para 4 mil nos últimos meses, conforme destaca o executivo.
Já a América Latina, conforme avalia André, tem a capacidade de correr ainda mais rápido. “Este ano vamos crescer o negócio de 4 a 5 vezes”, afirma.
Do “Google russo” para o mundo
Apesar da fama recente, a ClickHouse não nasceu ontem. Para o Startups, o cofundador e CTO Alexei Milovidov disse como criou a tecnologia dentro da Yandex, a gigante de buscas por anos apelidada de “Google russo”, enquanto desenvolvia um sistema de web analytics parecido com o Google Analytics.
“Eu precisava agregar centenas de bilhões de eventos, de páginas vistas na internet todos os dias, e armazenar trilhões deles”, conta. As soluções da época não davam conta: ou não escalavam, ou não comprimiam os dados, ou custavam caro demais em licença. Alexei então construiu o próprio banco de dados colunar.
Em 2016, ele decidiu abrir o código. “Percebi que engenheiros de muitas outras empresas também procuravam soluções semelhantes, e eu já a tinha”, diz. A adoção foi imediata: Cloudflare, eBay e Uber estiveram entre as primeiras. Atualmente, rodam sobre o ClickHouse marcas como OpenAI, Anthropic, Tesla, Meta, Netflix e a própria Microsoft, que usa a tecnologia em seu BI.
Em 2021, a tecnologia foi desmembrada da Yandex e virou empresa, com Milovidov, Katz e Yury Izrailevsky à frente. Em maio de 2025, a ClickHouse levantou uma Série C de US$ 350 milhões, liderada pela Khosla Ventures, a um valuation de cerca de US$ 6,35 bilhões. Menos de um ano depois, em janeiro de 2026, veio a Série D de US$ 400 milhões, liderada pela Dragoneer, que mais que dobrou o preço para cerca de US$ 15 bilhões.
Com o caixa reforçado, a ClickHouse ganhou força para entrar na briga com nomes tradicionais e com novos desafiantes hypados como a Databricks e a Snowflake. O combustível dessa virada tem nome: inteligência artificial.
Há cerca de um ano, a empresa percebeu que as mesmas qualidades que faziam do ClickHouse um bom banco para análise em tempo real o tornavam ideal para a “analítica agêntica”. Segundo ele, a diferença é de escala, com queries sendo executadas mais rápido que em outros players. “Se com a gente cada query leva milissegundos, você recebe a resposta rápido e quer perguntar mais e mais”, afirma o CTO.
Inclusive, a empresa está dobrando a sua aposta em agentes. Recentemente, lançou um produto dedicado a construir agentes de produção diretamente sobre a base de dados, com um nome que não poderia ser mais direto: ClickHouse Agents.
Na América Latina, o argumento de custo versus performance tem um exemplo de peso: o MercadoLibre. A gigante do e-commerce monitora todas as ações dos usuários no site, mas, por causa do custo, só conseguia analisar uma amostra de 1% dos cliques. Com o ClickHouse, montou um projeto para capturar 100%.
“Eles tiveram cerca de 123 milhões de clientes únicos só no primeiro trimestre deste ano e cerca de 83 milhões de usuários ativos. Imagina o volume de dados”, diz André. O resultado: 50% de redução de custo e análises 50 vezes mais rápidas que a solução anterior. À lista de clientes locais somam-se nomes como QuintoAndar e iFood.
Parte da tração, brinca o VP, vem de um aliado inesperado. “Quando você pergunta ao ChatGPT ou ao Claude qual o melhor banco de dados de analytics em tempo real, especialmente em custo e performance, eles respondem ClickHouse”, diz. Some-se a isso referências fortes rodando na plataforma, e a conversa fica mais fácil na hora de vender.
Com todas as referências positivas, agora o plano é apertar o passo. Aliás, segundo André, há até uma aposta feita em forma de brincadeira com Alexei: dobrar de tamanho na América Latina, no mínimo, todos os anos pelos próximos três a cinco anos. É uma meta ambiciosa, mas, na visão do VP, é plenamente factível.
“Com as novas exigências da IA, o ClickHouse se posiciona como uma solução feita para isso. A gente não tinha previsto exatamente como a demanda iria ‘explodir’, mas custo baixo e velocidade são requisitos dos quais nenhum cliente vai abrir mão se quiser construir uma estratégia de IA com agentes”, finaliza. O post Focada no Brasil, ClickHouse se estrutura para atacar a América Latina apareceu primeiro em Startups.